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Wilfred Bion e o “falhar melhor”

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Tudo desde sempre. Nunca outra coisa.
Nunca ter tentado. Nunca ter falhado.
Não importa. Tentar outra vez. Falhar outra vez.
Falhar melhor.

S. Beckett, Pioravante marche. 

Diante da tarefa desafiadora de homenagear Wilfred R. Bion neste 8 de setembro, quando comemoramos 125 anos de seu nascimento resolvi, em parte pelo diminuto espaço que disponho, me ater não tanto às suas contribuições e expansões para as teorias psicanalíticas, sobretudo as de Sigmund Freud e Melanie Klein, mas sim enfatizar minha percepção de que os psicanalistas que nos deixaram uma marca profunda — como Freud e Bion entre outros — revelavam uma integridade fora do comum. Tal característica de personalidade, aliada à experiência e a uma sensibilidade clínica, formaria a base para que a genialidade deles se tornasse frutífera e se transformasse em parceria criativa. Sorte de nossa ciência!  

Para chegar a tal ponderação, enfatizo a importância de dispormos, no caso de Freud, de sua vastíssima correspondência. E, no caso de Bion — em grande parte graças à dedicação de Francesca Bion —, de amplo material publicado, incluindo seminários, autobiografias, conjecturas anotadas em papel ou gravadas em fitas de áudio, cartas familiares, etc.[1] Esses materiais nos ajudam a formar uma ideia ampla do estilo analítico de Bion e de sua capacidade ímpar de combinar uma sofisticada teoria psicanalítica com uma prática clínica plena de ponderações afiadas como uma navalha. Transmitidas de um modo claro e direto, nos deixaram um legado cujo impacto é difícil de mensurar.

Nascido na Índia em 1897, aos oito anos Bion muda-se para a Inglaterra sem os pais, a fim de estudar. Aos dezessete, se alista e combate — literalmente — no lamaçal francês da Primeira Guerra Mundial, na Divisão de Tanques (vivências de eminência da morte nesse recorrente hábito humano que é a guerra). Após esse período na guerra, estuda História no Queens College, em Oxford, e posteriormente Medicina em Londres, na University College, quando já demonstrava interesse pela psicanálise. Logo em seguida, faz o curso de Psicoterapia Psicanalítica na Tavistock Clinic, também em Londres. Em 1938 inicia sua análise pessoal com John Rickman.

A trajetória de Bion na psicanálise e peculiaridades de sua vida pessoal não serão, entretanto, abordadas aqui. Sugiro para isso a palestra de Francesca Bion intitulada “The days of our lives”, publicada nas Obras completas de Bion (2014). Destaco neste texto a informação dada por Francesca: a paixão precoce de Bion pela poesia, notadamente a de John Milton, Virgílio, William Shakespeare, John Keats, Percy B. Shelley e Gerard Manley Hopkins, entre outros. E seu desejo não realizado de compilar uma antologia de poesia voltada aos psicanalistas. De qualquer modo, fomos brindados com uma a trilogia Uma memória do futuro, obra de valor inestimável e de algum parentesco com a criatividade poética.

Nesta homenagem, tomei a decisão — que pode causar algum estranhamento — de não me ater às contribuições instigantes e criativas de Bion à psicanálise, como função alfa, elementos beta, objetos bizarros, continente-conteúdo, parte psicótica e não psicótica da personalidade, vínculos (+ e -) K, L e H, somente para nomear alguns. Remeter o leitor aos livros de Bion pode soar deselegante, mas que as ideias desse pensador merecem compromissada dedicação, isso merecem, e penso que não existe substituto para captar a essência de seu legado que não seja submeter-se a uma análise pessoal aliada a uma leitura disciplinada de seus textos.[2] Pessoalmente, guardo a impressão de que, com a obra de Bion (e de tantos pensadores inovadores), sempre se corre o risco de suas ideias serem tomadas de modo concreto, racionalizado ou reificado, perdendo sua potência com a descontextualização. Em Cogitations (2014, vol. 11), Bion inclusive pontua que a leitura de um livro pode ser uma experiência emocional em si e sugere que o leitor não se atenha em demasia aos pontos obscuros que hão de surgir. Propõe, assim, que a leitura siga seu fluxo; se houver uma experiência a maturar, que ela ocorra de modo espontâneo, e não guiada por nosso insistente ímpeto de querer entender a qualquer custo. Desse modo, a sensibilidade ao psíquico poderá se expandir e a preocupação com prováveis pontos obscuros não precisa barrar a experiência possível, pois faz parte do processo tolerar o não saber, o sentimento de estar perdido.

