Aberturas: a Clínica Pública de Psicanálise da SBPSP
Em recente atividade da Diretoria Científica, Benilton Bezerra Junior trouxe reflexões interessantes sobre a capacidade do Eu de enfrentar perigos. “A angústia de hoje”, diz ele, “não se distribuí por igual, tem classe, cor, gênero, território. Há corpos para os quais o mundo é mais perigoso, sujeitos para os quais a vigilância não é sintoma, e sim condição de sobrevivência. As inibições não podem ser lidas apenas como defesa contra o desejo, mas também respostas a ameaças reais. E ele continua: “Há perigos reais, mas sua inscrição subjetiva é sempre singular, e esse é o lugar que a psicanálise pode ocupar. No consultório, ou na cidade, nas clínicas de rua, escolas, instituições, o que deve caracterizar a visada do psicanalista é estar ali com as ideias e o discurso que fazem a atuação incidir sobre a imaginação, a capacidade de inventar novos dispositivos, novos ambientes, novas modalidades de interação entre as pessoas, a serviço de um horizonte ético clínico. Ampliar a capacidade de enfrentar perigos de uma maneira, como diria Winnicott, que mantenha a vida interessante de ser vivida.”
Benilton sintetiza de forma clara nosso ponto de partida quando idealizamos esse projeto. O que significa, para uma instituição psicanalítica, abrir uma clínica pública? Não se trata apenas de oferecer atendimento gratuito, mas também, afirmar que a psicanálise tem algo a dizer e principalmente a escutar.
A psicanálise nasceu escutando o que não tinha lugar no discurso oficial da medicina e da psiquiatria. Freud escutou histéricas, cujo sofrimento era desqualificado e silenciado. A escuta psicanalítica sempre foi, em sua origem, uma escuta marginal, dos que não cabiam nos dispositivos estabelecidos. O que a Clínica Pública faz é lembrar à psicanálise que essa vocação não é um capítulo do passado, é uma tarefa do presente.
Escutar quem não chega normalmente à instituição exige de nós, analistas, uma ampliação das referencias teórico clínicas habitualmente utilizadas. O que entendemos por demanda, enquadre, o que acontece com a transferência quando ela se mistura com o campo institucional, quando o sofrimento que o sujeito carrega, como disse Benilton, não se distribuí por igual, se apresenta misturado à fome, à violência doméstica, à precariedade de moradia?
Essas perguntas não devem ser obstáculos e sim material de trabalho. Atuando nesse lugar, é que a psicanálise se mantém relevante e capaz de produzir efeitos reais no mundo contemporâneo. A Clínica Pública pretende ser um dispositivo clínico que amplia o acesso e nos convida a pensar para quem fazemos e onde atuamos como psicanalistas. E, mais importante, para quem ainda não fazemos.
Na SBPSP, esse processo não aconteceu de forma linear, enfrentou desafios que, durante décadas, foram sustentados por analistas que insistiram em manter vivo o atendimento à comunidade dentro da instituição. A Diretoria de Atendimento à Comunidade, que ganhou seu lugar institucional no início dos anos 2000, organiza-se em quatro setores: CAP, Cursos e Jornadas, Parcerias e Convênios e Pesquisa. E nesse momento, a DAC ganha uma nova reformulação, ao integrar em seu conjunto de ações, a Clínica Pública de Psicanálise da SBPSP.
A CP/SBPSP dá nome, organização e sustentação institucional a um conjunto de trabalhos gratuitos que já vinham sendo desenvolvidos na Sociedade. Sua definição é precisa: oferecer atendimento psicanalítico gratuito, em suas várias modalidades, à população em situação de vulnerabilidade e risco psicossocial. Sua atuação organiza-se em dois eixos: o Setor de Atendimentos Individuais e Grupais, que reúne atualmente a Clínica Transcultural, os atendimentos ligados a situações de violência doméstica e a Clínica Interface Psicanálise e Estudos de Gênero; e o Setor de Parcerias e Convênios, responsável pela articulação e o trabalho com instituições como o Centro Paula Souza, ASA, UNAS Heliópolis, EJA do Colégio Santa Cruz, Lar das Crianças da CIP, além outras parcerias com as quais a SBPSP vem trabalhando ao logo dos últimos 10 anos.
O CAP segue como espaço de atendimento acessível, com valores definidos conforme a possibilidade de cada paciente. A Clínica Pública nasce ao seu lado, não como substituição, mas como uma diferenciação necessária. Ela é pública não porque é estatal, é pública por sua função: dá lugar institucional aos atendimentos gratuitos e aos trabalhos que se dirigem às situações de maior vulnerabilidade.
Essa é uma ideia que vem sendo gestada ao longo de muitos anos e ao lado do trabalho da Comissão Virgínia Bicudo, é um dos pilares do ideário da atual diretoria. Mas sabemos que se trata de um processo coletivo, feito por muitas mãos. Analistas que atenderam, supervisionaram, coordenaram grupos, abriram horários em suas agendas, discutiram impasses clínicos e ajudaram a manter vivo este trabalho dentro da multiplicidade de grupos que compõe a nossa Sociedade. Sem esse trabalho silencioso, insistente e cotidiano, esta história não teria chegado até aqui.
Fazemos um agradecimento especial a todos os analistas e equipes que, de diferentes maneiras, abriram caminhos e continuam participando deste trabalho e esperamos que esse movimento convide outros colegas a participar e ampliar esse espaço.
A Clínica Pública de Psicanálise da SBPSP é o nome que damos a essa história. Que ela seja um espaço de escuta, trabalho e compromisso com aqueles que normalmente ficam excluídos de espaços de cuidado, e que, ao escutá-los, a psicanálise continue a se transformar.
Esse serviço acontece exclusivamente através de parcerias da SBPSP com instituições conveniadas.
Abraços,
Silvia Maia Bracco
Sonia Terepins
Flávio Gosling
Cristina Franch
As opiniões dos textos publicados no Blog da SBPSP são de responsabilidade exclusiva dos autores.