O declínio do Nome-do-Pai: cinema e paternidade em tempos de transformação
Home Blog cinema O declínio do Nome-do-Pai: cinema e paternidade em tempos de transformaçãoNotas sobre o cinema contemporâneo à luz da psicanálise
A partir de filmes apresentados no Oscar 2026, o texto propõe uma leitura psicanalítica das transformações da paternidade e dos modos de autoridade no mundo contemporâneo.
No dia 15 de março, assistimos à premiação do Oscar 2026. Foram cerca de 18 milhões de espectadores nos Estados Unidos e, embora não haja medição consolidada da audiência fora do país, sabe-se que a transmissão alcança mais de 200 países, com uma estimativa global entre 30 e 60 milhões de pessoas. Especialistas indicam que o alcance da premiação vem diminuindo. Além disso, a qualidade dos filmes produzidos pela indústria cinematográfica americana, que já viveu seu momento de glória, parece em declínio. Hollywood já esteve na vanguarda do soft power, criando desejos, modelando o imaginário e difundindo a democracia americana; hoje, porém, vem perdendo espaço para produções alternativas, muitas delas situadas fora da grande indústria cinematográfica. Voltaremos a esse declínio mais adiante.
No ano passado, na categoria de filme estrangeiro, o brasileiro Ainda estou aqui (Walter Salles) venceu — um feito notável, sobretudo diante da qualidade dos concorrentes. Neste ano, algumas obras chamaram minha atenção — todas ótimas — e, sinceramente, fico muito feliz por não precisar escolher a melhor entre elas. Quero apenas compartilhar algumas impressões e pontos de cruzamento entre filmes apresentados no Oscar 2026: Hamnet (Chloé Zhao), Sirât (Aïcha Ben Miled), Uma batalha após a outra (Paul Thomas Anderson), Se eu tivesse pernas, eu te chutaria (Maïwenn), Valor sentimental (Joachim Trier), Foi apenas um acidente (Asghar Farhadi) e Agente secreto (Kleber Mendonça Filho).
A psicanálise, desde Freud, revelou o entrelaçamento entre expressões culturais, sofrimentos individuais, manifestações sociais e produções artísticas. Os filmes acima citados têm muito a dizer sobre o mundo que nos cerca e sobre os dramas humanos contemporâneos — expressos na tela. Compartilham muitas das questões que surgem em nossos divãs e são captadas pelas antenas parabólicas da psicanálise. Nas palavras de Horenstein (2012), “em sua condição fractal, a psicanálise permite observar, sob o microscópio de cada cura, a mesma estrutura que governa a experiência em termos de época” (p. 28). Essa formulação pode ser estendida às produções artísticas: o cinema, assim como as demais artes, em sua condição fractal, permite observar, em cada obra, a mesma estrutura que governa a experiência de uma época.
O problema do pai — o tema da paternidade — está explicitamente presente em vários dos filmes mencionados. Em Hamnet, questiona-se se Shakespeare teria sido um pai ausente. Em Sirât, acompanhamos um pai que procura desesperadamente a filha perdida e acaba se submetendo ao desejo do filho caçula. Em Valor sentimental, o pai retorna na tentativa de reparar os danos ocasionados por sua ausência.
Em Uma batalha após a outra, vemos um pai que abdica de seus anseios para criar a filha, mas é apresentado como fraco e necessitado de cuidados, sendo, inclusive, protegido por ela — invertendo a máxima de que os pais devem proteger os filhos. Em Agente secreto, a história de luta e resistência do pai é apagada, e ao filho resta uma indiferença amarga, atravessada por um sentimento de abandono pouco elaborado.
Em Se eu tivesse pernas, eu te chutaria, a ausência do pai se faz incansavelmente presente e atordoa não apenas a personagem principal; o espectador, igualmente impactado, revolve-se diante da diferença entre as exigências que recaem sobre a mãe e a facilidade com que o pai se ausenta. Já em Foi apenas um acidente, de um lado está o Estado, que subverte a função de proteção; de outro, um pai que, em desespero, invoca a necessidade de proteger o filho pequeno para tentar escapar à vingança de seus algozes.
