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Os Descendentes e a Estrela da Morte

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O filme “Os Descendentes”, da Disney, vem aparecendo muito na minha sala de análise de crianças e pré-adolescentes. Os pedidos de atendimento para essas crianças são variados e decorrem de muitas questões familiares, por vezes transgeracionais. O filme conta a história dos filhos dos grandes vilões da Disney dos contos de fadas. São adolescentes como a filha da Malévola do conto “A Bela Adormecida”, a filha da madrasta de “Branca de Neve e os 7 anões”, o filho do Capitão Gancho de “Peter Pan”, que foram criados até a adolescência numa ilha-prisão para pais vilões. São, então, trazidos para conviver no mundo, de fora da ilha, por não carregarem o mal em si e, dessa maneira, poderem comprovar que são pessoas como as outras.

Uma referência à sequência de filmes de Star Wars, na qual o “mau” constrói uma arma que é capaz de destruir planetas inteiros, é a denominada Estrela da Morte, que também nos traz fortemente a questão da luta do bem contra o mal e da herança de pai para filho. Temos por exemplo o medo, afeto tão comum a todos nós, mas que dependendo do seu impacto, mesmo na pessoa mais bem dotada, pode prejudicar todo o desenvolvimento pessoal e inclusive das gerações futuras. Outro exemplo é a onipotência que pode gerar o ódio, a tirania e a destruição dos sentimentos mais profundos. E sem esquecer o amor e a amizade pois refazem laços e nos dão outro tipo de poder… o poder do resgate! Breves exemplos de como as heranças afetivas são transmitidas.

A questão se o mal é característica genética que passa de pai para filho aparece em várias histórias pessoais. Em muitas sociedades os filhos carregam e pagam por dívidas e crimes dos pais, desde coisas muito pequenas a outras terríveis.

É incrível como crianças de tão pouca idade já procuram respostas para questões tão amplas e até filosóficas… E para isso precisam de ajuda! Cada psiquismo é diferente, e por isso não existem respostas prontas nem solução única para resolver a angústia… Para isso, é preciso de um outro, uma mente que nos ajude a conter e pensar, que em psicanálise chamamos de uma dupla analítica, em união com a família. Essa pesquisa, para Freud, seria como uma “busca arqueológica” que procura em camadas cada vez mais profundas e com muito cuidado, descobrir e reconstruir por meio de fragmentos, novas histórias e saídas para difíceis labirintos…

Os casos aqui descritos são ficcionais, por razão de sigilo, mas trazem aproximações de questões reais trazidas por crianças, adolescentes e famílias.

Uma criança me traz a angústia por seu pai, que matou o primo e depois se suicidou após uma briga de negócios, numa ilha distante. A família se mudou para outro lugar, tentando reconstruir a vida. Que ato fora esse? Loucura, desespero, depressão? O que ele carregaria disso? “Tia Cris, você entende de genética? Eu posso ficar louco também?”

Um garoto adolescente adotado, quer saber de seus pais biológicos… “Se eles foram maus, eu serei também?” Como lidar com o desconhecido tão próximo e ao mesmo tempo tão distante? Pela questão genética ou pelo que nos é passado pelos próprios pais?

Uma jovem depois de assistir a um filme de guerra e matança de judeus, pergunta: “Será que alguma raça é marcada para sofrer?”, “Onde estava Deus quando tudo isso acontecia?”, “Onde estava todo mundo que não foi ajudar?”. Perguntas muito pertinentes para toda a sociedade… mas extremamente grandes para uma criança!

Um garoto que teve uma tentativa grave de suicídio, constrói naves-mães para salvarmos “nosso” mundo da estrela da morte de Star Wars. E, sim, crianças também fazem tentativas de suicídio… Como o mundo mental pode ficar ameaçado de morte real, se não encontrar o que está por trás do ato em si. Por vezes isto é apenas a ponta de um iceberg. Questões na escola e bullying, também provocam muitas vezes a angústia. Mas é apenas na pesquisa do inconsciente, naquela que investiga o modo de ser e estar de cada um, na maneira de sentir e construir sentimentos, de elaborar aspectos dolorosos ou apenas difíceis dos relacionamentos, que vamos ajudando a criança e o adolescente a se conhecerem e ampliarem suas capacidades de viver no mundo. Podendo assim estar num aqui e agora menos tumultuado de aspectos do passado.

