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Por que se procura uma análise?

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Maria Olympia A. F. França 
2008

Tu não me procurarias se já não me conhecesses. Pascal

Quando não me perguntam sobre o tempo, sei o que é… Quando me perguntam, não sei, dizia um ancião cheio de sabedoria. Acho que o mesmo se passa com a questão: Por que se inicia uma análise? Esta, sem dúvida, é mais complexa do que indagar por que se nasce ou por que se vive, pois nascer e viver podem ser consequências apenas de atos biológicos, automáticos, quase sem acréscimos afetivos e/ou racionais, enquanto que para iniciar e manter uma análise o homem tem de estar nutrido, ainda que minimamente, do todo seu ser vivente, isto é, instintos de vida e instintos de morte ativos ou pelo menos o vislumbre deles transformados em sensações ou sentimentos.

Nietzsche discorre sobre o “sentimento de estar vivo”. Sua compreensão assemelha-se bastante a aquilo que Winnicott postula como “vontade de poder”, isto é, um “impulso constante e irrefreável” com o qual o bebê nasce. É provavelmente desse núcleo do self que nós utilizamos para procurarmos ajuda. Analítica, no caso.

Como contraponto a esse sentimento-vontade de estar vivo, lembro-me dos versos de Chico Buarque:

Tem dias que a gente se sente,
Como quem partiu ou morreu…

A gente estancou de repente,
Ou foi o mundo então que cresceu.
A gente quer ter voz ativa,
No nosso destino mandar,
Mas eis que chega…a roda viva,
E carrega o destino pra lá…

Repassando as lembranças das primeiras comunicações de meus pacientes, encontro distintas maneiras de se aproximarem de suas capacidades de pedido de ajuda para continuarem e sentirem-se vivos. Alguns conseguem falar na primeira pessoa, ainda que de maneira rudimentar: “estou vivo, mas quero e necessito de mais”, para outros a queixa de “quem partiu ou morreu”, silêncio, não há palavras, o choro é baixinho ou convulsivo, “não sei se há jeito… já tentei de tudo”, “não sei o que faço aqui”…, “nunca sei começar”, “bem, vamos lá… você não quer perguntar alguma coisa?”… Há outros que se mantêm vivos na esperança defensiva que foi a “roda viva que carregou o destino pra lá”, “a vida que partiu de repente” ou o mundo então que cresceu… Como é doído perceber que a gente pode estancar de repente pois somos humanos!

Recordo-me também de diferentes climas e atitudes emocionais em face da demanda analítica os quais variam muito, podendo situar-se entre dois pólos: aqueles que de modo implícito ou explícito experimentam seu pedido de ajuda ainda que não saibam nomear para que, e outros que, com uma atitude hostil ou arrogante, exigem ou impõem uma ajuda por se sentirem persecutoriamente lesados pela vida. Dizia-me um paciente enfurecido, “Assim não é possível viver! Desde sempre estive sozinho na tarefa da vida, será que nunca irei encontrar descanso?” Uma fúria imensa, mas se bem conduzida pelo analista, deixa transparecer que, para eles, a transferência está à flor da pele e o trabalho poderá prosseguir se acreditarmos no sofrimento subjacente à razão que alegam para sua fúria (nem sempre com fatos tão verdadeiros).

E então, como pensar o encontro inicial? Todo o até então apresentado realiza-se numa situação sui generis entre os encontros humanos, pois envolve duas pessoas desconhecidas ou conhecidas “apenas de ouvir falar”:

De um lado, alguém necessitado que clama por ser ouvido, de outro, alguém que se supõe capaz de colaborar. Aquele que chega carregado de fortes ou fracas emoções, ainda que escondidas, um outro que as recebe disposto a acolhê-las, mas sem saber o que virá pela frente e quais as condições que terá para realizar seu propósito.

Posições assimétricas? Penso que sim. Criaturas viventes assimétricas? Penso que não. É nisso que reside o núcleo do encontro, mais do que na competência propriamente dita do analista, ou, pelo menos, essa não é a condição sine qua non para formarem um par. As duas pessoas do par analítico procuram “o estado de sentirem-se vivas” ou a “vontade de poder” para realizarem suas intenções.

Agora, novamente sem me ater a uma sistematização rigorosa, citarei alguns tipos de personalidades que, a meu ver, encontram-se em uma condição psíquica bastante refratária a procurar uma análise. O critério para agrupá-los não se deveu ao grau de seus distúrbios e/ou dificuldades, mas antes à intensidade das defesas que estruturam e organizam suas mentes construindo assim, o único e original de cada um.

Apresentando-os:

aqueles para os quais não há espaço para os sentimentos de confiança e esperança de que alguém (um outro) possa se interessar verdadeiramente por eles, dando o melhor de si para minorar-lhes o sofrimento. Em geral, são pessoas com auto-estima muito baixa cuja defesa principal é a arrogância e/ou o afastamento afetivo;

aqueles que sofrem mas que não percebem que sofrem (Bion), cuja organização emocional é geralmente  sustentada por um acentuado falso self chegando até mesmo a uma personalidade de organização bastante autística;

aqueles para os quais o sofrimento se centrou na humilhação e na vergonha de si mesmos e, ainda que tenham uma pequena condição mental de confiança e de esperança, a barreira defensiva contra novas humilhações é quase intransponível pela força de um superego cruel que é realimentado com o próprio ato de “abrir sua dor” para alguém. A escuta persecutória é de imediato acionada por qualquer movimento ou fala do analista. Obviamente, esse mesmo superego é responsável por um núcleo narcísico desobjetivamente e refratário a qualquer nova percepção de um Outro;