Os filmes acima citados parecem situar-se sob o domínio do declínio do Nome-do-Pai (Jacques Lacan) — uma formulação psicanalítica que é, ao mesmo tempo, clínica e histórica. Nesse sentido, podemos considerá-la um interpretante: uma expressão que nasce da experiência clínica como tentativa de descrever uma determinada conjuntura e que, pela sua capacidade de produzir novos sentidos, transforma o campo de onde emerge e merece ser incorporada à práxis psicanalítica. Assim, os interpretantes revelam a natureza inventiva e experimental da psicanálise.
Os enredos mencionados aqui, cada um à sua maneira, referem-se ao enfraquecimento da função simbólica — encarnada na figura do pai — que, tradicionalmente, introduzia a lei, organizava o desejo e limitava o gozo. Não se trata do desaparecimento dessa função, mas de certo afrouxamento, em um contexto de transformações históricas que abalaram as formas clássicas de autoridade e de transmissão de poder. Nesse cenário, o sujeito passa a dispor de menos referências simbólicas estáveis e fica mais exposto a uma multiplicidade de discursos e demandas, muitas vezes contraditórios. O que se observa, portanto, é uma reorganização da sociedade, na qual a lei deixa de operar como eixo estruturante único, desprende-se de uma figura de autoridade e abre espaço para formas mais difusas e instáveis de regulação da experiência. A partir daí, o singular dá lugar ao plural: podemos falar em paternidades e masculinidades.
Os filmes, ainda que não explicitamente, questionam o lugar tradicional do pai. Sua força e seu poder, agora declinantes, dão lugar à vulnerabilidade, à fraqueza e à ternura. O pai, que até pouco tempo atrás era a primeira e última autoridade sobre a vida e a morte de filhos e esposas, vê-se hoje diminuído em seu poder e precisa refazer laços, conquistar o amor e o respeito das filhas e elaborar a própria culpa pelo abandono — como Gustav Borg, em Valor sentimental.
Ou, ainda, o pai de Sirât, Luis, que se culpa pelo desaparecimento da filha e permite que o filho mais novo tome a dianteira, pois se sente perdido no deserto do Marrocos e em um mundo cujas regras desconhece. Não quero dar mais spoilers do que já dei; faço apenas uma última observação antes de encerrar este texto.
A própria decadência de Hollywood pode ser pensada no centro desse declínio da autoridade. Filmes são hoje produzidos em todo o mundo, muitos deles fruto da cooperação entre diferentes países. Um mundo multifacetado, plural — como são também as masculinidades e paternidades contemporâneas.
Outra temática que atravessa esses filmes — e que mereceria um desenvolvimento à parte — é a da arte como espaço de elaboração dos lutos e das perdas. Mas isso fica para um próximo texto.
Luciana Saddi é psicanalista e escritora. Membro efetivo e docente da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo. Mestre em Psicologia pela PUC-SP. Diretora de Cultura e Comunidade da Febrapsi (2017/2020). Autora de Educação para a Morte (Ed. Patuá). Fundadora do Grupo Corpo e Cultura. Coordenadora do Programa de Cinema e Psicanálise da Diretoria de Cultura e Comunidade da SBPSP, em parceria com o MIS e a Folha de S.Paulo.
Referência
HORENSTEIN, M. (2012). O vaso e as sementes de girassol: notas para uma tradição que virá. Calibán: Revista Latino-Americana de Psicanálise, 10(1), 27–38.
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Luciana Saddi é escritora e psicanalista. Diretora de Cultura e Comunidade da Febrapsi e coordenadora do Ciclo de Cinema e Psicanálise da Diretoria de Cultura e Comunidade da SBPSP.
Imagem: frame do filme Valor Sentimental (Joachim Trier, 2025)
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