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Sigmund Freud: Um autor do nosso tempo

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A proposta desta escrita é fazer uma homenagem a Freud pelo seu aniversário de 165 anos, completado no dia 06 de maio. Como este autor possibilita vários recortes, a decisão mais difícil foi por onde começar. Vou remeter o leitor que tiver interesse em sua biografia a visitar os escritos de Peter Gay no livro “Freud: Uma vida para nosso tempo” (1989), que em 587 páginas conta-nos detalhadamente sobre este homem de grande talento. O próprio Peter Gay nos diz o quanto Freud não gostava de ser conhecido pela sua história de vida, não gostava dos biógrafos. Em determinado momento, diz Freud: “Destruí todas as minhas anotações dos últimos catorze anos, além de cartas,  excertos científicos e manuscritos de minhas obras. Entre as cartas foram poupadas apenas as familiares”. Em seguida, nos informa os motivos que o levaram a essa decisão: “que os biógrafos penem e labutem, não vamos facilitar demais para eles”. Em carta a seu amigo Wilhem Fliess, em 1900, ele se define: “Não sou absolutamente um cientista, um observador, um experimentador, um pensador. Não sou senão um conquistador por temperamento, um aventureiro, se você quiser traduzir o termo, com toda a natureza indagadora, a ousadia e tenacidade de um tal indivíduo”. Vemos, então, que nosso homenageado era severo em relação a si próprio, e prosseguir neste caminho para lhe prestar homenagem não seria fazer justiça ao que esse grande homem nos deixou de legado.  Essas informações me levaram, então, a decidir escrever sobre sua obra.

Neste sentido, também se abre um leque, pois sua obra é extensa, são aproximadamente 9.000 páginas publicadas, então pensei nas obras escolhidas pela SBPSP para fazer parte da formação da escuta do analista, rumo a um vir a ser psicanalista. Durante 4 anos, o membro filiado entra em contato com 54 textos de Freud, os textos que ele escreveu e foram publicados no período de 1887 até 1940, nos trazendo 52 anos de sua incrível capacidade de observar os fenômenos mentais, de onde ele extraiu a riqueza dos seus achados. É dele a ideia de que o analista é como um arqueólogo em busca de tesouros enterrados e perdidos no tempo, e que nos mostram, quando os encontramos, as nossas riquezas e de onde partimos. Nos inquietamos, enquanto coordenadores de grupos, com a finalidade de transmitir seus escritos, em como agrupá-los para dar consistência à formação do analista e, então, o próprio nome escolhido, “módulos”, já contém em si a inquietante  viagem a que seremos submetidos. Partimos do módulo “Descoberta, Natureza e Método de Investigação dos Processos Inconscientes” para, em seguida, a viagem continuar pelo estudo da “Teoria dos Instintos”, depois percorremos a “Metapsicologia: Síntese Conceitual sobre a Inter-relação dos Processos Inconscientes, Conscientes e das Pulsões”. Nossa viagem vai mais adiante, adentramos em terrenos cada vez mais complexos como “O Narcisismo e o Desenvolvimento dos Processos de Identificação”. Cientes da complexidade que está presente na condição humana, nos deparamos com a “Reformulação da Teoria dos Instintos”, para depois adentrarmos em um terreno de percepções maiores ainda em relação à complexidade, quando Freud nos apresenta sua “Teoria Estrutural” e depois desses quatro anos de mergulho nesse lugar infinito que é a nossa viagem para dentro de nós mesmos, assistimos acontecer a “Reformulação da Teoria da Angústia e seus Escritos sobre os Processos Psicóticos”, e essa viagem toda é compartilhada com os estudos sobre a “A Teoria da Técnica”.

