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Psicanálise e Poesia: uma aproximação

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Ao analista e ao poeta, tudo que é humano lhes interessa.

Têm amor pelas palavras e pela vida.

São escafandristas mergulhando nas profundezas e arqueólogos buscando rastros de civilizações/emoções soterradas.

Tudo isso permeado pela necessidade de conhecimento e beleza.

Como sou psicanalista e escrevo poemas, achei que o meu fazer poético e exercer psicanalítico poderiam me trazer alguma luz sobre o que há em comum entre essas duas áreas, visto que elas já ocorrem e se integram dentro de mim.

Minha experiência com literatura não é acadêmica. Meu fazer literário, no caso, poético, é experimental. Faço experiências poéticas, influenciado por tudo que li até hoje e pelos meus poetas e escritores preferidos. Tenho uma preocupação muito grande com a forma, com o som das palavras, com o aspecto visual do poema.

Como psicanalista, uso a escuta e a interpretação como instrumento de trabalho. Tudo que experimento no contato com os analisandos, no momento do encontro, serve-me de material para investigação e geração de pensamento. Desde o conteúdo do que o analisando me traz, modulado pela voz, expressão facial ou pelos movimentos de corpo, até os pensamentos e imagens que me surgem, naquele momento, podem ser usados como material de análise. Tanto na interpretação analítica como na literária não usamos apenas a teoria, mas muito do sensório e da intuição.

Tendo ligação com sons e palavras, que é o que me permite fazer canções e poemas, transito bem nesse universo sonoro, imagético e sensório da psicanálise e da poesia. Tudo isso permeado pelo mundo emocional.

Ambas, psicanálise e poesia, são processos de criação e revelação, ou desvelamento. Poesia vem do grego Poiesis, que indica a ideia de criar ou fazer – o fazer a partir da imaginação e dos sentimentos. Para Platão o objetivo da poesia era estimular emoção. Não tinha o mesmo status da filosofia, essa sim, para ele, trazia o verdadeiro conhecimento. Mas podemos entrar em contato com muitas verdades ao ler um poema ou fazer psicanálise.

O meu fazer poético é enriquecido pelo meu trabalho psicanalítico e vice-versa. Ao fazer poemas estou em contato com meu mundo interno e o mundo ao redor; estou transformando emoções brutas, sem nome, em pensamentos e, portanto, ampliando meu mundo simbólico. Em uma análise é isso também que buscamos.

Tanto na poesia, na literatura, como na psicanálise nomeamos vivências, abordando tanto o humano como o social. Há quem diga que o mundo só existe se nomeado.

Muitas vezes, dizer um poema pode ser mais útil ao paciente para o trabalho analítico do que uma interpretação direta. As metáforas e a poesia se prestam muito bem para criar e elaborar experiências emocionais.

Como é o trabalho de criar um poema?

Para mim, fazer poema é combinar palavras como timbres, para criar um texto-música, esperando que ele nos toque e nos diga algo de interessante. É desse arranjo que surgem os significados.

Às vezes eu tenho uma frase e a jogo no papel. A partir daí, através da combinação das palavras vão surgindo ideias. Muitas vezes alguém chega e diz: Eu tenho muitas ideias, mas não consigo fazer um poema. Mallarmé, poeta francês, já dizia: poesia não se faz com ideias, poesia se faz com palavras.

Raramente parto de ideias para fazer um poema. Elas surgem no ato criativo. Ainda que ocorra alguma ideia anteriormente, ao tentar passá-la para o papel ela já se faz outra, ou é ampliada, vai por caminhos os quais eu não imaginava trilhar (em Psicanálise, paralelamente, temos a contribuição de Bion: “sem memória, sem desejo”. É assim que o analista deve ir para uma sessão, atento ao que possa surgir no momento).

O aqui e agora é que aponta o caminho tanto na psicanálise quanto no meu fazer poético.

