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O seio na vida psíquica do bebê: do peito da mãe ao peito do pai

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Amamentar e mamar são dois lados distintos de uma mesma vivência compartilhada entre mãe-bebê-pai, que marca significativamente a todos. Pode ser coadjuvante no processo de desenvolvimento psicoemocional da criança se puder ser considerada além dos benefícios nutricionais e imunológicos do leite materno, que também são inquestionáveis.  O lugar do pai ou substituto para a função paterna é tão importante e essencial quanto o da mãe e do bebê. Falaremos mais abaixo sobre “o peito do pai”.

É comum usar-se o termo peito em amamentação. Escolho aqui seio para discriminar que não se trata do órgão feminino que produz leite, mas de toda uma experiência que se dá a partir das sensações corporais em contato com o corpo da mãe ou substituto, criando marcas que se transformam em representações mentais, permitindo que se constitua um mundo interno simbólico, cerne da vida mental saudável. “o simbolismo se torna a base não só de toda a fantasia e sublimação, mas também da relação do indivíduo com o mundo externo e com a realidade em geral”. (Klein, 1930)

Esse processo demanda o olhar atento dos pais e o manejo do ritmo da amamentação até o desmame de acordo com os sinais de prontidão psíquica do bebê para cada etapa do desenvolvimento. Os desencontros podem ser experimentados como catastróficos.

Os primeiros três anos de vida são a pedra fundamental da saúde mental de um indivíduo. Desde o ventre, as experiências vividas com a mãe e/ou cuidadores são marcas que perduram na dinâmica relacional ao longo de sua vida. Nesse cenário das primeiras relações o seio ocupa um lugar central, não apenas por ser sua primeira fonte de alimento, mas também a fonte de prazer e conforto que pode representar. A sensação de fome desorganiza a experiência de continuidade e integração que precisa fazer parte da maior parte da vida inicial do bebê. Ele conta com um aparelho mental rudimentar que tem parcos recursos para lidar com o desconforto. Fome, dor ou desequilíbrio térmico são vividos como ameaças à sua existência, tal seu desamparo. O filhote humano é, diferente das outras espécies, completamente dependente. “Um bebê não existe sem sua mãe ou alguém que a substitua” (Freud,1911).

Os cuidados maternos são a matriz da constituição da mente de um bebê ao lado do potencial para o desenvolvimento psíquico que traz consigo. Se ele não puder contar com um adulto plenamente disponível e atento, poderá ter muitas dificuldades para se tornar um ser humano independente e autônomo. Muitas patologias são decorrentes de falhas nesse ambiente primário, representado pela relação dos primeiros anos entre a criança e seu cuidador.

A hora dourada do parto

Já ao nascer o seio pode ter um importante papel organizador na experiência disruptiva do parto. O ambiente intrauterino que supria todas as necessidades do bebê se torna insuficiente e desconfortável culminando com as contrações e o impacto do nascimento. Do interior continente no corpo da mãe para o ambiente externo ele vive uma sensação de vazio e desamparo. Essa vivência aterrorizadora pode ser atenuada se ele encontra a mãe, que o contém em seus braços e a pele quente de um seio que conforta, antes mesmo de alimentá-lo. Uma primeira e fundamental experiência de prazer contrapondo-se ao intenso desprazer. Marcas constitutivas.

Um recurso importante para essa passagem é o clampeamento tardio do cordão umbilical, colocando o bebê sobre o corpo da mãe aguardando até que o cordão pare de pulsar. Além da importante função fisiológica de permitir um maior fluxo sanguíneo rico em ferro, colocá-lo junto ao seio antes da separação concreta do corpo da mãe, permite o reencontro com seu cheiro e voz – reconforto, segurança e contorno para a sensação de fragmentação que está experimentando. O cordão umbilical é substituído por um cordão psíquico com a mãe. Um primeiro grau de simbolização.

Essa vivencia tão significativa e inaugural na qual o seio é apresentado como referência de segurança após uma vivência de desamparo, faz com que a possibilidade de que o bebê estabeleça uma boa relação com o seio seja ampliada. Os pediatras dizem que para o sucesso da amamentação é importante que o bebê mame na sua primeira meia hora de vida, que ficou conhecida como a golden hour.