Adentrando neste universo de riquezas e possibilidades, vamos acompanhando, ao observarmos sua trajetória profissional,  o fato de que seu interesse pelos sonhos datava de 1882, quando era um jovem de 26 anos, e que apenas conseguiu começar a analisá-los por volta de 1894, doze anos mais tarde. Este lento avanço tinha seus motivos e a sua grande obra “A interpretação dos Sonhos” (1900), foi considerada por ele a peça central de sua vida. Já em 1910 ele considerava sua “obra mais significativa”. Trago ao leitor as próprias palavras com que Freud definiu esse seu escrito: “Se chegar a ser reconhecido, a psicologia normal também teria de ser refeita sobre novas bases”. Bem mais tarde, em 1931, aos 75 anos, no prefácio à terceira edição inglesa, Freud prestou novamente sua homenagem ao seu livro A interpretação dos Sonhos, dizendo: “Ele encerra, mesmo segundo meu atual juízo, a mais valiosa de todas as descobertas que a minha boa sorte coube fazer. Uma percepção dessas ocorre no destino de alguém apenas uma vez na vida”. De acordo com os estudos de Peter Gay, esse orgulho de Freud não era descabido, pois todas as suas descobertas entre os anos de 1880 a 1890 confluíram para A Interpretação dos Sonhos. E mais ainda, confirma Gay: “muito do que ele viria a descobrir adiante, e não só sobre os sonhos, estava implícito naquelas páginas. Ele resume tudo o que Freud aprendera – na verdade, tudo o que ele era –,  recuando diretamente até o labirinto de sua complexa infância”. Como vemos, estudando sua obra, acabaremos por conhecer o homem que nela está impresso.

É conhecido, por amigos mais próximos, meu grande entusiasmo por essa obra de Freud, há mais de 35 anos coordeno grupos de estudos sobre Sonhos, pois penso que é nesse texto que Freud, de forma muito generosa, tenta nos ensinar seu ofício: analisar os fenômenos mentais produzidos pelas nossas complexas mentes. Freud diz que não é o texto do sonho a via régia para o inconsciente, mas, sim, as associações que ele permite. Foi o método psicanalítico que possibilitou Freud fazer a seguinte afirmação “A interpretação dos sonhos é a via régia que conduz ao conhecimento do inconsciente da vida psíquica”. Em um trabalho escrevi que fico impressionada com o fato de que, ao analisar um sonho juntamente com meu paciente, nos aproximamos de áreas primitivas de seu psiquismo, e o fenômeno que se dá é o que me impressiona, pois o paciente acolhe suas percepções por meio da interpretação de seus sonhos com muito menos resistência do que suas percepções das situações na vida de vigília.

Freud também demonstra que o sonho é uma produção própria de quem sonha e que não provém de uma fonte estranha a ele, imposta de fora. Mas o fato é que esse é apenas o início da apresentação da importância dessa obra, ela não se esgota na interpretação dos sonhos noturnos, ela oferece material para adentrarmos ao que Freud chamou de “trevas”, ao nos demonstrar que a partir da interpretação dos sonhos deixamos para trás a ideia de que escutamos, em sala de análise, as palavras do paciente: a partir deste momento, o analista não mais escutará um paciente falando; a partir deste momento, o paciente estará sempre associando. Quando Freud nos diz que é a emoção que mobiliza a memória e que mobiliza a comunicação, ele introduz a experiência emocional da dupla, que vemos descrito mais explicitamente nas suas teorias sobre a transferência, sobre o inconsciente. Ao descobrir que os sonhos tinham um sentido, descobre também que os sintomas histéricos, as fobias, as obsessões e os delírios têm um sentido e, portanto, podem ser interpretados. Quando afirma que o paciente, ao associar, nos mostra sua patologia e como nos diz naquele momento tem a ver conosco, nos possibilita dizer que o paciente dramatiza em sala de análise o seu drama. Neste sentido, podemos inferir a importância que tem o nosso setting. Lugar de apresentação, de dramatização da dor, elemento necessário para nossa aproximação com o mundo mental do nosso maior aliado, nosso paciente.

