Dois túneis e um sorriso: a adolescência em Dois pais entre Freud e Ferenczi
Estranho
O que sentiria um pré-adolescente, em 2026, ao ler Dois pais (Folhas de Relva Edições), novela infantojuvenil recém-lançada por Moacyr Godoy Moreira?
A história, ambientada em 1983, teria sido encontrada por um estudante de jornalismo, ao desfazer caixas antigas. O texto lhe foi ofertado, anos antes, por seu Alcides, bibliotecário da escola frequentada pelo futuro jornalista, que disse ao então aluno do Ensino Fundamental: “esta história aconteceu comigo quando eu tinha mais ou menos a sua idade, garoto. Acho que você vai gostar”.
Essas informações são fornecidas ao leitor, antes do capítulo 1, em uma “Nota de esclarecimento” assinada por M. G. A. (iniciais do próprio autor do livro, escritor e médico, nascido em 1972, de acordo com a minibiografia inserida na orelha).
Estranho?
Às voltas com essa palavra – estranho – penso no título da novela. A menção ao pai, algo tão familiar, conquanto no singular: o pai. Mas dois pais?
Estranho.
Talvez um pré-adolescente, nos dias de hoje, considere mesmo estranho telefonar (telefonar?) para a casa da colega por quem está encantado e ser atendido pelo pai dela. Ou passar horas no quarto escutando canções gravadas em uma fita cassete (Beto Guedes, Boca Livre, Queen…). Ou, ainda, imaginar jogadores de futebol entrarem em campo trajando camisas com a inscrição “Democracia”, em vez de plataformas de bets. Ou, quem sabe, descobrir que a mãe de sua colega estava desaparecida porque foi perseguida por quem governava o país.
Confusão
A viagem no tempo, proporcionada pela trama, inevitavelmente coloca o leitor em contato com conflitos geracionais, tenha ele vivido o início da década de 1980 ou não. Umas das saídas, talvez a mais trágica, para o conflito entre gerações é o que o psicanalista Sándor Ferenczi chamou de confusão de línguas: o desencontro entre a linguagem da criança e a linguagem do adulto. Quando esse desencontro se instala, a possibilidade de reconhecimento mútuo cede lugar à violência da incompreensão.
Às vésperas da seletiva musical para a semana cultural da escola e do campeonato de futebol, cujos jogadores seriam os pais dos alunos, a mãe do narrador-protagonista, Beto, aluno da sétima série, recém-separada de Betão, começa a namorar o Léo. Haja confusão.
Ainda mais para um adolescente, hipnotizado pelo sorriso encantador de Fabi, preparando-se enfim para o que ele quer ser quando crescer… Jornalista como o pai, Betão? Ou como o autor da “Nota de esclarecimento” do início do livro? Seja como for, o que não faltam mesmo são elementos para uma grande confusão.
A propósito, Freud afirmou que, na puberdade, dois túneis que perfuram uma montanha a partir de lados opostos podem se encontrar. Um deles é a corrente da ternura, ligada às relações infantis, aos primeiros vínculos com os objetos de amor e às fixações da infância; o outro é a corrente sensual, a sexualidade genital que se organiza na puberdade. A metáfora dos túneis indica que as duas correntes precisam se encontrar para que se constitua uma vida amorosa adulta.
Dessa perspectiva, podemos concluir que a tarefa de Beto, como, via de regra, a de todos os adolescentes, é das mais difíceis e… confusa.
Familiar
Afortunadamente, há outras saídas além da confusão de línguas, e são elas que o livro de Moacyr Godoy Moreira aborda. A sorte de Beto foi ter encontrado personagens, na família e fora dela, que o acolheram com amor e respeito.
O livro nos apresenta, por meio de uma prosa fluida e cativante, em diálogo com as xilogravuras expressivas de Daniel Freitas, um desfile desses antídotos. Mas, com um pé na realidade, o narrador-protagonista nos confidencia em um momento-chave: “nem sempre essa história foi tão tranquila assim”. Sempre, nunca é.
Com efeito, Dois pais confirma a habilidade do autor para abordar temas complexos sem prescindir da delicadeza. Ao tratar da separação dos pais, da descoberta do amor, da amizade e das marcas deixadas pela ditadura, a novela confia na inteligência do leitor, seja ele jovem ou adulto, e faz da literatura um espaço para trocas afetivas.
A trama criada por Moacyr Godoy Moreira, médico e escritor, como Freud, reverbera a ideia do psicanalista de que o estranho, a partir da ambiguidade da palavra alemã unheimlich, é paradoxalmente uma modalidade do familiar (heimlich) que sofreu uma transformação. Dois pais nos convida a fazer – ou a refazer – a travessia pelos dois túneis de que fala Freud, à aparência distintos (estranhos?) um ao outro, e testemunhar que a harmonia é possível.
No sorriso de Fabi, “a coisa mais linda do mundo”, cabem um filho com dois pais – o goleador e o goleiro que defende o pênalti decisivo –, uma mãe que retorna à vida, a música que sai “redondinha” na audição. Cabe essa história tão bonita, como o olhar de Beto para o próprio sorriso de Fabi.
Renato Tardivo é psicanalista e escritor, autor, entre outros livros, do ensaio Cenas em jogo – literatura, cinema, psicanálise (Ateliê/Fapesp) e do romance No instante do céu (Reformatório).
Imagem: capa do livro Dois pais
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