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TOC: os mecanismos obsessivos que se originam nos primórdios da constituição da vida mental

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A construção do texto atual propõe-se a transcrever os pontos significativos de minha presença como psicanalista convidada para o Programa Viver Melhor, da TV Justiça, em 25/08/2022. O convite consistiu-se na participação conjunta com o psiquiatra Dr. Eduardo Perin, para discussão de temas sugeridos pela direção do programa: Transtorno Obsessivo Compulsivo, Síndrome de Tourette. As duas terminologias são originadas do DSM-V (Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders).

Na condição de psiquiatra e psicanalista, representando a SBPSP, segui minha experiência psicanalítica compartilhando-a com as ideias do colega psiquiatra. Portanto, encaminhei minha participação pela perspectiva das expressões emocionais do Ser Humano, considerando-se o vértice psicanalítico.

Há mais de um século, em seu início, o tratamento de adultos foi ponto de partida da psicanálise, com a perspectiva de buscar o reconhecimento do inconsciente e a natureza de seus conteúdos expressos pela livre associação de ideias por meio da linguagem verbal, fato bastante surpreendente desde então, pela presença da vida mental inconsciente no cotidiano das vidas das pessoas. Em 1894, Freud, considerando propostas psicanalíticas da época, apresentou os fenômenos psíquicos da chamada neurose das obsessões. Esta concepção modificou-se para a expressão neurose obsessiva, segundo J.Laplanche/J.B.Pontalis, Vocabulário da Psicanálise, Martins Fontes Ltda., 1986, pág. 396.

Seguindo o desenvolvimento da psicanálise no transcorrer do tempo, este conceito deslocou-se, localizando-se como estrutura obsessiva (manifestações e estados obsessivos) perspectiva diferente do modelo da classificação nosológica psiquiátrica dos tipos de sintomas obsessivos. Portanto, considerando-se o vértice psicanalítico como caminho de meus pensamentos, o tema faz parte do campo das expressões emocionais do Ser Humano. O que na atualidade é chamado Transtorno Obsessivo Compulsivo (TOC) será compreendido pela psicanálise a partir das manifestações de estados emocionais como: pensamentos obsessivos repetitivos e intrusivos e/ou atos por meio de expressões corporais (tiques motores ou sons guturais, por ex.) e estados mentais compulsivos correspondendo à necessidade incontrolável de praticar um outro pensamento ou ato motor para anular magicamente a angústia provocada pelo pensamento anterior indesejado.  Estes fatos comuns nos levam à ideia de Freud sobre a conexão inicial entre corpo e mente e sua sugestão que o primeiro Ego era corporal.

Ampliando a ligação corpo-mente podemos dizer que o bebê, em seu início de vida, traz consigo registros de experiências corporais vividas intraútero e ao lado do corpo da mãe/ pais/ cuidador. O desenvolvimento da mente humana ocorrerá sempre a partir do encontro do bebê com o adulto, cuidando de um corpinho com inúmeras sensações físicas, atribuindo significados às experiências compartilhadas. Portanto, quem cria mente é outra mente a partir do vínculo de afeto vivido desde e, principalmente, a partir do corpo.

Os mecanismos obsessivos têm origem nos primórdios da constituição da vida mental, como organizações mentais necessárias e construtivas. Por outro lado, poderão transformar-se em mecanismos de defesa fortemente estruturados diante de angústias sentidas como desesperadoras fortemente marcadas pelo teor de culpa inconsciente. Diante da demanda de controle do que promove angústia, vão estar presentes tendências contrastantes e opostas, experiências emocionais inconscientes que refletem o separar/unir; ação/reação; agredir/consertar, ou seja, a dúvida obsessiva entre contrastes, desde a qualidade destrutiva e de violência à busca da reparação e conserto.