Fernando Pessoa, em um poema de 1934, lançou a ideia de uma “ignorância diluída” e penso que precisamos de algum modo cultivar essa espécie de ignorância para enxergar com uma amplitude aumentada e assim, com esse fator presente, possibilitar que os caminhos para um “encantamento pela vida” — que costumamos observar mais nas crianças — encontre mais liberdade para se expressar. Recorro nesse momento à sensibilidade do romântico inglês William Wordsworth, com a força de sua poesia (na tradução de Paulo Vizioli):

Eu sinto o coração bater mais forte.
Quando o arco-íris posso ver.
Assim foi quando a vida começou,
Assim é agora quando adulto sou,
E assim será quando eu envelhecer…
Senão, melhor a morte!
A criança é o pai do homem;
E eu hei de atar meus dias, cada qual,
Com elos da piedade natural.

Chamado de poeta da natureza, bela e assustadora, ou de poeta da imaginação, Wordsworth foi um escritor atento à simplicidade da linguagem e às emoções evocadas no contato com a natureza. Buscava o afeto no natural e no corriqueiro; a emoção como ponto inicial de tudo, sem negar a importância da razão. O que é atestado por sua célebre formulação de que a poesia “origina-se da emoção recolhida na tranquilidade”. O poeta inglês captou e enfatizou a atuação restauradora da natureza no refinamento dos sentimentos, um refinamento para resgatar algo de uma vivacidade, de uma potência que a infância pode abrigar.

Bion dedicou atenção peculiar ao desenrolar da experiência emocional, focando e expandindo o horizonte de observação ao instante clínico único — que consiste no tempo presente e em sua característica fugacidade. Em um encontro com colegas argentinos em 1968, Bion ponderou: “Não há substituto para os sentimentos” (Aguayo et al., 2017). Nosso processo de pensar inclui, portanto, que emocionalmente pensamos. Alguém pode dizer que, de modo inequívoco, emocionalmente nós nos enrolamos! Sem dúvida, faz-se necessária a capacidade essencial para a discriminação: separar o joio do trigo. Nossa ciência navega por mares complexos e, nessas ponderações e paradoxos instigantes, um dos desafios é cultivar espaços íntimos nos quais elementos insaturados convivam sem gerar persecutoriedade, favorecendo, como consequência, um pensar claro, que estimule a curiosidade. Não cair na armadilha do contentamento imediatista é outro modo de abordar tal fenômeno.

 

P. A. — Como resultado de nossas experiências aqui, penso que podemos nos
acostumar a não saber, com a finalidade de treinar nossos sentidos e
personalidades, para descobrir (Bion, 1996, p. 33).

 

Gostaria de terminar este escrito apontando para o trecho de Samuel Beckett que citei como epígrafe desta homenagem: “Falhar melhor”. Que ideia intuitiva, que bela colocação! E vejam a parceria que ela promove com o pensamento do analista de Beckett na década de 1930 — sim, ele próprio, Bion (Bion, 2014, vol. 8, tradução nossa):

Como analistas, esperamos continuar melhorando – assim como os pacientes. É por isso que eu acho bom dar a si mesmo uma chance de aprender algo e não permitir que o paciente, ou qualquer outra pessoa, insista em ser algum tipo de deus que sabe todas as respostas. Se eu soubesse todas as respostas, não teria nada a aprender, nenhuma oportunidade de aprender qualquer coisa […] Não há esperança se você se sente condenado a ser, como se isso fosse possível, um grande pai, ou uma grande mãe, ou um grande psicanalista ou um grande qualquer coisa. O que se quer é ter espaço para viver como um ser humano que pode cometer erros.

