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Vítimas silenciadas: os reflexos da violência de gênero contra mulher na vida dos filhos

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Em reportagem publicada pelo portal de notícias ND+, de Santa Catarina, Alessandra Ricciardi Gordon, secretária de psicanálise de crianças e adolescentes da SBPSP, abordou a complexa relação entre proteção e agressão formada na psique de crianças e adolescentes que presenciam a violência em seus lares. Leia abaixo.

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Vítimas silenciadas: os reflexos da violência de gênero contra mulher na vida dos filhos

Os casos de violência doméstica contra a mulher quase sempre têm dois personagens em voga: agressor e vítima. No entanto, essas tristes e cada vez mais frequentes narrativas costumam ter outros “atores”, na maioria das vezes considerados coadjuvantes nestes enredos de horror: os filhos. 

Em julho deste ano, as agressões de DJ Ivis contra a ex-mulher, a arquiteta e influenciadora digital, Pamella Holanda, foram expostas nas redes sociais e chocaram o país. Uma rotina de tapas, chutes, socos e pontapés se descortinou por trás do mito da família perfeita e bem sucedida. E um detalhe em toda a cena chama atenção: as agressões foram praticadas na presença da filha do casal, Mel, que tem menos de um ano.

Segundo os registros publicados no Anuário Brasileiro de Segurança Pública, 60,2% das mulheres que sofreram violência doméstica em 2020 têm filhos. O documento diz ainda que é possível verificar que muitas dessas crianças foram expostas ou conviveram com situações violentas em seus lares.

Ana Carla Carvalho Soares, conselheira tutelar em Florianópolis, afirma que, “embora não sejam receptoras diretas da violência doméstica contra a mulher, as crianças são vítimas secundárias desse tipo de agressão e podem experimentar seus efeitos indiretamente”. 

Alessandra Ricciardi Gordon, secretária de psicanálise de crianças e adolescentes da SBPSP (Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo), faz uma análise da complexa relação proteção x agressão a que crianças estão expostas quando presenciam situações de agressão.

“Imagine que elas contam com os pais como objetos protetores. Você pode imaginar que aquela mesma relação protetora passa a ser extremamente prejudicial e deletéria quando ocorre violência, em especial, se isso acontece frequentemente e por longos períodos de tempo”, aponta a psicanalista.

O ciclo da violência

Roberta* já tem 21 anos, mas o tempo não apagou as memórias da violência vivida por sua mãe.

“Ele [o pai] dizia que ela era feia e que não ia conseguir outra pessoa porque ninguém nunca gostaria dela. Eu sempre vi a minha mãe sofrendo muito e tentando, de todas as formas, se encaixar naquele molde ideal de família”, diz.

Roberta conta ainda que ela e a mãe sofreram o primeiro episódio de violência quando a própria avó, por não aceitar a gestação, empenhou uma tentativa forçada de aborto contra a filha. Sem apoio, aos 19 anos e grávida, a mãe de Roberta foi morar com o pai da menina, que logo se tornou seu agressor. 

Os ataques na casa do marido se tornaram frequentes e a jovem relata que presenciou os episódios de violência do homem contra a mãe até os seis anos de idade. “Olhando a minha mãe, sinto um profundo respeito por ela porque a nossa família é de mulheres sozinhas, que passaram por relacionamentos horríveis”, completa. 

Ela conta ainda que encontrou na terapia uma forma de lidar com as dores do passado.

“Meu namorado vem de uma família em que todos se respeitam, onde não há grito. Comparativamente, o último recurso dele é a violência, e infelizmente é o meu primeiro. Eu me frustro muito fácil, me acho uma pessoa horrível e pratico constantemente atos de violência contra mim mesma”, revela.

Segundo Alessandra, quando uma criança nasce e cresce em condições violentas pode reagir de muitas formas. Desde sucumbir e voltar essa agressividade contra si mesma a tornar-se uma criança, adolescente ou adulto violento. “Uma das piores consequências de uma família violenta é a eternização da violência na sociedade”.

Sons da violência

Carlos* também acompanhou as agressões vividas pela mãe. Em sua casa, os tapas vinham por meio de palavras degradantes e muitos gritos. “Essa experiência foi iniciada por um padrasto que eu tive. Tudo ia bem até nos mudarmos para a casa dele, quando as violências começaram a acontecer constantemente. Nossos objetos pessoais quebrados, jogados fora ou sumiam”, conta o jovem. 

A incapacidade de compreender o que acontecia no seu entorno devido à pouca idade provocou um racha entre mãe e filho.

“Eu não entendia o que a minha mãe estava passando. Eu a culpava muito por ela não conseguir romper o ciclo de violência que vivia. Somente anos mais tarde entendi que havia toda uma questão psicológica, e que ela se mantinha naquela situação por não enxergar saída”, aponta.

O permanente estado de tensão ao qual era submetido na infância, sobretudo pelos berros, deixaram marcas. Barulhos corriqueiros do dia a dia passaram a irritar Carlos. 

O ruído intenso também é uma das incômodas heranças deixadas pela violência na vida de Aurora* que, ao lado dos dois irmãos, cresceu assistindo cenas de agressões de seu padrasto contra a mãe na casa em que viviam.

“Ela [a mãe] tentava esconder, mas a gente sempre acabava o vendo  chegar bêbado em casa, dizendo que ia matá-la. Ele ameaçava a mim e aos meus irmãos, quebrava as coisas, batia na minha mãe diversas vezes…”

Durante os momentos de tumulto em casa, a menina se escondia em seu quarto e ignorava todo o contexto ao redor como forma de se proteger. E os efeitos dessa postura persistem na vida adulta, tanto, que ela não consegue prestar atenção nas pessoas durante uma conversa e, mesmo quando responde, nem sempre está verdadeiramente conectada às palavras do interlocutor.

