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Entre vários olhares: autismo, cinema e psicanálise compartilham “mundos interiores”

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“Em um mundo interior”, filme de Mariana Pamplona e Flavio Frederico, será debatido em roda de conversa na SBPSP, no próximo dia 27/03, antecedendo eventos científicos em torno do Dia Internacional do Autismo.  O debate será atividade preparatória para a VI Jornada de Autismo e V Jornada da Clínica 0 a 3 da SBPSP.  Ao longo de vários anos, temos nos integrado a outras instituições e profissionais para refletir sobre esse tema, a partir de grupos internos que se dedicam ao trabalho clínico psicanalítico com o autismo.

O filme apresenta o universo cotidiano e singular de sete famílias e seus filhos com autismo. Somos convidados, em trechos delicadamente articulados, a participar da diversidade de seu cotidiano doméstico, vida compartilhada no social e acompanhamento com especialistas de várias áreas profissionais. Adentramos assim o mundo interior de cada criança e suas ligações significativas. Cada família nos permite entrada em seus desafios, entraves, sofrimentos e conquistas. Cada criança, em sua idade, com suas próprias competências e necessidades, mostra diferentes facetas desta condição particular. Desde crianças pequenas, em que o próprio corpo e seus movimentos já anunciam sutilmente dificuldades de integração, demandando abordagem transdisciplinar, até jovens com autismo preparando-se para situações de autonomia, como viagens e compartilhamento de atividades sociais com outros jovens.

O autismo sempre desafiou nossa compreensão sendo uma condição em que justamente o que nos torna mais humanos, o contato com o outro, está vulnerável, em suspensão, ou se desenvolve de maneira mediada por estratégias autocentradas e com predominância da sensorialidade.

Desde bebê, na relação com nossos cuidadores, vamos integrando aos poucos as maneiras como percebemos as coisas com nossos vários sentidos, o que olhamos tem um cheiro, uma textura, um gosto, uma forma, um nome, uma função e pode se conectar a outras experiências e situações criando uma rede cada vez mais ampla em que os vínculos com as pessoas significativas à nossa volta são os organizadores centrais. Esses percursos ocorrem ao nível corporal-sensorial, relacional e neuronal, de forma intrinsecamente integrada.

Para uma pessoa com autismo, em seus vários graus, os maiores interesses não se centram nas relações afetivas e nos aspectos sociais da experiência. Sensações e conhecimentos podem ser vivenciados de maneira isolada, intensa, sem a integração usualmente construída nestas experiências vinculares e sem mediação espontânea pelo significado compartilhado que isto possa ter para si e para outros no contexto social. O bem-estar pode decorrer de ações de descarga motora ou repetições autoestimulatórias que buscam criar um senso de equilíbrio interno frente ao que parece muitas vezes ser sentido como intolerável sobrecarga.

No autismo, em seus vários graus (agrupados na linguagem classificatória psiquiátrica internacional como TEA, Transtorno do Espectro do Autismo, e assim largamente difundidos na mídia) ocorrem dificuldades relacionadas à capacidade de estabelecer vínculos, desenvolver linguagem comunicativa e é comum a manifestação de estereotipias (repetições gestuais ou verbais).

Diferente da maneira aprofundada e multidimensional pela qual o autismo é retratado no filme a ser debatido, muitas vezes o autismo aparece retratado como uma condição especialmente mágica e atraente, que não corresponde às dificuldades e ao sofrimento enfrentado no dia a dia pelas famílias que convivem com esta questão. Condição intrigante para os que vivem e trabalham com ela, envolve aspectos cognitivos e ilhas de habilidades e sensibilidade exacerbada que podem se manter muito ativas em detrimento de um equilíbrio e utilização compartilhada para fins de comunicação e sentido social comum contextualizado. Apesar dos muitos avanços em pesquisas e no trabalho clínico terapêutico com o autismo, apontando para aspectos multifatoriais na gênese e nos cuidados terapêuticos necessários, que tem felizmente se iniciado cada vez mais cedo para pais e crianças (muitas vezes ainda bebês), há muito ainda por se conhecer e se disseminar junto à comunidade e profissionais quanto à detecção e tratamento.

Mesmo considerando-se o autismo como forma própria de ser e maneira singular de expressão do sujeito, acompanhamos em nossa experiência clínica o sofrimento psíquico de pais, famílias e indivíduos com autismo em que a dificuldade de contato traz aflições, angústia e ansiedades no convívio. Nesse sentido podemos falar em tratamento como abordagem terapêutica para favorecer a integração psíquica e social do indivíduo e a qualidade de vida emocional do grupo que convive com tais dificuldades.

A psicanálise tem se dedicado a demonstrar seu alcance no trabalho com os estados autísticos, desde a prática com os atendimentos pais-bebês, quando ocorrem preocupações com algo que não vai bem no desenvolvimento. Sinais de alerta desde os primeiros meses demandam acolhimento para os cuidadores, para a relação e para o bebê. A partir do vínculo terapêutico com indivíduos com dificuldades autísticas, psicanalistas se dedicam a acompanhar a constituição da possibilidade de atribuir sentido à experiência de maneira que esta possa ser incorporada à vivência cotidiana, favorecendo a possibilidade de aprender, brincar, imaginar, se comunicar e compartilhar ideias e emoções. Importante ressaltar a parceria do psicanalista com o sofrimento familiar, incluindo maneiras de acompanhar os pais também ao longo do tratamento. Também temos desenvolvido a pesquisa clínica e a interface com outras áreas do conhecimento em desenvolvimento e saúde.   

O tema do autismo e a experiência clínica decorrente do contato psicanalítico com os estados autísticos, muito nos ensina e nos instrumentaliza para explorar os estados arcaicos e primitivos da mente, presentes no “mundo interior” de todos nós e intensificados em momentos de ameaças à subjetividade e de dificuldades para aceitar a alteridade do que é diferente.   

O filme tem duração de 1h15 e pode ser visto nos canais GNT, NOW, Amazon Prime Vídeo e Globo.com. No Canal Futura pode também ser acompanhada a série de mesmo nome que apresenta cada criança retratada no filme de maneira expandida, e igualmente sensível, em episódios independentes. Vale a pena o mergulho neste “mundo interior”, do filme, do autismo, das famílias, da psicanálise entre outras abordagens. No debate, compartilharemos vários olhares com os diretores da obra, pais, profissionais de diversas áreas e público participante. Bem-vindos à nossa roda de conversa! 

 

Mariângela Mendes de Almeida é membro filiado ao Instituto de Psicanálise da SBPSP, coordenadora do Núcleo de Atendimento a Pais-Bebês – Pediatria/UNIFESP; representando a Comissão Organizadora da VI Jornada de Autismo e V Jornada da Clínica 0 a 3 da SBPSP e o Grupo Prisma de Psicanálise e Autismo (Alicia Lisondo, Fátima Batistelli, Maria Cecília Pereira da Silva, Maria Lúcia Amorim, Maria Thereza França, Mariângela M.A., Marisa Leite Monteiro e Elisabeth Coimbra).



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