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Transtorno do Espectro Autista: uma analista nas asas de Miró

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Introduzo o tema Transtorno do Espectro Autista apresentando esta pintura Paisagem catalã (O caçador), de Joan Miró, pintor espanhol conhecido mundialmente. No meu contato com os pacientes dentro do espectro autista, ao me ver capturada pelo mundo das formas, fui buscar instrumentos além da psicanálise, para adentrar esse mundo rico, onde a palavra falada não é a moeda corrente.

Escolhi este quadro por se tratar de uma fase importante na obra desse artista conhecida como Mutação da Realidade. Segundo seu biógrafo, Jacques Dupin, neste período o pintor sofre uma transmutação radical em sua maneira de pintar, encaminhando-se para criação de uma linguagem pictórica pessoal. O que caracteriza essa ruptura é que a escolha dos planos não mais será feita segundo a perspectiva e sim, segundo uma escolha afetiva, aspecto que nos interessará para o trabalho com os autistas. Cada elemento do quadro ganha vida própria, assim como nas crianças autistas que apresentam gestos, palavras ainda desconexas que têm um significado afetivo particular.

Proponho um exercício de captação do mundo das formas de comunicação ‘autística’ fazendo uma breve ‘leitura’ desse quadro para nós a princípio enigmático.

Olhando para essa pintura de fundo amarelo e laranja, uma história é rapidamente contada: um caçador atirara num coelho e acendeu o seu cachimbo. (Von Wiese, 2008, p.58). Olhando mais atentamente, percebemos fios delicados e precisos que compõem essa paisagem. Seguir esses fios será o desafio do analista no trabalho com estas crianças. Também é necessária muita atenção para percebermos o corpo do caçador reduzido a um fio vertical, sua cabeça ao triângulo e o quadrado compõe as suas pernas. A ele não falta nada: a espingarda, a faca, o coelho, o sexo, o coração, a orelha, a barba, o bigode, o cachimbo, o barrete. Assim como o corpo do peixe, aparecendo ao lado a palavra sard, de sardinha. Uma árvore é apresentada em círculo claro da qual sai uma folha e nela se abre um olho. Essa árvore é real, existente na fazenda de Miró, já pintada em outros quadros, mas que sofre aqui uma mutação para essa forma poética, daí a fase conhecida como Mutação da Realidade.

Ainda, no meio do céu amarelo o símbolo do sexo feminino, o sexo-astro, que imanta toda composição com sua potência invisível, uma força primigênia.

Toda essa composição é estranha para um adulto, que em um primeiro momento pode ser percebida como algo desconexo, mas cada elemento do quadro ganha uma vida própria e demanda uma desconstrução dos nossos conceitos para alcançar o afeto originário contido nestes elementos. Ficamos também desconcertados diante de uma criança autista.

Segundo Dupin (1983, p. 19), neste quadro o traço se libera da sua função descritiva, a forma destaca-se do objeto e ao ganhar independência, cada elemento se converte por metamorfose em seu próprio pictograma. Com isso favorece as possibilidades combinatórias de uma linguagem poética e plástica engendrando o ideograma. E é através dessa associação de imagens como no sonho que adentramos com Miró na busca da origem mesmo da linguagem.

A professora de Teoria e História da Arte Contemporânea, Maria Josep Balsach no seu livro: Joan Miro Cosmogonias de um mundo originário considera que desde o início Miró busca uma pintura cujo sentido está ligado ao originário, entendido por ele como sinônimo de verdade, de autenticidade. Uma busca cujo propósito não é o intelectual do mundo pretérito, helenizado e idealizado, mas das raízes originárias, na força da natureza e nas emanações da paisagem vivida. Além do mais, a autora revela que Em Miró a visão do mundo é cosmoteândrica, conceito no qual sujeito e objeto não existem como tais senão que o homem é autenticamente ingênuo, que em seu verdadeiro significado quer dizer “o que não separa”: o homem em plenitude, o que não se separa do objeto que contempla, nem separa os objetos da totalidade. (Balsach, 2007, pp.7-9) É essa mesma busca do originário que empreendemos na aventura para alcançarmos a mente da criança autista.

