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Saúde mental: desafios para uma articulação nacional no enfrentamento à pandemia

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Tese inicial: na esfera da humanidade nada escapa ao modo como os homens organizam a vida social, política e econômica das nações. A saúde mental não está fora desta premissa.

Catástrofes ditas “naturais” não eximem de responsabilidade os governantes nem a sociedade civil de responsabilidade preventivas, durante e posteriores aos acontecimentos.

Todo desastre ecológico e sanitário, têm o potencial de gerar um trauma que afeta a vida mental dos indivíduos e da sociedade como um todo. Apenas se compreendermos a dimensão psíquica, social e econômica da catástrofe humanitária poderemos dimensionar, planejar e executar caminhos e ações de contenção e reparatória. O negacionismo obscurece, mascara e impede a busca de propostas concretas e adequadas, além de gerar desamparo e incerteza na população.

Chamamos reparação em psicanálise à ação e ao pensamento que visa reparar um dano real ou fantasiado. Os líderes e governantes deveriam, frente a essas catástrofes ecológico-humanitárias, procurar as condições de ação imediata nas múltiplas frentes. Isto não apenas ameniza a dor e sofrimento, mas cria uma rede de apoio da população ancorada na confiança da população pelos seus governantes, garantindo adesão a medidas como “lockdown” que, mesmo desagradáveis e não populares, revelariam o gesto de cuidado e prevenção.

A psicanálise nos ensina que o trauma diz respeito ao efeito da incidência de um acontecimento singular ou reiterativo que impacta a vida e subjetividade dos indivíduos e da comunidade. Diz respeito ao impacto capaz de desestruturar o psiquismo, de questionar os alicerces da subjetividade que se constrói na confiança no outro para mitigar o desamparo constitucional do ser humano.

O estado moderno além de figura de autoridade, que tem como função a regulação da vida coletiva, tem o dever de zelar pelos direitos básicos de seus habitantes, entre eles a saúde mental. Não se trata de bravatas ou sofismas, mas de atos concretos que garantam o amparo social e a atenção empática à dor e sofrimento psíquico da população.

O que esses desastres assinalam é a falência do estado, um estado submetido a interesses de determinados grupos que não se importa em colocar o planeta nem a população em condição de risco. Esta lógica predatória dizima populações, recursos naturais e, ainda mais, gera desesperança e trauma social gerando ódio, ressentimento violência social.

Como continuar em frente quando a realidade se mostra tão avassaladora?

Como se sobrepor ao sentimento de impotência frente ao desamparo gerado pelo desmando e negacionismo?

Como poder elaborar o luto pela perda de tantas vidas quando o ódio e o ressentimento se constituem no oxigênio que alimenta a chama viva da perda?

O acontecimento e a pandemia são da ordem do factual, o trauma é da ordem do desmantelamento das referências sociais e subjetivas que nos conferem nossa identidade, nossa esperança, nossa confiança, nossa noção de tempo e continuidade, nossos sonhos e projetos. Demandam a necessidade imperiosa de recompor um tecido mental esgarçado, demanda recuperar a confiança, a vontade de viver e produzir. Nossa missão como profissionais da saúde mental e cidadãos é contribuir de todas as formas possíveis para recompor esses vínculos esgarçados consigo mesmo, com as famílias, com a vida, com projetos e sonhos.

Os líderes de uma nação têm o dever de compreender o dano material, mas também o dano subjetivo dessas catástrofes sociais, ecológicas e humanitárias.

Os líderes de uma nação, não podem apenas fazer contas.

Os líderes de uma nação não podem olhar a realidade da morte apenas como estatística.

Os líderes de uma nação precisam, quando dispõem de um mínimo de empatia pela dor do outro, agir de modo a desenvolver orientados pela ciência, pelos profissionais da saúde mental, acolher e conter a angústia inominável do sofrimento pela perda real e imaginária que a catástrofe produziu.

Psicanalistas da nossa instituição e de tantas outras criaram no Brasil todo inúmeras iniciativas, redes e plataformas de atendimento online, oferecendo espaços de escuta e contenção para a dor e angústias, atendimentos gratuitos para todos os profissionais envolvidos no tratamento da COVID que nos procuraram. Continuamos parcerias e convênios com comunidades mais carentes, orientamos professores de escolas públicas e privadas, famílias etc. A criação de redes de assistência nas quais a solidariedade, amparo, empatia e informação podem contribuir para diminuir o impacto traumático e desestruturante consequência do acontecimento tão devastador. Estamos à disposição para oferecer assessoria em diferentes níveis e contribuir com todas as instâncias que busquem oferecer apoio e cuidado a nossa população.

*Trabalho apresentado no Seminário Nacional Interdisciplinar realizado em 31/05/2021. DESAFIOS PARA UMA ARTICULAÇÃO NACIONAL NO ENFRENTAMENTO À PANDEMIA promovido pelo Direitos Já. 

Bernardo Tanis é membro efetivo e docente da SBPSP, Doutor pelo Núcleo de Psicanálise da PUC. Ex-Presidente da SBPSP (2017-2020), editor da RBP (2010-2015).

Imagem: Guerra e Paz – Candido Portinari (década de 1950)



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