Uma menininha que perdeu a mãe e lhe foi dito que esta virara uma estrelinha, me pede para encontrar com essa estrelinha, que tem medo da noite e queria fabricar uma estrela do dia. Como conviver com a morte real, que lhe rouba a mãe, quase um pedacinho dela mesma? Como fabricar uma presença-estrela materna que é insubstituível?

A menina mestiça que não queria ser uma mistura de raças, queria ser só brasileira. Diferenças raciais, preconceitos internos e externos, do ambiente, da escola, da própria família, de si mesma, pedem contornos e diálogos, que permitam a ela se conhecer para além das cores externas…

O menino adotado ainda bebê que faz desenhos de vários olhos, ou óvulos, que são, segundo ele de seus irmãos perdidos no mundo… “E se quando eu crescer me apaixonar por uma irmã, que não conheço?”. “Tenho medo de crescer…”.

Como lidar com aspectos difíceis de ter pais biológicos desconhecidos, com histórias não contadas e irmãos e familiares em algum lugar no mundo? Como não ficar perdido no desconhecido e tecer sua própria história pessoal?

Cada criança e adolescente nos traz pedidos e angústias próprios, além dos pedidos específicos dos pais. Por vezes o que angustia a criança e o adolescente são questões muito diferentes das que nos trazem os pais. E isto faz parte do trabalho analítico.

O que acontece na sala de análise? Como é o trabalho de um terapeuta de crianças e adolescentes?

Em psicanálise, trabalhamos com o conhecer a si mesmo, manejando questões, perguntas, medos, que nos chegam associados a brincadeiras infantis, jogos, filmes e livros trazidos pela criança ou adolescente para um início de conversa. No meio de brincadeiras de esconde-esconde, de charadas e combates com vilões e heróis, sequestros e resgates, vamos colocando uma luz nos medos, nas fantasias de ser e estar em lugares e mundos internos tristes e sem-saída.

Brincando com a tristeza, a inveja, a agressividade e sim, com a destrutividade de cada um, vamos fortalecendo maneiras mais construtivas de se estar em lugares e situações difíceis, evitando que estes medos se tornem realidades e repetições.

Sim… repetições existem. Assim como aspectos que passam de geração em geração… Não são só a cor dos olhos que são herdadas, mas também eventos traumáticos podem atravessar gerações. Como as bonecas russas (Matryishkas) que se colocam uma dentro da outra, temos transmissões através do inconsciente. E também questões não suportadas pelos pais podem passar para os filhos projetadas no espaço mental destes. Algumas escravizam a mente e pedem, urgem por mudanças e resoluções. Freud nos fala da importância dessas transformações para que cada um possa viver o que há de melhor em si mesmo, além do que foi herdado.

Sempre gostei de filmes e livros infantis! Mas na sala de análise cada filme pode ser diferente, um aspecto especial pode ser abordado ou a visão do que é mais importante para cada criança aparece e é muito relativo… cada sessão é um filme novo e diferente e uma nova construção é possível… Por vezes filmes viram séries e estas concorrem a Oscars e representamos juntos como atores e autores de novos finais e novos roteiros. Já construí junto com um parceiro de aventura um mundo mágico feito para os suicidas, uma Disney para os que não acharam como construir a alegria… Nesta parceria enfrentamos os medos mais profundos, pedimos licença à noção de pureza e felicidade total, para chegarmos a duras realidades com olhares firmes em direção ao futuro.

É um trabalho rico e cheio de detalhes e delicadezas para enfrentar os mais temíveis vilões internos e externos. Todos somos descendentes de alguém, ou de algum desejo dos pais, ou de eventos e construções raciais. Como enfrentar de onde viemos e para onde vamos?  Como estar face a face com a estrela da morte, seja um mal puro ou a crueldade mais vil da raça humana? É preciso construir forças heroicas que possam estar frente a frente com a realidade, sem permitir que marcas ancestrais virem tatuagens definitivas na alma.

Este é o trabalho do psicanalista e seus parceiros: a criança ou adolescente e a família, que nos confia seu bem mais precioso.
 

Cristina Cunha Hori é membro filiado da SBPSP. 

Imagem: A Estrela do Medo, por Sônia Novaes de Rezende. 
Meu agradecimento à amiga, artista e psicanalista pela ilustração especial para este texto.



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