Teria muito mais do que o número de páginas que este escrito permite para dizer dessa obra de Freud, ou de tantas outras que permitiram fazer a viagem acima descrita. O fato é que muitas perguntas se fazem sobre a obra de Freud: Freud ainda é atual? Suas ideias conservaram sua validade universal? Quanto ao método terapêutico que decorre delas, qual é seu lugar em nossa época? Para responder a estas questões remeto o leitor ao livro do autor Jean-Michel Quinodoz “Ler Freud” – Guia de Leitura da Obra de S. Freud (2004), que, ao tentar responder essas perguntas, nos diz “Aqueles que fazem essas perguntas, respondo que a psicanálise está muito viva: a ‘revolução psicanalítica’, como a denominava Marthe Robert (1964), continua em marcha”. Identifico-me com esta resposta de Quinodoz e proponho a leitura do livro acima, no qual tem material de trabalho e pesquisa que evidenciam a vitalidade das ideias de Freud e da psicanálise; recomendo a todo aquele que exerce nossa profissão, como parte desta homenagem.

Ler as obras de Freud em ordem cronológica como propõe a viagem que descrevi, e é feita em nossos Institutos, é mais do que um interesse histórico, é a proposta de uma narrativa de uma exploração que, como propõe Quinodoz, “pode servir de guia até encontrarmos nosso próprio caminho, à medida que avançamos em nossa próprias pesquisas interiores” .

O legado que nos deixou deu possibilidades evolutivas, foram valorizadas pelas contribuições de muitos psicanalistas pós-freudianos. Cabe a nós mantermos viva a herança de Freud, transmitindo seu dinamismo ao seguir suas próprias orientações, uma das quais é de que as teorias psicanalíticas necessitam ser re-descobertas, a partir de si mesmo, pois aquele que não o fizer corre o risco de ser mero aplicador de teorias. Nosso grande autor nos diz que se a teoria não der conta da experiência, muda-se a teoria porque a vida é soberana. Diante de tamanha liberdade de pensamento, resta-nos dizer que o resultado da pesquisa realizada recentemente no nosso Instituto, apontando Freud como o autor mais citado, “um autor do nosso tempo” não nos surpreende, afinal é impossível construir um edifício de qualidade sem bons alicerces.

Marta Foster é psicanalista, membro efetivo, analista didata e secretária geral da SBPSP.

Crédito: Sigmund Freud Museum e Freud Musem London 



Comentários

8 replies on “Sigmund Freud: Um autor do nosso tempo”

Maria José de Albuquerque disse:

Excelente artigo.Vou comprar o livro citado. Muito obrigada e meus parabéns.

talita azambuja disse:

Marta, obrigada por essa viagem emocionante, guiada, pela obra de Freud.

Maria Luiza disse:

Marta seu texto nos revela com fluidez o caminho percorrido por Freud ,vivenciado no cotidiano do nosso trabalho. Obrigada

Neucí Maria Gallazzi disse:

Um passeio brilhante e entusiasmado pela obra de Freud, feito com dedicação e carinho. Muito bonito e convidativo Marta. É possível perceber sua admiração pela psicanálise e por seu criador. Bela homenagem a um homem de todos os tempos, que continua nos ensinando quebrar preconceitos e ir em direção ao desconhecido e intrigante mundo interno.

Zélia Nicolino disse:

Obrigada por esses esclarecimentos sobre a vida de Freud.Muito bom!!!

Rosana disse:

Parabéns Marta, Muito interessante o texto que nos leva a conhecer um pouco mais este homem que tanto contribuiu para a mente humana.

Roberta Cruz de Moraes disse:

Marta sempre brilhante,generosa nos levando juntas para essa viagem maravilhosa!

Claudenir Ap Soares Doimo disse:

Que leitura gostosa! Parabéns pelo texto, me despertou o desejo em ler os livros aqui citados!

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