Nesse encontro inaugural o bebê ainda não tem fome. Mas quando ela vier, uma mãe disponível e atenta vai perceber os sinais de seu incômodo e oferecer o seio antes que ela se torne insuportável. A proximidade da mãe nesses primeiros dias de vida é fundamental. Minimiza as sensações de desconforto que seu ego imaturo não pode sustentar. O desconforto excessivo nessa fase são vivências de terror e marcam seu psiquismo para sempre, dificultando a construção da segurança interna. A mãe precisa garantir continuidade sem episódios de rupturas do conforto, até que ele vá se fortalecendo.

O ‘eu’ no nascimento não tem coesão. A mãe e os cuidados essenciais permitem que haja a sensação de integração que chamamos de “pele psíquica” (Bick, 1968; Barros, 2013). O bebê não percebe a mãe como um outro, ele a vê como uma parte de si e tem a ilusão de que cria o seio quando precisa dele (Winnicott, 1956).  

Livre demanda e continuidade

A mãe atenta aos sinais sutis de desconforto oferece o peito sempre que supõe que o bebê o quer, em livre demanda, em lugar de oferecê-lo dentro de horários pré-estabelecidos e regulares.

Esse é um recurso interessante que fortalece a proximidade mãe-bebê que ainda estão no que se chama de exterogestação[1], termo usado para definir o primeiro trimestre de vida pós-nascimento, no qual a imaturidade do bebê nesses primeiros 100 dias demanda uma atitude que se assemelha à perinatal. O uso do sling[2] reproduz simbolicamente o perfil gestacional e permite que nessa etapa o pai também possa “gestar” o filho ao lado da mãe.

Determinar um horário e um intervalo no primeiro trimestre é impor precocemente uma regulação da presença e ausência do corpo da mãe junto ao bebê. O prazeroso seio oferece mais que conforto. Para o bebê é sustentação vital. Fome, frio, sono, dor ou o que quer que incomode o bebê, encontrar um seio em seu socorro significa criar o mundo, um mundo de satisfação e prazer que ele supõe estar sob seu domínio. Cada bebê é um e a mãe precisa aprender a conhecer os sinais de suas necessidades e se adequar a elas. Nesse primeiro tempo após o encontro do nascimento, olhar para seu filho e conhecê-lo, se apropriar de sua intuição e as sutis formas de comunicação que o bebê transmite com a proximidade fortalece a confiança da mãe. É o estar próximo que ajuda na intimidade e consequentemente favorece o vínculo inicial, tão fundamental para a construção de uma mente saudável.

Porém, tão importante como essa relação fusional e contínua do início de vida é a possibilidade de gradativamente o bebê se separar do corpo materno e substituí-lo por representações simbólicas. Tal condição vem do processo da mãe permitir que o bebê se afaste dela e se interesse pelo mundo, pelas outras pessoas, crie novos vínculos a partir da segurança adquirida com ela, que será seu modelo.

É frequente os pais tomarem a ideia de livre demanda – que cabe muito bem para o primeiro trimestre de vida -, como um modelo de amamentação mesmo para crianças já crescidas. Do ponto de vista psicoemocional essa atitude compromete o desenvolvimento da autonomia na medida em que não há modulação com as novas necessidades. Regular aos poucos as mamadas significa informar à criança que há outras formas de satisfação e acolhimento, o que enriquece a experiência relacional da criança, sobretudo na relação com o pai.

O peito do pai

Mesmo que o bebê no início de vida esteja praticamente colado à sua mãe, é importante ressaltar que sua imaturidade psíquica não discrimina que a mãe é uma outra pessoa. Nessa fase ele só precisa dessa função materna que dá a ele uma espécie de “pele psíquica” que garante sua sensação de integridade. Porém alguns pais supõem que há uma relação da qual ele não apenas é excluído, como não tem nela um lugar porque não têm peito e o bebê só quer mamar. Nem uma coisa nem outra.

O pai não tem o peito de leite, mas tem o importante peito simbólico de nutrir a mãe de cuidados para que ela possa se sentir confortável e acolhida em suas próprias necessidades. É extremamente exaustivo para a mãe ficar nesse lugar fusional do início e essencial que ela possa receber apoio do pai ou alguém que possa ficar nessa função de sustentação da mãe, para que ela sustente o bebê. Ter um tempo para si, tomar um banho demorado e se desligar por um tempinho das necessidades do bebê é essencial para a produção e descida do leite que é mais plena se a mulher está descansada e emocionalmente estável. O stress e cansaço desencadeiam o tão temido leite escasso.

