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A psicanálise como sondagem

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A psicanálise pode ser vista como o conjunto de conhecimentos do que se passa no âmbito mental. Outra forma de ver, especialmente quando se acentua sua dimensão clínica, é considera-la como uma sonda[1] que permite a observação e investigação do que se passa nas sessões, entre analista e analisando. É por este viés que a tenho considerado e que vou tentar expandir.

Sondagem, certamente, precisa se guiar por algumas referências, que variam de acordo com a filiação teórica de cada psicanalista e sua personalidade. Apresento a seguir as minhas; apesar de estarem apresentadas separadamente, logo se verá que estão relacionadas entre si e com o analista que sou hoje.

Para que uma relação possa se configurar como psicanalítica, e para que estas referências a seguir possam ser respeitadas, é fundamental que eu tenha disposição emocional para acolhimento do outro com compaixão.  

Desconhecido. O que analista e analisando já conhecem, ainda que seja precário, sempre funciona como um descanso da atividade de pensar. Para analista e/ou analisando não ficarem muito cheios de conhecimento e vazios de curiosidade é bom lembrar que “a própria psicanálise é apenas uma listra na pele de um tigre”.[2]

Curiosidade. É fonte de investigação, exploração, aprendizado e conhecimento. O apego ao já sabido por ambos da dupla analítica traz segurança e conforto, mas pode levar a uma calcificação ao impedir o surgimento de algo novo. O excesso de conhecimento pode levar a um entorpecimento que mata a curiosidade e nos leva a afastar o que não compreendemos.

A curiosidade precisa ser cultivada, em primeiro lugar, na pessoa do analista; só assim ela se tornará presente no decorrer das sessões com o analisando. Afinal, nem Freud e nem a psicanálise explicam: estimulam perguntas com potencial de expandir o universo mental e promover crescimento do pensamento. Bion repetiu inúmeras vezes a citação de Maurice Blanchot (que ouviu de André Green): “A resposta é a desgraça da questão”.[3]

Importante assinalar que não me refiro à curiosidade ou interesse intrometidos, mas sim a disposição mental exaltada através do repetido “não sei”. Poderia chamá-la de “curiosidade passiva”, algo que deveria estar impregnado na pessoa do analista; não uma passividade que se opõe à atividade, mas àquela feita de paixão, paciência, atenção, receptividade, padecimento e disponibilidade para recebermos o que nos vem do outro e de nós mesmos.[4] É dessa forma que a psicanálise vai estimulando o crescimento do âmbito que ela investiga.

Capacidade Negativa. Corresponde à postura formulada pelo poeta John Keats em carta a seus irmãos: “permanecer em meio a incertezas, mistérios e dúvidas, sem ter de alcançar nenhum fato e razão…”[5]. Prossegue ele: “… O único meio de fortalecer o próprio intelecto é não decidir sobre coisa alguma – deixar a mente ser uma via para todos os pensamentos, não uma facção selecionada”. Considero essa uma condição essencial de espera para que a curiosidade do analista possa evoluir para formulações certeiras (Language of Achievement) provindas do encontro entre os elementos desordenados e sem significado surgidos na sessão com sua intuição. A capacidade negativa opera como advertência contra a busca desenfreada de sentido por parte do analista.

Situação Edípica. Elemento estruturante da personalidade desde o seu nascedouro, seguindo o mesmo padrão de apontado por Freud. Ressalto que não estou me referindo aqui ao complexo de Édipo conforme ele o tratou nos estudos das neuroses, mas sim, à disposição para uma configuração triangular que surge desde os primórdios da personalidade e segue ordenando toda nossa vida.

Cesura. Noção relacionada à diversidade de gradações – estas são separadas por uma barreira, porém seletiva. Cesura não se opõe a continuidade. Ambas coexistem ou se alternam; são gradações que observamos em nós e nas relações analíticas quando se pode transitar através da turbulenta barreira de contato que separa / une consciente e inconsciente. Em poética, cesura se refere a um corte breve ou pausa que se faz num verso. Em Inibição, sintoma e angústia (1926), Freud havia escrito: “Existe mais continuidade entre a vida intrauterina e a primeira infância que a impressionante cesura do nascimento nos permite crer”. Esta continuidade pode se referir à passagem que tanto une como separa diferentes dimensões, semelhanças e características. Se, por um lado, cesuras e trânsito entre pólos extremos podem trazer enriquecimento da capacidade de pensar através de amplitude de experiências emocionais e mentais, por outro, sua ausência nos faz pensar em empobrecimento, desmoronamento e retrocesso do pensar.

