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Quando o paciente chega explicado: Walter Benjamin, a clínica e o desaparecimento da narrativa

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Quase nada do que acontece está a serviço da narrativa,
e quase tudo está a serviço da informação.
Walter Benjamin, O narrador (1936)

I

Uma paciente entra no consultório e diz, antes mesmo de sentar-se, que tem TDAH, que provavelmente apresenta traços do espectro autista — leu sobre isso —, que a mãe é narcisista e que a relação com o ex-companheiro foi um caso típico de trauma bonding. Diz tudo isso na primeira sessão. Diz com a fluência de quem expõe um relatório técnico.

Sento-me. Penso em Benjamin.

II

Em 1936, em um ensaio sobre Nikolai Leskov, Walter Benjamin diagnosticou a morte do narrador. A faculdade de intercambiar experiências, escreveu, estava em vias de extinção. Os combatentes voltavam mudos das trincheiras, não mais ricos, mas mais pobres em experiência comunicável. Algo se quebrara entre a vivência e a palavra.

A causa Benjamin identificou com precisão de relojoeiro: a ascensão da informação. A informação aspira a uma verificação imediata; precisa ser plausível, compreensível em si e para si. Os fatos chegam acompanhados de explicações. Quase nada do que acontece está a serviço da narrativa, e quase tudo está a serviço da informação. Onde antes havia um relato capaz de conservar suas forças — como as sementes milenares, que preservam a capacidade de germinar — passa a haver uma comunicação que vive apenas no instante de sua emissão e morre ali mesmo, esgotada.

III

A paciente que chega explicada é o sintoma dessa mutação, deslocado para dentro do consultório.

O TDAH que ela diz ter não é uma hipótese,  é uma identidade, fixada por um teste online ou por um vídeo de noventa segundos no Instagram. O traço autista que reconhece em si chega-lhe pré-formatado, com etiologia, marcadores comportamentais, vocabulário próprio. A mãe narcisista vem com bibliografia. O trauma bonding tem manual.

Tudo está explicado antes de ser narrado.

E é precisamente esse o problema. A paciente não me conta uma história — me passa um diagnóstico. Não me oferece uma vivência da qual eu possa, com ela, aproximar-me — me oferece um relatório do qual eu seria, no melhor dos casos, o validador. Não quer um analista, quer uma confirmação.

A informação invadiu o inconsciente. Ou melhor: ocupou o lugar por onde o inconsciente costumava fazer-se ouvir, em sua sintaxe estranha, repetições, lapsos. O sintoma não fala mais — é falado, antecipadamente, pela linguagem da divulgação científica popular, da psicologia de redes sociais, dos manuais portáteis de autoconhecimento.

IV

Benjamin escreveu que metade da arte narrativa está em evitar explicações. Cita o relato de Heródoto sobre Psammenit — o rei egípcio que assiste imóvel à degradação dos filhos e só desaba ao ver um velho servidor entre os cativos. Heródoto não explica. E é por isso, diz Benjamin, que a história sobrevive milênios. Porque não se gastou. Porque conservou suas forças germinativas.

Pensemos agora em como tendemos a operar quando o paciente traz um sonho, uma cena, uma recordação. A tentação contemporânea, alimentada pela cultura geral em que estamos imersos, é a de explicar. Diagnosticar. Nomear o mecanismo. Encaixar a vivência em uma categoria que a torne legível.

Explicar, porém, é matar o relato. Explicar é fazer da sessão uma manchete.

A escuta analítica, em sua versão mais radical, é um ato de resistência à informação. É deixar a história bruta — incompreensível, lenta, desnecessária — depositar-se no espaço entre dois corpos. É confiar que ela conserva forças, e que talvez, depois de muito tempo, ainda seja capaz de se desenvolver.

V

Há outro elemento no texto de Benjamin que me parece urgente recuperar. É o tédio, que ele cunhou como o pássaro onírico que choca o ovo da experiência.

Para que uma narrativa possa ser ouvida, escreve, é preciso um estado de distensão. A escuta verdadeira pertence ao ritmo de quem fia ou tece enquanto ouve. Quanto mais o ouvinte se esquece de si mesmo, mais profundamente se grava nele o que é ouvido. O tédio é a condição da experiência que se grava.

Esse pássaro está, hoje, em vias de extinção. Os ninhos onde fazia seus ovos, as atividades manuais lentas, repetitivas, demoradas, desapareceram primeiro do espaço urbano e agora também do corpo. O telefone na palma da mão expulsou o tédio do último refúgio em que ainda resistia: o vagão do metrô, a fila do banco, o quarto antes do sono.

Sem tédio, não há experiência. Sem experiência, não há narrativa. Sem narrativa, não há análise.

A sessão é talvez um dos últimos lugares onde o tédio ainda é cultivado deliberadamente. Cinquenta minutos sem notificação. Sem rolagem. Sem o reflexo de checar. Cinquenta minutos em que a única coisa possível é estar ali, com aquela história lenta, com aquele silêncio que demora a passar. Os pacientes resistem a isso. Compreendo que resistam. O divã exige uma forma de tempo que o mundo lá fora extinguiu.

VI

Benjamin termina o ensaio com uma imagem que me detém sempre. O narrador, escreve, é a figura na qual o justo se encontra consigo mesmo. E diz mais: é “o homem que poderia deixar a luz tênue de sua narração consumir completamente o pavio de sua vida”. Penso no que isso pede.

O analista é, talvez, um sobrevivente desse ofício. Não porque narre, não cabe a ele narrar, mas porque sustenta as condições nas quais a narrativa de outro possa acontecer. É depositário de uma técnica artesanal, no sentido preciso em que Benjamin cita Valéry: aquela paciência que o homem moderno deixou de cultivar, a superposição de camadas finas e translúcidas, o tempo em que o tempo não contava.

A clínica psicanalítica é uma das poucas práticas contemporâneas em que o tempo ainda não conta da maneira como conta no resto da vida. Ali, uma frase pode ser ouvida durante anos. Um fragmento de sonho pode esperar uma década até encontrar sentido. A interpretação que falha hoje pode germinar no paciente sete anos depois — como aquelas sementes de trigo nas câmaras das pirâmides.

VII

A paciente que entrou no consultório explicando-se talvez precise primeiro desaprender suas explicações. É difícil de pedir e mais difícil de fazer. Tem a ver com tolerar não saber o que se tem. Com tolerar que a coisa sentida não cabe na palavra que a divulgação científica oferece. Com tolerar, esse é o ponto mais espinhoso,  que o sofrimento não vem com manual.

Não digo isso como programa. Digo como constatação melancólica.

Benjamin não acreditava que a narrativa pudesse ser restaurada. Sabia que estava diante de um processo que se desenvolvia concomitantemente com toda uma evolução secular das forças produtivas. Não se trata de nostalgia. Trata-se de notar, antes que se apague de todo, o contorno do que está desaparecendo.

A sessão é, nesse sentido, uma ruína viva. Um lugar onde ainda se pode, por enquanto, ouvir uma história sem que ela venha já dobrada em sua explicação.

Resta a pergunta de quanto tempo isso durará.

José Antonio Sanches de Castro é Membro Associado da SBPSP · Assis, 2026

As citações e referências a Walter Benjamin remetem ao ensaio “O narrador” (1936), na tradução de Sergio Paulo Rouanet (Magia e técnica, arte e política, Brasiliense, 1985).

Imagem: Walter Benjamin (Wikipedia)

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