Diante da vivência emocional da falta de controle premente, resultaria o transbordamento de angústia sustentada pela crença onipotente e onisciente que algum coisa ruim ocorreria com as pessoas que são importantes. Na sequência, haveria o movimento também desesperado de consertar o que imaginariamente se supõe ter provocado dano ou como podemos dizer: fazer a reparação mágica do “crime” cometido. Portanto, o ato de lavar as mãos, comum nas manifestações obsessivo-compulsivas, reflete a punição e expiação pela condição imaginária de culpa pelos pensamentos inconscientes de qualidade agressiva: o suposto “crime cometido”. 

Observamos, também, os mecanismos obsessivos nas arrumações dos objetos em perfeita ordem simétrica ou geométrica, devidamente separados, em oposição ou em paralelo, como busca de controle e evitamento dos contatos entre as partes. A ocorrência dos contatos de superfícies seria possível desencadeador de angústia pelo temor inconsciente da sexualidade adulta do casal de pais, estimulando sentimentos de inveja e seus correlatos.

Sobre a reparação (conserto) do suposto dano causado temos exemplos bem conhecidos, como as atribuições mágicas a alguns fatos corriqueiros da vida com significados ligados aos sentimentos ao casal edípico (de pais). Os números 13 (como representante da sorte ou do azar) e o número 3 (as três batidinhas na madeira como proteção ao mal) refletem estados mentais de busca de reparação ao temor das fantasias inconscientes de exclusão e possível danos ao casal de pais. Tanto o número 13 como 3 são subsequentes às condições que os excluem, por terem atrás de si conceitos fechados de dúzia e de par respectivamente. A reparação em questão trata-se da tentativa de consertar os possíveis ataques agressivos ao casal de pais, percebido como conceito de dupla fechada, integrada, criativa, limitada a si mesma e excludente. Essas dinâmicas psíquicas disparam estados mentais chamados fóbicos, seriam medos terríveis diante da perspectiva inconsciente de perigo.

A chamada Síndrome Gilles de la Tourette, atualmente chamada de Síndrome de Tourette, embora tenha sido relatada em 1825 pela primeira vez, somente em 1889 o contemporâneo de Freud, Dr. George Gilles de la Tourette, a descreveu. As manifestações de Tourette expressam as manifestações emocionais semelhantes aos estados obsessivos compulsivos, acompanhadas de descargas motoras verbais, chamadas muitas vezes de coprolalia (pela comunicação em tom violento e com teor ligado aos excrementos). Os tiques motores são amplos, na sua maioria presentes em grupos musculares do rosto e membros.

A partir dos referenciais psicanalíticos, penso que os tiques da chamada Síndrome de Tourette poderiam expressar registros na mente-corpo do bebê movimentando braços e pernas em amplitudes variadas, como linguagem corporal à busca de comunicação e conversas corporais com a mãe. Portanto, estamos diante de estados emocionais que não encontraram o caminho da transformação do concreto para o significado psíquico simbólico, mantendo o bebê intoxicado de emoções expressas pela via corporal a partir de grupos musculares específicos: tiques, sons guturais (sons típicos do bebê emitidos pelo palato mole, da faringe ou laringe) e a coprolalia pela expressão de palavras com conteúdos de agressividade inconsciente.    

Para finalizar, gostaria de apresentar alguns conceitos que organizam minha confiança no método psicanalítico: valorizar a relação analítica – paciente – analista,  promover a construção de modelos do existir psíquico e do desenvolvimento identitário a partir do pensar-se como pessoa única e do relacionar-se com o outro diferente de si mesmo, usufruir da discriminação de estados emocionais que sustentam a percepção de tempo e espaço, favorecer o autoconhecimento de fantasias inconscientes que dificultam ou permitam as transformações realísticas voltadas para o mundo externo.

Regina Elisabeth Lordello Coimbra é psiquiatra, psicanalista, membro efetivo, didata da SBPSP, psicanalista de Criança e Adolescente – IPA. 

Assista à reportagem do programa Viver Melhor, da TV Justiça: clique aqui

Imagem: Autoretrato – Kazimir Malevich, 1910 (Wikiart.org)

“As opiniões dos textos publicados no Blog da SBPSP são de responsabilidade exclusiva dos autores.”  



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