São exemplos de cesuras: impotência – onipotência; ignorância – onisciência; incertezas – certezas; colapso – estruturação rígida do funcionamento mental; catástrofe mental – fé; determinismo – acaso; pensar – alucinar.

Incompletude. Condição constitutiva do conhecimento humano, não relacionada a defeito ou análise insuficiente; por ser inesgotável, o conhecimento é impossível de ser preenchido. Como condição inexorável se configura como uma das razões para empreendermos, permanentemente, a busca por um outro, um par, um diferente para formarmos, às vezes, um casal e assim, poder sentir, criar e pensar. “A nostalgia [pela completude] se deve ao fato de que, uma vez que o infinito não pode ser esgotado… nada… poderá nos satisfazer”[6]. O “destino” dos pares, sejam eles analíticos ou não, vai depender das sexualidades dos participantes em cada relação que vão se juntando, somando, lutando, separando.

Mente multidimensional. Refere-se à coexistência das várias etapas do desenvolvimento do indivíduo e dos predicados das diversas transformações possíveis de suas experiências emocionais – conhecer, distorcer, resistir e tornar-se aquilo que se conhece (ser). Estas etapas constituem, em seu conjunto, dimensões infinitas, potencialidades que nem sempre se realizam, se desdobram ou se apresentam em função dos entraves na elasticidade da mente humana. Quando expandidas, essas multidimensionalidades podem promover incrementos de conhecimento, desenvolvimento e crescimento. Penso que a mente multidimensional esteja bem configurada no poema História[7]: “Tenho 39 anos / Meus dentes têm cerca de 7 anos a menos / Meus seios têm cerca de 12 anos a menos / Bem mais recentes são meus cabelos / e minha unhas / Pela manhã como um pão / Ele tem uma história de 2 dias / Ao sair do meu apartamento, / que tem cerca de 40 anos, / vestindo uma calça jeans de 4 anos / e uma camiseta de não mais que 3, / troco com meu vizinho / palavras de cerca de 800 anos / e piso sem querer numa poça / com 2 horas de história / desfazendo uma imagem / que viveu / alguns segundos.” Este corpo que contém em si “todas” as idades é a contrapartida da mente que contém “todos” os modos da mente atuar.

Este conjunto de referências deriva do que observo norteando atualmente esta minha “sonda psicanalítica”. Não se constitui assim num conjunto de propostas, mas sim uma relação de anotações pessoais que pode vir a ser ampliada ou radicalmente mudada por cada psicanalista.

 

[1] BION, W.R. Atenção e interpretação. Rio de Janeiro: Imago Editora, 1973 (1970), p. 84.

[2] BION, W.R. Uma memória do futuro. São Paulo: Livraria Martins Fontes Editora e Rio de Janeiro: Imago Editora.

[3] BION, W.R. “Seminários na Clínica Tavistock”. São Paulo: Blucher, 2017, p. 49.

[4] Estas ideias são inspiradas no artigo “Notas sobre a experiência e o saber de experiência” de Jorge Larrosa Bondía, professor titular de filosofia da educação na Universidade de Barcelona, publicada na Revista Brasileira de Educação nº 19 em 2002.

[5] BION, W.R. Atenção e interpretação. Rio de Janeiro: Imago Editora, 1973 (1970), p.

[6] BERLIN, I. As raízes do romantismo. São Paulo: Editora Três Estrelas, 2015, p. 160.

[7] MARQUES, A.M. Risque esta palavra. São Paulo: Companhia das Letras, 2021.

Julio Frochtengarten é membro efetivo e analista didata da SBPSP.

Imagem: Osmar Pinheiro (sem título) 

“As opiniões dos textos publicados no Blog da SBPSP são de responsabilidade exclusiva dos autores.”    



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