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Ampliando o foco sobre os transtornos autísticos: entrevista com Vera Regina Fonseca

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A psiquiatra e psicanalista Vera Regina Fonseca (SBPSP) acaba de lançar seu livro Ampliando o foco sobre os transtornos autísticos (Blucher, 2026). O blog conversou com a autora sobre a obra.

Blog: Na introdução de seu livro, você descreve a experiência de transitar entre a psicanálise e a etologia como habitar duas línguas ao mesmo tempo — sendo vista como pesquisadora pelos psicanalistas e como psicanalista pelos pesquisadores. Mas, ao longo do livro, fica evidente que esse desconforto foi também produtivo: foi justamente nessa fronteira que você formulou hipóteses que nenhuma das duas tradições, sozinha, alcançaria — como a ligação entre a dificuldade com o pronome “eu” e a ausência de tridimensionalidade no espaço mental. Como essa posição de “estrangeira em dois territórios” moldou não apenas o método do livro, mas a sua própria identidade como clínica?

VERA REGINA FONSECA: Cada psicanalista tem uma tarefa complicada, que é adquirir conhecimento e refletir sobre as teorias e, ao mesmo tempo, criar espaço para as peculiaridades de seu próprio modo de ser e de trabalhar. Eu nunca quis abdicar de minha condição de médica, entusiasmada com as possibilidades da pesquisa, em sentido amplo. Ao mesmo tempo, tentei me segurar firme na âncora psicanalítica, na crença no inconsciente, na primazia das relações para o desenvolvimento e na necessidade de um setting rigoroso (ainda que elástico). Mas é só a posteriori que conseguimos formular claramente as dificuldades de “viajar” e se comunicar usando duas linguagens distintas.

Darei um exemplo: quando se estuda o quanto a perspectiva social formata o desenvolvimento dos primatas, o termo social adquire um significado especial. Em alguns estudos sobre a relação entre o tamanho do lobo pré-frontal e o do grupo de membros com o qual o indivíduo tem de lidar, fica claro como as relações sociais são demandantes, exigindo uma rede especial e complexa para administrá-las. Quando um primata, humano ou não, está vivendo em grupo, precisa monitorar as inúmeras reações dos outros, seja para se adequar a eles, seja para desafiá-los. Essa rica rede de rastreamento é evidente nos estudos de Jane Goodall e de outros primatólogos, mas também nos estudos de etologia humana. Por outro lado, quando estamos com uma criança autista (ou ainda com outros pacientes com dificuldades sociais), temos que, partindo de nossa percepção (contratransferência), intuir como ela se relaciona com este outro que sou eu, quais emoções surgem e quais defesas são colocadas em ação. Nossa lente muda e tem de ser ajustada como uma espécie de “macro”. De qualquer modo, ainda que me encante a elegância de algumas formulações puramente psicanalíticas e dos cuidadosos trabalhos da etologia, tenho certeza de que não poderia ser de outro jeito. E de que podemos acabar nos divertindo quando nos permitimos tal liberdade.

Blog: Nas conclusões, você propõe que o traço invariante nos transtornos do espectro autista não está na etiologia — sempre múltipla e incerta —, mas em uma falha na construção da estrutura dialógica self/outro, que compromete a regulação emocional, a simbolização e a inserção na cultura. Essa formulação, ao mesmo tempo psicanalítica e interdisciplinar, implica que a psicanálise tem algo a oferecer independentemente da causa do quadro. Como você defende essa posição em um campo clínico e científico no qual as abordagens comportamentais dominam os protocolos oficiais — e o que, na sua experiência, a psicanálise consegue alcançar que essas abordagens não alcançam?

VERA REGINA FONSECA: A inferência da existência de tal estrutura foi feita a posteriori, como fruto do estudo multidisciplinar. Mas acho impossível rastrear a estrutura dialógica por meio de um protocolo, pois nela estão sempre entrelaçados os aspectos emocionais ligados à aceitação ou à repulsa do outro, que só são perceptíveis se o analista for capaz de se identificar com alguém muito diferente. Sabemos que os mapas dessa viagem não estão prontos, mas que precisamos acompanhar o paciente passo a passo e intuir seu modo único de navegar (ou evitar) a vida. É essa disposição para aceitar a singularidade do paciente e tentar alcançá-lo que permite à psicanálise uma abordagem ampla e profunda.