O peito do pai, portanto é que dá condições para uma amamentação satisfatória que consequentemente acalma o bebê e permite maior período de sono e bem-estar a todos.

Mesmo junto ao bebê o pai com seu peito paterno tem lugar. Durante a noite, após a mamada que satisfaz a fome, o pai pode oferecer ao bebê seu embalo e calor, aprendendo ao lado da mãe sobre suas necessidades e preferências.

Com frequência alguns homens não sabem o que fazer ante a exaustão materna. “Eu não tenho peito” é um argumento comum que os afasta e traz para a mulher o sentimento de solidão e sobrecarga que muitas vezes leva à conflitos entre o casal. A amamentação pode tornar-se um fardo para a mulher, pela sensação de aprisionamento. A aparente resignação de que o pai precisa dormir para trabalhar e ela própria está em licença e “não tem que trabalhar no dia seguinte” é falsa e pode tornar fonte de ressentimento. O trabalho de um bebê exige não somente os cuidados de higiene e nutrição, mas demanda uma entrega afetiva significativa, que exige plenas condições emocionais de seus cuidadores.

E se nesse período o peito do pai é uma referência, no processo de desmame vai ajudar na passagem do peito da mãe ao peito do pai, ajudando na consolidação da simbolização.

Tudo isso depende da convicção de todos sobre os vários lugares que cada um ocupa nessa engrenagem, sem que haja uma qualificação entre eles. Pais articulados dessa forma constroem também entre si um fortalecimento da relação de parceria nesses novos papeis identitários que o nascimento de um filho impõe ao homem e a mulher.

Desmame, separação e luto: um aprendizado fundamental 

Com certa frequência recebo famílias que pedem ajuda para um desmame gentil. Intrigada com o termo ‘gentil’ aos poucos compreendi que havia um pedido implícito para que pudessem evitar os muitos afetos próprios de um desmame, como a dor e o luto da despedida, o medo do novo, a hesitação em seguir no desconhecido, além do reconhecimento de sinais da agressividade do bebê que se rebela, cujas vivências são essenciais a um desenvolvimento saudável (Klein, 1936).

Ser gentil não significa não frustrar. Não há como evitar as dores saudáveis da vida, que são constitutivas do indivíduo, base de sua saúde mental. E é o gradativo contato com esses afetos que ajudam a criar recursos para lidar com eles. O desmame é um dos momentos importantes que marca o aprendizado de lidar com o luto. Falhas nessa capacidade levam o indivíduo ao aprisionamento nos processos de perda que não se conclui, o que chamamos de melancolia e depressão.

Para Freud (1915/17), a incapacidade de se entristecer e se enlutar pelas perdas, faz com que o indivíduo não consiga elaborá-las, mantendo-se num contínuo estado de melancolia. A depressão como doença tem suas raízes na melancolia e impede que haja a elaboração normal para sua superação.

É preciso lembrar que as etapas mais significativas da vida – nascimento, desmame, adolescência, maternidade/paternidade – incluem algum tipo de dor e desconforto que são derivados do luto pelo que se deixa para trás somado às inquietações sobre o desconhecido do que virá. Porém, se a tristeza é inerente a essas passagens, é importante conseguir manter certa dose de curiosidade e estímulo para o que se ganha no lugar. No desmame a perda do seio concreto e da sensorialidade do corpo da mãe colado ao do filho, existe a conquista por novas competências, autonomias, descobertas. Considerar que não há só perdas permite que as dores das passagens sejam proporcionais às capacidades do indivíduo em lidar com elas. 

O desmame é apresentado e mediado pelos pais. A criança não pode ter o peso da decisão de se auto desmamar. Pais atentos podem manejar o ritmo desse processo. E a criança precisa poder viver e expressar raiva. Uma das importantes aquisições psíquicas do indivíduo vem da possibilidade de construir com os pais uma relação segura, fruto da constatação de que os pais podem sobreviver aos seus ataques e continuar a amá-los. Impor limites e tolerar a reação de frustração e ódio é um dos desafios parentais que contribui para a construção de um vínculo genuíno, que será modelo para as demais relações de sua vida (Klein, 1952).