aqueles em que a sedimentação de um narcisismo primário impede o contato com a realidade (processo secundário) e, ao mesmo tempo, lhes fornece uma certa condição de manter-se através de núcleos de falso self. O desprezo e a desvalorização do outro (processo analítico) tornam-se uma constante. “Não há o que o outro saiba de mim que eu não possa saber”; “Quem tem que dar jeito na minha vida sou eu mesmo”; “No fundo, no fundo o que terapeuta quer é o meu dinheiro”; “Se eu não estou podendo dizer, como ele irá saber?”; “No dia em que eu encontrar alguém que me sirva, eu irei”… Um misto de realizações narcísicas se trama ao redor de defesas narcísicas.

aqueles que não tiveram continência para elaborar e/ou desenvolver suas pulsões sexuais e agressivas, mas que tiveram algum contato com elas em situações de atuações perigosas e/ou ofensivas. Essas situações deixam uma impressão tão forte de “ser loucos por dentro” que os afastam totalmente do contato consigo mesmos, ainda que seja através de leituras, filmes, informações etc. Dentro desse contexto estão também os estigmas ambientais, seja de ter antecedentes familiares de loucura, seja do estigma caseiro: “esse menino/a é louco”;

aqueles que sofreram traumas muito intensos podem passar a vida tentando afastar-se “daquilo que dói” e que não sabem onde se localiza. Justamente por esse trauma estar fora do acesso consciente, o que acontece na realidade é que as pessoas se afastam de si mesmos, buscando muitas vezes recursos defensivos no automatismo, no aéreo/desligado e nas racionalizações, sobretudo em “eu sei o que é ou o que tenho, pode deixar…”. Na verdade, não sabem, mas fantasias de cunho perigoso continuam se reproduzindo, alucinando apenas algo que talvez se aproxime ao trauma nuclear;

também os “pequenos”, pessoas para as quais o mundo não teve apelos. Mantêm-se numa quase indiferença por tudo aquilo que não se refira à sobrevivência imediata. Neles, não há capacidade de metaforizações para chegar à função simbólica. Não há interesse, não há curiosidade por aquilo que os rodeia, nada os desperta para uma vida mais rica e ampla. 

No acervo de minha experiência clinica, constato que caso o analista não consiga em seus primeiros encontros captar e sintonizar-se, ainda que de leve, com a dor mental do paciente, o trabalho analítico não deveria prosseguir a fim de não decepcionar ambos os parceiros. Mas se essa captação for possível, o sofrimento mental será sempre um norte balizador para nossas contribuições.

Na realidade todas essas situações não são excludentes e muitas somam-se entre si.

Mas voltemos às situações mais frequentes pelas quais somos procurados, em resumo, para um pedido de ajuda de alguém descontente com sua qualidade de vida. Para tanto, é necessário pensarmos na proposta da psicanálise, em seus recursos e limitações. A psicanálise conceitua teoricamente e clinicamente que a vida psíquica, assim como a vida biológica, somente pode nascer do encontro interativo de duas vidas humanas. Os contornos e definições de nosso próprio self são adquiridos pelas imagens que captamos através do Outro, ora a dele, ora a nossa. Dessa maneira, o poder de se sentir vivo é constituído a partir da experiência sensorial (presença física) com um outro ser vivo, tornando-se esta a base para a experiência emocional posterior e realizando então os fatores estruturais e estruturantes da vida mental: forças pulsionais, emoções, sentimentos e o pensar racional. Vale registrar que o desenrolar do desenvolvimento mental irá tendo, também como continente, os objetos intrapsíquicos já introjetados.

Winnicott propõe que falhas maternas na continência inicial para o sentimento de estar vivo, ou na realização do poder de criar, influenciarão todo o desenvolvimento afetivo posterior.

Seguindo as idéias desse autor, o bebê nas primeiras mamadas está pronto para encontrar algo em algum lugar, mas sem saber o quê. A mãe torna possível para ele ter a ilusão de que o seio e aquilo que o seio significa foram criados pelo impulso próprio, originado de suas necessidades. Termino, propondo as idéias desse autor como paradigma de minhas reflexões sobre por que se é capaz de pedir ajuda acreditando ser dele que se desabrocha a condição de um encontro humanizador e que possibilita ao analista continuar sendo chama de vida para o paciente e ao mesmo tempo proporcionar-lhe vivências que o fazem acreditar em si mesmo como a fonte nuclear da própria vida.


BIBLIOGRAFIA

HOLLANDA, C. B. de. Roda Viva (música). In álbum Chico Buarque de Hollanda, vol. 3. RGE, gravadora (Som Livre), 1968.

NIETZSCHE, F. Ecce Homo – Como tornar-se o que se é (1888). In: Obras incompletas: Coleção Os Pensadores. Tradução e notas de Rubens Rodrigues Torres Filho. 1a ed. São Paulo: Editora Nova cultural, 1999.

PASCAL, B. O mistério de Jesus. Tradução Brito Broca e Wilson Lousada. Fonte: Clássicos Jackson. http://www.consciencia.org.o-misterio-de-jesus-blaise-pascal

WINNICOTT, D.W. Natureza humana. Tradução de Davi Litman Bogomoletz.1a ed. Rio de Janeiro: Imago Ed., 1990.

Maria Olympia A. F. França é membro efetivo e analista didata da SBPSP. 



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