Em certa parte do livro, descrevo uma sequência filmada em que Daniel encena a despedida e o retorno da boneca Branca de Neve. Foi emocionante para mim ver que ele me olhava, esperando que eu completasse uma espécie de ritual que criamos espontaneamente:

V: “Olha a Branca de Neve chegando!”

Quando a boneca está bem perto do rosto de Daniel, digo, com uma voz fininha: “Oi, Daniel!”

Ele a olha, vira-a de costas e faz com que ela volte, em seus pulinhos, para o fundo da poltrona. Então olha para mim, como que dando uma pista. Digo: “Tchau, Daniel! Tchau, tchau!”

A sequência completa se desenrola novamente e, quando Branca de Neve chega à sua frente, ele faz com que ela curve a cabeça várias vezes, como num cumprimento, antes de se virar e se afastar mais uma vez.

V: “Tchau, Daniel, a gente se vê amanhã! A Branca vai embora, dá tchau, e depois volta!!!”

Eu estava presenciando, ao vivo, o dilema essencial das separações e dos reencontros, e a expectativa em relação a eles presente em Daniel, apesar de seu comportamento tipicamente não responsivo. Algo dessas expectativas estava preservado e, portanto, também das angústias presentes diante da perda do objeto, sem substitutos simbólicos que ajudassem a superá-la. Ao longo do livro, há muitas passagens clínicas que exemplificam o olhar psicanalítico, mas aqui, em particular, fica ilustrada a fronteira, a perplexidade diante da atipia do desenvolvimento e, ao mesmo tempo, da preservação das características emocionais básicas do ser humano.

Blog: Em psicanálise, o termo “autismo” é empregado com maior flexibilidade do que no discurso psicopatológico da neurologia e da psiquiatria. Exemplos desse uso ampliado incluem as reflexões que Frances Tustin tece em Barreiras autistas em pacientes neuróticos (1986), bem como a postulação de uma “posição autista-contígua” por Thomas Ogden. Como você enxerga esses usos alargados ou estendidos do termo?

VERA REGINA FONSECA: De fato, mais tarde em sua carreira, Tustin identificou, em pacientes não autistas, o mecanismo básico que julgava ser subjacente aos quadros autísticos, descrevendo-os como bolsões autísticos. Tal extensão tem tradição tanto na psiquiatria quanto na psicanálise, que sempre considerou a psicopatologia como um potencial implícito em todo desenvolvimento mental. Lembremos que Bleger, em 1967, em seu livro Simbiosis y ambigüedad, já havia descrito a posição gliscro-cárica (de núcleo viscoso, do grego) antes de Ogden (1989) trazer a ideia de posição autista-contígua.

Por outro lado, acho que Tustin não se preocupava muito em definir estritamente uma categoria psicopatológica. Ela atendia seus pacientes e percebia semelhanças e diferenças entre eles, o que lhe permitiu descrever dois grupos distintos: o autismo tipo concha (no qual o retraimento é a marca mais clara) e o autismo confusional (com aspectos mais psicóticos e simbióticos), que são bastante reconhecíveis, inclusive pela psiquiatria, independentemente das variações de nomenclatura. Mas, a meu ver, o ponto essencial que distingue a abordagem psicanalítica dos transtornos do espectro autista é a conceituação da angústia de aniquilamento como ponto de base da cadeia sintomática. E aqui surge a questão da etiologia, que corre o risco de ser distorcida por vários vieses. Os fatores que se combinam para levar a um transtorno do espectro autista são variados, com alta probabilidade de incluir fatores genéticos; mas isso não significa que a criança seja “amental” (sem mente). E, onde há mente, a psicanálise tem lugar, tendo como objetivo atenuar as defesas autísticas que surgem diante da angústia de aniquilação, ligada à dificuldade básica (e provavelmente inata) de intersubjetividade.

Vera Regina Fonseca é psiquiatra, analista didata da SBPSP. Doutora e pós-doutora pelo IPUSP. Diretora Científica da SBPSP e Diretora do Instituto de Psicanálise da SBPSP (2012-2020). Coordenadora do INSPIRA (Grupo internacional de pesquisa psicanalítica sobre TEA). Membro do Grupo de Estudos sobre TEA da Associação Psicanalítica Americana.

Imagem:
Vera Regina Fonseca e o livro “Ampliando o foco sobre os transtornos autísticos” (Blucher, 2026).

As opiniões dos textos publicados no Blog da SBPSP são de responsabilidade exclusiva dos autores.    



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