Frances Tustin considera que ao “estudarmos o autismo, descobrimos que estamos estudando as origens da percepção.” (Tustin, 1990, p. 72)

Vamos encontrar em Isaías Melsohn, um estudo acurado sobre o tema percepção, a partir dos estudos aprofundados de Cassirer e Susanne Langer. De princípio ele nos alerta, que “todos os pensadores da psicanálise entendem a percepção como reprodução sensorial”, (Melsohn, 2001, p. 75), ou seja, como uma cópia do mundo já constituído.  Considera que existe uma forma primordial de percepção, a percepção expressiva, que amplia consideravelmente a nossa compreensão dos momentos iniciais do encontro do bebê com o mundo. Considera que a percepção longe de ser uma cópia fiel do mundo, é sempre uma criação original: “As raízes do processo perceptivo na criança não são associações de “elementos” sensoriais, mas caracteres expressivos originais primitivos e imediatos.” (Ibidem, p. 77) Lembra com outros autores como Koffka e Scheler, que o bebê não está interessado em simples cores, mas em faces humanas, nas suas expressividades. Os fenômenos como “amistosidade” ou “hostilidade” são buscados antes da cor azul por exemplo.

Essa hipótese é corroborada nas observações de bebês. Um bebê saudável, busca a face, a expressão do rosto, reage a ele. Podemos dizer que não apenas vê, mas cria algo como uma totalidade do mundo. O complexo do Outro ser humano, Nebenmensch, como exposto por Freud no Projeto para uma psicologia científica, (1977/1950/1895, p. 438) está presente desde as origens. Lembro da minha observação de um bebê em torno do seu terceiro mês. Ele estava no carrinho debaixo de uma árvore. Dois pássaros começam a brigar no meio dos seus ramos fazendo muito barulho. O bebê parece não se importar; logo em seguida um rapaz ao longe passa assobiando – o bebê imediatamente ‘desperta’ e começa a se movimentar atrás da origem daquele som. A busca do outro humano parece imperar desde o início.

Melsohn (2001, PP. 76-77) faz uma discriminação entre impressões sensíveis e percepção. Uma coisa seria o suporte das impressões sensoriais que vêm do mundo e outra a criação do indivíduo sobre esse suporte em uma síntese figurativa, não idêntica às impressões, já que acrescida da imaginação. Ele cita Susanne Langer que cunhou o termo Formas Significantes para essa criação perceptiva, que configuram a experiência, dando início ao processo de simbolização. Segundo ela, esses símbolos não são cópias do mundo, mas são formas produtoras da realidade.

Esse autor também nos alerta que a relação interno-externo, tal como a ciência a define não é a forma originária da experiência humana. Na forma originária, o homem já surgiu captando as intenções do outro; porque o mundo do outro, aquilo que se chama corpo, não é, ainda, concebido como separado do espírito. A relação mente-corpo é um eterno problema da história da filosofia. (Ibidem, p.82) Essa apreensão nos dá a captação do momento inicial de uma apercepção do mundo pelo bebê – uma visão totalizante altamente expressiva, onde não ocorre a separação eu-outro, já que o eu é concebido a partir do outro e os corpos se compõem junto com o espírito. Isso nos faz pensar na visão cosmoteândrica de Miró.

Além do mais nestas trans-forma-ções da percepção do mundo na descoberta da alteridade e da escrita, Melsohn considera que a escrita pictográfica e ideogramática chinesa estariam mais próximas da nossa experiência sensível do que a nossa escrita fonética, abstrata. O ideograma permite uma associação de formas mais próximas das características do sonho.

Retornando ao nosso tema Transtornos do Espectro Autista, Ami Klin (2006), especialista em autismo considera que crianças com desenvolvimento normal possuem um marcado interesse na interação social já a partir do nascimento. Mas em bebês e crianças jovens com autismo, a face humana possui pouco interesse.

Assim foi minha experiência com Tiago um menino que chegou ao meu consultório antes de completar quatro anos, tendo sido diagnosticado na ocasião dentro do Espectro Autista e apresentava considerável atraso no desenvolvimento da fala. Do nosso encontro inicial, ao me apresentar, notei um “fiapo” de olhar enviesado, um fiozinho mironiano, o que diante da sua aparente inacessibilidade me deu esperança de desenvolvermos um trabalho analítico. De resto andava como um soldadinho de chumbo e não olhava para mim. Logo na primeira sessão ele elegeu o trem como seu brinquedo preferido e ao término da mesma, noto que teve dificuldade em largar o trenzinho e ao fazê-lo teve um gesto brusco, como um susto, seguido de flapping (um movimento estereotipado como um bater de asas com as mãos) e em seguida ele parece se refugiar em uma carapaça muscular, o que lhe permitiu sair da sala. Noto desde então que ele vive as separações como insuportáveis.

