CICLO DE CINEMA E PSICANÁLISE, FILME: O ESTRANGEIRO

O estrangeiro

 

Argel, 1938. A trama apresenta Meursault, interpretado por Benjamin Voisin, que acompanha o funeral da mãe sem demonstrar qualquer sentimento. No dia seguinte, vai à praia, inicia uma relação amorosa e assiste a uma comédia no cinema. A perda, o encontro amoroso e a diversão aparecem lado a lado, sem hierarquia, como expressão da própria lógica emocional do personagem: nada parece adquirir um valor particular. O alheamento e a frieza marcam esse homem enigmático, que leva a vida aparentemente sem abalos emocionais, até que se envolve nos conflitos de um vizinho e assassina um homem numa praia, sob um sol impiedoso. Em O estrangeiro, o diretor François Ozon adapta o romance de Albert Camus e nos confronta com um personagem cuja aparente indiferença perturba tanto quanto seu crime.

Para Camus, o absurdo nasce do confronto entre a necessidade humana de sentido e um mundo que não responde a essa necessidade: diz respeito à condição humana. Já o psicanalista se interroga: a falta de sentido na vida se expressaria em atos sem sentido? Que sofrimento psíquico se manifesta na aparente ausência de sentimentos ou na impossibilidade de reconhecer e expressar os próprios afetos? Na clínica, certas experiências de vazio e anestesia psíquica nos fazem pensar se a dor provocada no corpo por alguns pacientes que se cortam e se machucam não seria uma tentativa desesperada de sentir algo. Transgredir os limites morais poderia também constituir uma busca por fortes emoções? O enigma de Meursault abre questões sobre as relações entre o corpo, os afetos e o ato: o que acontece quando uma experiência não encontra sentido?

No tribunal, a ausência de lágrimas no enterro da mãe passa a pesar como prova de sua monstruosidade. Julga-se também sua recusa em demonstrar os sentimentos que se esperam de um filho, de um amante, de um homem. Na Argélia colonial, a vida do árabe assassinado ocupa menos espaço do que o comportamento de quem o matou. Entre a opacidade de Meursault e a exigência social de explicar e ordenar os afetos, o filme nos interroga sobre aquilo que reconhecemos como humano — e sobre quem permanece fora desse reconhecimento. O romance foi publicado em 1942, numa Europa em que os campos de concentração e de extermínio tornavam concreta uma das formas mais brutais de desumanização da modernidade. A exigência de sentimentos socialmente reconhecíveis podia coexistir com a mais radical indiferença ao sofrimento do outro.

Debatedores:

Daniel Delouya é membro efetivo e didata na Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP), ex-presidente da FEBRAPSI (2015-17) e membro do Board da IPA pela América Latina desde 2023. Autor de sete livros em psicanálise. O último: Guerra e Psicanálise (Ed. INM, 2025)


 

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