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Decifra-me, ou te devoro

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Os encontros com Roussillon sempre aguçam a curiosidade e o interesse dos seus ouvintes e não foi diferente em sua última conferência, em maio deste ano, na SBPSP. Roussillon consegue cativar, pois suas palestras são calorosamente intimistas; além do que, consegue compartilhar ideias densas e consistentes sobre a psicanálise e sua clínica de uma maneira clara e despretensiosa. Acredito que essa impressão a respeito de suas conferências e seu trabalho estejam alicerçados na ideia de que a psicanálise não é exclusivamente um “dispositivo”, mas principalmente a disposição interna do analista para ouvir, de uma maneira diferenciada, quem o procura.

Roussillon tem a experiência de uma quinzena de anos com grupos de supervisão de analistas muito bem formados, mas que trabalham, face a face, com pacientes difíceis. Pacientes que ultrapassam a demanda neurótica e que exigem do analista um trabalho que vai além do realizado dentro do padrão standard; normalmente apresentando situações adversas, que fazem com que o analista questione sua clínica e sua prática. O que se constatou durante esse período foi que todos eram bons analistas, mas, quando estavam sozinhos, muitas vezes, não conseguiam fazer a análise avançar. Ao repensarem, principalmente as questões da transferência, foi possível desbloquear situações que impediam o avanço do tratamento. O grupo de supervisão, que muitas vezes era utilizado para reflexão e elaboração da clínica, serviu também como grupo de pesquisa em busca de uma resposta sempre presente entre os analistas: “como podemos criar um modelo de trabalho com estes pacientes? ”

O trabalho fundamental do analista é tentar formar pontes com aquilo que foi renegado, deslocado ou transferido pelo paciente, restabelecendo ligações através da escuta das associações; mas Roussillon nos encaminha para situações que vão além do padrão standard, incluindo no processo as associações livres não verbais – que revelam a linguagem do afeto e do ato e que datam do início do desenvolvimento do sujeito, antes mesmo do uso da palavra. Desta forma, tenta-se resgatar e dar sentido às linguagens do corpo que não conseguiram ser transferidas ao verbal. Isto nos leva a pensar, dentro de uma conjuntura histórica do paciente, que não houve a possibilidade de que alguém respondesse potencialmente a essas demandas, mobilizando o processo analítico, através de associações ineficientes e vazias.

Daí a importância dessas mensagens serem captadas e metabolizadas pelo analista, resultando em um trabalho de colocação de sentido e de interpretação tanto para o analista, como também para o analisando. Esse trabalho artesanal, “sob medida”, exige uma importante atitude interna do analista – o pensar. Pensar sobre o trabalho psíquico como trabalho de integração criativa, de transformação e não somente de duplicação.

Não sou eu quem sabe é o paciente que sabe. Ele não sabe que sabe e eu, escutando, posso tentar ajudá-lo a formular o que ele sabe, sem saber que sabe. ” (Roussillon).

Martha Quintero menciona que vê com otimismo as discussões que felizmente não mais se estabelecem se os pacientes são analisáveis ou não, mas em pensar no que devemos fazer para que possamos analisá-los e, principalmente, para que o processo tenha sentido para eles. Há um vasto campo analítico com pacientes que precisam da nossa contribuição para erguer um aparelho psíquico volumoso e uma reflexão constante para que a técnica seja viva e responda às necessidades impostas pela clínica.

 

Rita Andréa Alcântara de Mello é psicanalista pelo Instituto Sedes Sapientiae e membro associado da SBPSP.

Arte: Portrait de Femme – Pablo Picasso, 1945 



Comentários

One reply on “Decifra-me, ou te devoro”

MUNIRA MUSTAFA BAZZI AKROUCHE disse:

Rita, agradeço pela publicação! O pensamento de Roussillon, contribui para o avanço da psicanálise contemporânea!!

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