Os debates sobre violência de gênero contra a mulher na escola foram decisivas para que ela saísse de casa e rompesse com o ciclo da violência. A mãe segue vivendo com o padrasto e a relação das duas é conturbada e distante.

“Eu sentia que ela escolhia ele. Ela sempre acreditou em uma melhora dele. Mas não é possível se apegar quando ele está sóbrio porque nunca se sabe quando vem a próxima recaída”, lamenta.

Um lugar seguro

A segurança que essas crianças não sentem em casa, muitas vezes encontram na escola. E é fundamental que professores e agentes de educação saibam reconhecer os sinais de quando elas estão sendo expostas a uma rotina de violência doméstica.

“A escola é um espaço onde os pequenos buscam refúgio, onde eles podem ser reconhecidos como sujeito de direitos. É um espaço para serem produtores de suas próprias histórias e de se percebem capazes de fugir da violência.”, conta Karla Christine Hermans, diretora de uma escola na Capital catarinense.

Segundo Karla, são muitos os indícios demonstrados pelas crianças quando presenciam situações agressivas.

“Crianças tensas, retraídas ou que recusam toques simples por medo, tensão ou falta de hábito são alguns exemplos”, ressalta.

A forma como essas crianças percebem o mundo também pode acender um alerta para uma violência que se perpetua em ciclos. “Elas aprendem desde cedo que as coisas são resolvidas batendo e que o diálogo não é possível. E isso é muito perigoso”, completa.

Onde buscar ajuda

Especializada no atendimento da população de Florianópolis, a conselheira tutelar Ana Carla reforça que na Ilha de Santa Catarina a Casa de Passagem para a Mulher é um serviço de acolhimento institucional que funciona na modalidade de Abrigo Institucional e oferece acolhimento provisório, inserido na comunidade, com características residenciais. 

O espaço recebe vítimas de violência doméstica que precisam se afastar do ambiente de convívio e podem ser acolhidas com os filhos.

Ana Carla explica que o ideal é que a própria vítima, no caso a mulher, busque a aplicação das políticas através dos serviços de proteção como as delegacias, os CRAS (Centro de Referência e Assistência Social), CREAS/PAEFI, CREMV.

“Centros de Saúde também desempenham papel de acompanhamento às mulheres e crianças vítimas primárias e secundárias da violência doméstica por meio de acompanhamento de equipe multiprofissional, incluindo atendimento psicológico e psiquiátrico”, acrescenta.

“Na dificuldade de atendimento deve-se procurar o Ministério Público para denunciar o não atendimento pelos órgãos/serviços”, complementa.

Estabelecendo criações saudáveis para crianças

Alessandra Gordon defende que romper com o ciclo da violência passa antes por compreender o que, de fato, é essa ação e suas manifestações.

“A violência em si é uma força de vida. Mas aquela que acontece de forma não controlada, desenfreada, que vem como um vulcão, sem controle ou quando vem de alguém que está extremamente contrariado, frustrado, desencantado com a vida é a que se torna cruel”. Ela afirma que este ímpeto pode ser muito prejudicial para todos, mas especialmente para “pessoas com menos autonomia”, como as crianças.

Especialista em psicologia clínica e atuante na orientação de pais, a psicóloga Márcia Tosin, de Curitiba, é entusiasta e ativista da criação neurocompatível, um movimento voltado ao desenvolvimento infantil que reúne pais, mães, professores, profissionais da saúde e sociedade civil interessados nas condições ideais pelas quais os cérebros humanos se desenvolvem e funcionam fundamentados pela psicologia evolucionista, antropologia e neurobiologia.

Segundo Márcia, o movimento tem como princípios norteadores o relacionamento com a criança baseado na dignidade humana, a ausência de práticas punitivas e de submissão. O conhecimento de que regras e limites sociais são aprendidos na medida que estão inseridos na cultura a que pertencem e não impostos pelos educadores, que a educação deve ser centrada nas necessidades da criança, que é o ser mais vulnerável em todas as comunidades humanas.

Além disso, entre as práticas NCs, estão a educação em rede em vez de hierárquica, onde todos são iguais e importantes, tanto adultos como crianças, sem presença de poder e que respeita o desenvolvimento psicofisiológico das crianças para que estas cresçam sob a premissa de não aceitarem outra realidade que não o respeito e sejam adultos conhecedores de suas emoções e que não ampliem qualquer tipo de violência.

“Só ama quem foi amado. É papel dos pais acompanhar a criança, segui-la nos caminhos e servir como modelo de maneira espontânea, agindo da melhor forma para que essa criança possa se espelhar”, finaliza.

Neste sentido, a psicóloga explica que  “A gente assume que os pais vão perder o controle em algum momento, mas devem se afastar porque as emoções tomam conta e, se errar, a saída é pedir desculpas”, orienta.

*Foram usados nomes fictícios para preservar as identidades de alguns dos entrevistados.


Alessandra Ricciardi Gordon
é psicanalista da SBPSP. Mestre em saúde mental pelo departamento de psicologia psiquiatria médica da UNIFESP. Psicanalista de crianças e adolescentes pela IPA. Secretaria de psicanálise de crianças e adolescentes da Sociedade Brasileira de psicanálise de São Paulo. 

Crédito: Henry Moore – Family Group, LH 269, Tate Gallery 



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