Outro aspecto importante, tanto na psicanálise como na poesia, é a limitação do poder da linguagem. Muitos analistas acreditam que, em algumas situações, a linguagem poética é mais potente do que a psicanalítica para falar do mundo emocional, embora ambas sejam limitadas.

Thomas Ogden, psicanalista americano, em seu livro “Esta arte da psicanálise”(2010), diz:

         “Faz parte da minha experiência de que na escrita psicanalítica, assim como na poesia, uma concentração de palavras e de significado faz uso do poder da linguagem para sugerir o que ela não pode dizer”.

Eu não escrevo apenas para falar sobre o que já tenho conhecimento, mas para que o poema me diga algo que ainda não sei e/ou de um modo ainda não dito. O conteúdo é criado no momento da criação, num interjogo com a forma. A forma sugerindo o conteúdo e o conteúdo implicando na forma.

Julio Cortázar, no seu livro “Jogo da Amarelinha” (1974) através de um personagem, escreve:

            “Por que escrevo isto? Não tenho ideias claras, nem sequer tenho ideias. Há trapos, impulsos, bloqueios. E tudo procura uma forma, então entra em jogo o ritmo e eu escrevo dentro desse ritmo, escrevo por ele, movido por ele e não pelo que chamam de pensamento…Há primeiro uma situação confusa, que mal se pode definir pela palavra: é dessa penumbra que eu parto.”

Ao me colocar em processo de criação, estabeleço uma outra relação com o mundo, acesso outro canal de sensibilidade e percepção. É o que podemos chamar de estado de poesia. Quando estou no lugar de analista, também acesso um tipo de canal de sensibilidade e percepção. Podemos chamá-lo tecnicamente de atenção flutuante ou estado de rêverie, captando comunicações inconscientes da dupla paciente/analista. Tanto na criação poética, como no processo analítico estamos diante de experiências estéticas e afetivas.

O poema e a literatura, ambos não cumprem suas funções se forem apenas entendidos intelectualmente e não vividos. Assim também o é o processo psicanalítico. É a estranheza do desconhecido, o impacto estético, que experimentamos ao entrar em contato com o outro ou com uma obra de arte, que amplia a nossa capacidade de percepção do mundo psíquico e nos aproxima de nosso verdadeiro eu.

“O estranho” a que Freud já se referiu (1919), é da ordem do inconsciente, do recalcado, ou mesmo do cindido e não representado. É o sentimento de si em um lugar não familiar, não habitual, que expande nosso conhecimento de nós mesmos e do mundo. É preciso estar suspenso, fora de si, para poder se ver e cair em si. Ler um poema é ter a experiência de algo que não sou eu, mas que tem aspectos desse eu, muitas vezes não percebidos.

Tanto no trabalho analítico como no fazer poético estamos sonhando nossas experiências, transformando sensações em conhecimento. Ao sonhar nossos sonhos através do fazer poético ou da experiência analítica, estamos vivendo mais plenamente. A poesia começa por apreender o real de forma sensorial, indo em direção ao simbólico.

Uma questão importante no poema, além das rimas, das metáforas e da forma, é seu ritmo. É interessante que nossa primeira experiência intersubjetiva, por exemplo do bebê com sua mãe, se dá através do ritmo daquele encontro. É a linguagem mais primitiva, seguida pela música da voz. Em muitas situações analíticas, lidando com pacientes que sofreram traumas precoces e têm déficit de simbolização, precisamos estar atentos ao ritmo dos encontros e à música da voz do paciente para criarmos alguma representação que dê conta do que está se passando na relação e das experiências vividas por aquele paciente. Vale lembrar aquela fala popular: que música você toca? Se conseguimos tocar e dançar a mesma música juntos, podemos nos entender.