O desmame é o declínio natural de um período de amamentação bem-sucedida que se faz em etapas (Winnicott, 1964,1990). No primeiro trimestre de vida o bebê precisa da mãe muito perto e poder mamar quando quiser, dia e noite. No segundo trimestre ele começa a perceber algo além de si mesmo e que a mãe não é parte dele. Poderá começar a absorver pequenas regulações que incluem a discriminação entre o ritmo noturno e diurno. Aos seis meses a introdução dos novos alimentos inaugura a criança num mundo compartilhado e sua sobrevivência não vem mais do corpo materno, representando a entrada num grupo social (Winnicott, 1965).

Se a mãe estiver sintonizada com o bebê, vai percebendo os sinais de prontidão que o bebê comunica ao longo desse percurso e gradativamente diminui a frequência das mamadas sem ceder aos protestos. Afinal, mesmo estando pronta, a criança hesita em abandonar o lugar já conhecido e confortável para o que não conhece. Soma-se a isso o sentimento de luto materno pela perda de “seu bebê”. Porém essa dor pode ser amenizada pelo prazer de ver o filho crescer e se tornar independente. São as dores saudáveis da vida.

O pai ou seu substituto é um importante aliado nesse percurso. É quem pode ajudar a fazer esse novo “clampeamento simbólico” da separação dos corpos mãe-bebê convocando o filho para o peito do pai, marcando o simbólico e o édipo, nuclear na saúde mental. E sempre haverá o cordão psíquico imaginário, que a criança levará dentro de si para sua vida.

Nesse percurso o peito gradativamente passa de corporal para simbólico. as marcas vividas em nível sensorial vão adquirindo representação e podem ser substituídas por recurso imaginário. O peito se torna seio. Mas para isso é fundamental que haja uma significativa experiência sensorial e afetiva que o atual bebê leve para toda sua vida, para que o peito se transforme no símbolo da capacidade de amar. 

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Referências 

Barros, I.G. (2013) Primórdios da estruturação psíquica como se apresentam na clínica. Revbista de Psicanálise de Ribeirão Preto – Bergasse 19; vol IV nº 1, 2013.

Bick, E. (1968) A experiência de pele em relações arcaicas. In: Melanie Klein Hoje. Rio de Janeiro: Imago, volume I, 1991.

Freud, S. (1911) Formulações sobre os dois princípios do funcionamento mental In: Obras completas vol.18. São Paulo: Companhia das Letras; 2010.

Freud, S. (1915/1917) Luto e melancolia. In: Obras completas vol 12. São Paulo: Companhia das Letras; 2010.

Klein, M. (1930) A importância da formação de símbolos no desenvolvimento do ego In Amor, Culpa e Reparação e outros trabalhos. Rio de Janeiro: Imago. 1967.

Klein, M. (1936) O desmame In Amor, Culpa e Reparação e outros trabalhos. Rio de Janeiro: Imago. 1967.

Klein, M. (1952) Algumas conclusões teóricas sobre a vida emocional do bebê In Inveja e Gratidão e outros trabalhos. Rio de Janeiro: Imago. 1975.

Winnicott D.W. (1949) O psicossoma e a mente. Natureza humana. Rio de Janeiro: Imago; 1990.

Winnicott, D.W. (1954) O desmame. In A criança e seu mundo. Rio de Janeiro: Editora Guanabara Koogan. 1982.

Winnicott D.W. (1965) Desenvolvimento emocional primitivo In: Da Pediatria à Psicanálise. Rio de Janeiro: Imago; 2000.

Winnicott, DW. (1968) A amamentação como forma de comunicação In Os bebês e suas mães. São Paulo: Martins Fontes. 1994.

 

[1] Matéria Exterogestação (clique aqui

[2] Faixa de tecido macio usado para amarrar o bebê junto ao corpo da mãe ou pai, para que ele se conforte com o calor e o cheiro familiar.

Denise de Sousa Feliciano é psicanalista, membro da SBPSP e da IPA. Doutora em Psicologia pela USP-SP. Coordenadora do Curso Relação Pais-Bebê: Da Observação à Intervenção, do Sedes Sapientiae. Presidente do Departamento de Saúde Mental SPSP. Especialista em Psicopatologia do bebê, pela Paris XIII. Membro da Associação Lationoamericana de Observadores de Bebê (ALOBB) e da Clínica 0 a 3 da SBPSP. denisefeliciano@uol.com.br 

Imagem: Primeiros Passos (depois de Millet). Van Gogh, 1890. (Wikimedia Commons

“As opiniões dos textos publicados no Blog da SBPSP são de responsabilidade exclusiva dos autores.” 



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