Bela parceria, não?

Obrigado, Wilfred Ruprecht Bion.

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Referências bibliográficas

Aguayo, J., Pistiner de Cortinas, L. & Regeczkey, A. (Eds.). (2017). Bion in Buenos Aires: seminars, case presentation and supervision. London: Karnac.

Beckett, S. (1988). Pioravante marche. Lisboa: Gradiva.

Bion, W. R. (1996) Uma memória do futuro (Sandler, Paulo C., Trad., Vol. 3: A aurora do esquecimento). Rio de Janeiro: Imago. (Trabalho original publicado em 1975. Título original: Memoir of the future).

Bion, W. R. (2014). The complete works of W. R. Bion (Bion, F. & Mawson, C., Eds.). London: Karnac.

Coleridge, S. T. & Wordsworth, W. (2013). Lyrical ballads. Oxford: Oxford University Press.

Pessoa, F. Poesia (1931-1935 e não datada) (2005). São Paulo: Companhia das Letras.

Wordsworth, W. (1988). Poesia selecionada (Vizioli, P., Trad. e Notas). São Paulo: Mandacaru.

Cassio Rotenberg é membro efetivo da Sociedade Brasileira de Psicanálise (SBPSP). 

Imagem: Francesca e Wilfred Bion – maio 1973.
Crédito: Centro de Documentação e Memória – CDM, SBPSP 

[1] Também merece menção e aplauso a generosidade de José Américo Junqueira de Mattos e de sua filha, Gisele de Mattos Brito, por compartilharem importante acervo de supervisões realizadas por Bion em suas vindas ao Brasil, na década de 1970.

[2] É o que penso ser necessário para alcançar a experiência que o filósofo Hamish Paton, amigo de Bion no período em Oxford, sugeriu com a expressão “think the thought through”, ou ao menos para se aproximar dessa experiência. De difícil tradução, o ter aponta para um pensar com profundidade, um pensar penetrante, e aparece algumas vezes nos escritos de Bion.

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Comentários

6 replies on “Wilfred Bion e o “falhar melhor””

Jacques Stifelman disse:

Muito obrigado Cassio. Você foi no ponto que eu penso ter tornado a obra e a clínica de Bion tão significativa onde ela chegou por meio de análises pessoais com quem fez análise com ele. Ele olhava o objeto de análise como um estímulo a percepção do que ainda não existia sem se apoiar no conhecido, mas considerando vivamente o que Freud e Klein, entre outros, entenderam por psicanálise.

Claudia disse:

Obrigado Cassio pelo texto. O estado mental do não saber parece nos colocar numa realidade viva, simples e complexa ao mesmo tempo.

Avelino disse:

De fato, Cláudia, saber não saber não é fácil, mas desafio constate…lúdico

Thaís S Rosenthal disse:

Brincando com a imaginação,se Bion estivesse vivo,penso que se sentiria muito bem representado.
Belo texto

Avelino disse:

Oi, Cassio! Uma das coisas não ditas por Bion, mas sugeridas em seus escritos, e que você toca de algum modo, é que a verdadeira elaboração é inconsciente a partir das elaborações conscientes, estas que fazemos diariamente em nossos consultórios e que podem servir, como “restos diurnos”, sensoriais, para nossos inconscientes formarem sonhos e ir elaborando conflitos, coisas não entendidas, sem que deste processo saibamos. Aqui e ali, segundo entendi de Bion, a cada cinco anos uma realização nos assalta, uma associação, um “oh!”, e percebemos que algo vinha sendo elaborado sem que soubéssemos!
A atemporalidade do inconsciente não tem pressa alguma. Cobrar resultados é cobrar temporalidade do atemporal! Assim entendo a sugestão de Bion em Cogitations: vá lendo, não se atormente tentando realizar, o inconsciente vai cuidando disso e, um dia, uma realização pode surgir!
Abração,
Avelino(Neto)

Avelino disse:

Cassio, Beckett, cujo poema vc cita, fez psicoterapia psicanalítica com Bion, quando esse iniciava sua formação. Se influenciaram mutuamente. Sorte nossa!!!

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