Há um texto de Victor Guerra, chamado “Diferentes funções do ritmo na subjetivação e na criação” (2017) em que ele diz:

            “A construção do vínculo entre a mãe e o bebê pode ser vista como uma história de encontros e desencontros, de claridade e opacidade, harmonia e desarmonias… é uma sinfonia inacabada que sempre se reescreve com cada novo filho…O ritmo é essencialmente um articulador. Ele articula e é o que o diferencia da cadência: o ritmo é aquilo que liga através do tempo: continuidade e cesura, essa temporalidade não é feita apenas de repetições, mas também de surpresas, cadências e rupturas na cadência. A essência do ritmo está nessa tensão indefinível entre uma necessidade de regulação-repetição e uma espera de surpresa-assombro”.
         
Já sabemos da importância do ritmo e da sonoridade em um poema e a importância para a vinculação do bebê à mãe.

Usarei, a seguir, dois poemas meus para mostrar meu processo de criação e como eu os entendo, ressaltando que os poemas são abertos a outras interpretações.

 

Decompor

Ponho e decomponho
Também decanto

Gosto de separar
E unir palavras
Seus sons, climas
Aliterações e rimas

Misturar sem fazer vitamina
O rock, o rap, o funk
A balada e o bolero

Não preciso me levar
Tão a sério

Canto o que sai de mim
O que chega a mim
O que passa por mim
Até o chinfrim

Mas só faço com estilo

Me insinuo, remexo
Vasculho, destilo
Me viro, burilo
Cuspo, lustro
Ponho, retiro

Arma engatilhada

ATIRO

Para escrever, parto do que ouço, leio, vejo, sinto. No poema acima eu digo:

            …Canto o que sai de mim/ o que chega a mim/ o que passa por mim/ Até o chinfrim/ Mas só faço com estilo/ Me insinuo, remexo/vasculho, destilo/ me viro, burilo/ cuspo, lustro/ ponho, retiro/ arma engatilhada / atiro.

Esta é a diferença entre uma linguagem poética e uma comum: na linguagem comum eu diria que eu faço um trabalho em cima do que as coisas me despertam. Mas isso não seria um poema. A forma como eu digo isso é que se constitui um poema.

Quando escolho uma e não outra palavra, além de sua sonoridade, estou interessado em ampliar o significado e comunicar mais do que uma linguagem comum, abrindo espaço para novos conteúdos.

Ainda no poema “Decompor”, quando digo que canto/escrevo “o que sai de mim, o que chega a mim, o que passa por mim”, estou falando do material desse fazer. Quando digo que “vasculho, destilo, me viro, burilo, cuspo, lustro”, e finalizo com “atiro”, estou falando como eu trabalho esse material. As palavras que uso para comunicar isso tudo sugerem que, neste poema, estou lapidando, destilando, burilando sentimentos agressivos e eróticos (cuspo/lustro/ insinuo/ remexo/ponho/retiro/ atiro…), transformando-os e, portanto, simbolizando-os. Em vez de um tiro de revólver, ou um falo destrutivo, um disparo de palavras sensuais e poéticas.

Cito aqui o escritor Alex Moreira Carvalho, que em seu conto “Tipo nobre”, no livro “Miudezas” (2017) diz: “Ela chegou com a elegância de quem porta flores na forma de palavras. Um cuidado militante na hora de denunciar os terrores do mundo”.

Flores na forma de palavras… a palavra como algo a ser trabalhada com elegância em um texto literário e também na relação com o outro. Um cuidado militante na hora de denunciar os terrores do mundo…remete-me ao cuidado que devemos ter ao abordarmos os terrores do mundo interno, em uma relação. Não se diz verdades apontando o dedo.     

Gostaria de refletir agora sobre outro poema, que intitulei “Garrafa”:
                                   

                                               Garrafa

                                               Estou lançando minha garrafa ao mar

                                               Temerosa de vulgaridade

                                               Tantos anos guardada

                                               Para ser navegada, ancorada

                                               Acariciada

 

                                               Estou lançando minha garrafa ao mar

                                               Temerosa de tempestade

                                               Essência pura, embalada

                                               Para ser deflorada, devorada

                                               Bem decifrada

 

                                               Estou lançando minha garrafa ao mar

                                               E admito a hipótese de ela não ser encontrada

 

Ao colocá-lo no início do livro digo metaforicamente que essa garrafa é o próprio livro. Por que não dizer estou lançando meu livro, numa linguagem direta? Porque a metáfora se presta mais a despertar curiosidade, senso estético e abre caminho para o imaginário do leitor.      