Aos poucos vamos encontrando outros objetos além do trenzinho dentro do espaço de análise. Em uma sessão introduzo um espelho de formato retangular e ele no mesmo dia vem com um frasco com água e sabão e uma argola para fazer bolas de sabão. Ele faz as bolas de sabão que flutuam entre nós para logo estourar. Uma imagem evanescente, uma linha tênue que desenha um círculo no ar. Mas o mais incrível é quando ele se depara com o espelho, o que o deixa excitado, diz para mim Olha! e, para minha surpresa em lugar de se olhar, ele mostra a bola de sabão no espelho. Neste momento ele é uma bolha de sabão extremamente frágil, que logo arrebenta. Pega o espelho e de novo não se olha, mas através do espelho, ele olha os objetos da sala e é como se com isso criasse o mundo à sua volta. E também parece que com essa imagem capturada no espelho ele produzisse uma inscrição, um pictograma. Um incipiente quadro de Miró? No entanto, parece que a face humana ainda não se apresentara.

No primeiro ano de nosso trabalho tivemos duas interrupções maiores ocasionadas por férias e nessas duas ocasiões Tiago veio dormindo no retorno ao nosso trabalho. O motorista o colocou deitado no divã na chegada e o retirou ainda dormindo ao final da sessão. Entendi o sono como sendo a expressão dos efeitos de uma separação mais longa vivida como insuportável.

Mas nas férias seguinte, Tiago retorna acordado, entra na sala assim que o chamo. Parece que a separação pôde ser tolerada sem que se rompesse o nosso vínculo; algo possibilitou a ele manter-se desperto no nosso reencontro.

No meio dessa sessão, passa um avião. Tiago imediatamente reconhece o som e diz: “Vião!”, movimentando-se rápido para a janela. Mostra o céu onde passou o avião e diz: “VÉÉÉ!”, e parece mostrar algo que não entendo o que é. Ele insiste na comunicação: “VÉÉÉ!”. Pergunto: “O que é VÉÉÉ, Tiago?” Ele mostra que quer ajuda do motorista: vai até a porta dizendo Dê (nome do motorista). Eu o acompanho e ele diz para o motorista: “Dê, VÉÉÉ!” Pergunto para o motorista o que é vééé, e digo que ele parece ter associado com avião. O Dê após pensar um pouco traduz: “na praia, passava o avião e atrás, amarrado na cauda vinha uma faixa escrita – isso ele chamava de véé. Não é isso Tiago?” Tiago acena que sim com a cabeça parece dar-se por satisfeito e voltamos para sala.

Essa sessão deixou-me intrigada e considerei este um momento importante onde após um momento de separação, Tiago pode encontrar no vião-vééé as formas significantes (Susanne Langer) que sustentaram no ar o hiato criado entre nós dois pelas férias, um importante indício de um processo de simbolização em andamento.

Essa imagem do avião tendo a faixa amarrada atrás, dois elementos unidos por um terceiro, no meio do céu, assim como as imagens fugidias capturadas no espelho, me levou a pensar nas pinturas do Miró e até viajar atrás da sua obra para buscar o que intuí nestas sessões. Foi para mim um encontro com esse modo de apreensão das formas originárias presentes em todos nós, mas que as crianças dentro do espectro autista nos apresentam em câmera lenta, permitindo-nos acompanhá-las quando possível na construção de suas formas significantes rumo à linguagem compartilhada.

 

Referências:

Balsach, M. J. (2007). Joan Miró. Cosmogonias de un mundo originário (1918-1939). Barcelona: Galaxia Gutenberg/Circulo de Lectores.

Dupin, J. (1983). La transmutación. In: Joan Miró: Anys 20. Mutació de la realitat. Catalogo da Fundació Juan Miró, Maig-Juny 1983.

Freud, S. (1977). Projeto para uma psicologia científica. In S. Freud, ESB, vol. 1, pp. 381-517. Original publicado (1950 [1895]). Rio de Janeiro: Imago.

Freud, S. (2020). A negação. In S. Freud, Neurose, Psicose, Perversão, pp. 305-314. Belo Horizonte: Autêntica.

Klin, A. (2006). Autismo e Síndrome de Asperger: uma visão geral. Rev. Bras. Psiquiatr, 28 (Supl I):S3-11.

Melsohn, I. (2001). Psicanálise em nova chave. São Paulo: Editora Perspectiva.

Tustin, F. (1990). Barreiras autistas em pacientes neuróticos. Porto Alegre: Artes Médicas.

Von Wiese, S. (2008). Painting as universal poetry. The connection between Picture and Word in Miró. In: Joan Miró Snail Woman Flower Star, edited by Stephen Von Wiese and Sylvia Martin. Munich-Berlin-London: Prestel Verlag, 2008.

 

Eunice Nishikawa é médica, psiquiatra, psicanalista, membro efetivo e analista de crianças e adolescentes da SBPSP.

Imagem: Paisagem catalã (O caçador), Joan Miró (1923 – 1924) 



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