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Melanie Klein, o que comemoramos em seu aniversário?

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Temos muito a celebrar, pois hoje o pensamento de Melanie Klein continua vivo e revitalizado nas diversas expansões teóricas da psicanálise contemporânea. Klein antecedeu e propiciou desenvolvimentos fundamentais em nossa disciplina. Claro que ainda há aqueles que têm uma visão distorcida, literal e equivocada sobre seu pensamento. Klein foi uma grande pensadora e recomendo a leitura do volume “Klein” de Julia Kristeva para aqueles que quiserem ter um primeiro contato com esta autora. No Brasil temos um evento editorial a festejar que coincide com este seu aniversário. Trata-se do relançamento de suas obras completas revisadas pela Editora UBU. 

O Melanie Klein Trust através da editora Routledge, acabou de publicar em 2023 Narrativa da Análise de um Adulto, baseada em notas de seu arquivo sobre um relato completo do atendimento de um paciente adulto. Neste texto, encontramos uma Klein muito menos rígida do que tem sido comumente caricaturada. É um livro similar ao da Narrativa da Análise de uma Criança que tanta importância teve não só na obra desta autora, como também na história da psicanálise, independentemente de concordarmos ou não com seu texto.

Em seus textos, em geral, encontramos uma Klein sempre focada na qualidade da experiência emocional, em seu sentido e significado. Klein estava sempre guiada pela questão de como implementar a qualidade de vida da pessoa, visando sempre o máximo possível, de acordo com as perspectivas e possibildiades de cada um.

André Green comentou que, depois de passados tantos anos da morte de Melanie Klein, o luto já foi feito e estávamos livres agora para consultar e refletir sobre sua obra, sem termos que nos posicionar contra ou a favor.Quais seriam então os eixos centrais de sua contribuição?

Diria para começar, sua concepção inovadora de um mundo interno, um mundo no interior do sujeito em transformação contínua. Não se trata de um mundo subjetivo, mas de um espaço cavitário, antropomorfo de certa forma, habitado por equivalentes metafóricos a cidadãos deste mundo. Os objetos internalizados tendem também a se constituir em instâncias psíquicas. Esta ideia vai demandar uma ampliação dos conceitos de projeção e introjeção. O termo projeção foi ampliado pela noção de identificação projetiva, cujas funções são estruturantes da vida mental, hoje um dos cinco conceitos fundamentais da Psicanálise segundo pesquisa do Dicionário Enciclopédico da IPA.

Laplanche (1987), um outro autor seminal da Psicanálise contemporanea, escreve algo bastante interessante para indicar o quão revolucionário foi a contribuição de M. Klein: “É neste ponto que falo de escândalo, pois esses objetos são verdadeiros objetos para M. Klein, objetos que, a partir deste tempo de introjeção, levam uma vida própria no interior do sujeito, provocando nele efeitos reais, quase mecânicos, de agressão, e de excitação em particular. O par real/fictício é então substituído pelo par introjetado/projetado–ou este par se defasa em relação àquele outro. O que é introjetado não é ilusório, particularmente no sentido de não ser manipulável ao infinito.” (pág. 111/11e Ed. francesa; e 89, Edição brasileira grifos meus)

Dois outros pontos merecem ênfase, dentre muitos aos quais poderia me referir. Para ela o indivíduo e a cultura se criam mutuamente dentro de certos limites de sentido e significado. As identidades não são ilusórias, mas também não são fixas, e congeladas. (Rocha Barros, 2024). Sempre me impressionou seu artigo Sobre a Saúde Mental em que sugere uma ideia central, qual seja, a de que a superficialidade emocional era uma forma de doença mental.

Por fim, ao contrário de intepretações rígidas de suas ideias, uma concepção singular da transferência como situação total que não é mera reedição do passado. Deste modo na sessão, o paciente nos diz coisas com palavras, e além delas, num determinado clima emocional. Neste contexto as próprias palavras podem tornar-se atuações da forma de operar das relações de objeto prevalentes no mundo interno. Podemos tomar estas manifestações discursivas dirigidas ao analista como tentativas permanentes de recriação das conexões perdidas entre os significantes não verbais do inconsciente e os significados da experiência emocional que dão sentido à nossa vida psíquica em busca de uma forma narrativa. (Rocha Barros, E.M. & Rocha Barros, E.L. 2000)

Então comemoramos em seu aniversário uma novidade: a própria Melanie Klein numa releitura, parafraseando Green sobre Freud.

Elizabeth Lima da Rocha Barros é analista didata SBPSP, fellow da British Psychoanalytical Society D.E.A. Sorbonne.

Imagem: Melanie Klein, 1952 (licensa CC BY 4.0)   

As opiniões dos textos publicados no Blog da SBPSP são de responsabilidade exclusiva dos autores.    



Comentários

One reply on “Melanie Klein, o que comemoramos em seu aniversário?”

Jucely Giacomelli disse:

Que recorte, como uma degustação do convite a visitar a obra de Melanie Klein que não tem nada a ver com “a superficialidade era uma forma de doença mental”, grata pelo convite a leitura aprofundada de Melanie Klein e sua contribuição para a psicanálise.

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