Quando digo que a garrafa é para ser decifrada, uso uma metonímia, pois o que será decifrada é a mensagem dentro da garrafa. Como a mensagem é contígua à garrafa, uso essa figura de linguagem para dar mais materialidade e senso estético e poético à mensagem.

O mar pode ser interpretado como a vida, que contém tempestades e calmarias, que exige coragem, que é misteriosa. Assim como a garrafa ao mar, ao sabor das ondas e do vento, representa o personagem/autor vagando, apreensivo quanto a ser encontrado, validado. Cabe uma pergunta: somos donos de nosso destino ou precisamos aceitar o acaso?

Do ponto de vista psicanalítico, poderíamos pensar no ser humano ao nascer, vindo de um mundo aquoso, que vai ao encontro da mãe necessitando ser acolhido, compreendido, amado.

O poema termina falando da possibilidade de isso não acontecer.

Remete também à angústia do poeta diante de sua criação, o livro. Será bem recebido, compreendido?

Ao aventarmos todas essas possibilidades, ampliamos nosso mundo simbólico para pensar sobre questões pessoais e da vida como um todo, através de uma experiência emocional e estética.

A linguagem metafórica do poema contribui para que a mensagem não seja fechada em si mesma, mas se abra para que o leitor possa abstrair novas possibilidades emotivas e interpretativas.

Ao analista e ao poeta, tudo que é humano lhes interessa. Têm amor pelas palavras e pela vida. São escafandristas mergulhando nas profundezas e arqueólogos buscando rastros de civilizações/emoções soterradas. Tudo isso permeado pela necessidade de conhecimento e beleza para se chegar mais perto de um viver pleno.

 

Referências:

Carvalho, Alex Moreira de. Tipo Nobre. In: Miudezas. São Paulo: Monomito Editorial, 2017.

Cortázar, Julio. Morelliana. In: O jôgo da Amarelinha, cap. 82. Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira, 1974.

Freud, Sigmund. O estranho (1919). In: Obras psicológicas completas de Sigmund Freud, vol. 17. Rio de Janeiro: Imago, 1969.

Guerra, Victor. Diferentes funções do ritmo na subjetivação e na criação. In: Revista Caliban, vol.15-n.1, 2017).

Ogden, Thomas H. Esta arte da psicanálise: sonhando sonhos não sonhados e gritos interrompidos. In: Esta arte da Psicanálise, cap. 1. Porto Alegre: Artmed, 2010.

Pinheiro, Luiz. Poema Decompor. In: Poemas que dormem comigo, pág. 18. São Paulo: Editora Patuá, 2021.

Pinheiro, Luiz. Poema Garrafa In: Poemas que dormem comigo, pág. 13. São Paulo: Editora Patuá, 2021.

Zimerman, David E.. Sem memória, Sem desejo e Sem Compreensão. In: Bion da teoria à prática, cap.16. Porto Alegre: Artes Médicas, 1995. 


Luiz Pinheiro
é psiquiatra, psicanalista, cancionista, poeta, membro associado da SBPSP. Tem composições gravadas por Cássia Eller, Arrigo Barnabé, Vânia Bastos, entre outros; e três CDs de composições próprias lançados pela Tratore: Cássia Secreta, Decompor e 3,1415… . Autor do livro Poemas que dormem comigo (Editora Patuá).

Imagem: Joan Miró 



Comentários

6 replies on “Psicanálise e Poesia: uma aproximação”

Hermelino Neder disse:

Muito legal!

Antonia disse:

Amei ! Adorei Luís!!!

Francisco Braz disse:

Como é bonito ler um texto assim!!!

Lis Monteiro Teixeira disse:

Brilhante Luigi!

Sueli disse:

Perfeito! Adorei LuPi

Tomas M disse:

Fantástico!

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