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As faces da Inveja

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Uma fada aparece a um invejoso e diz que pode conceder a ele tudo o que quiser, com a condição de que seu vizinho ganharia o dobro do que o invejoso desejasse. Ao saber disso, o homem pede à fada que lhe arranque um olho.

É com o exemplo dessa fábula que a psicanalista Melanie Klein desenrola seu livro “Inveja e Gratidão”, publicado em 1974, e que explica bem o comportamento e mentalidade do invejoso.

Presente nos livros sagrados, na mitologia e retratada na história desde as épocas mais remotas, a inveja é um sentimento inerente ao homem. Invejar é sentir raiva quando alguém tem algo que você gostaria de ter e, mais do que isso, querer que essa pessoa se dê mal. Você já deve ter ouvido falar em “olho-gordo”, “seca-pimenteira” ou “mau-olhado”. São termos folclóricos que se referem à inveja: o poder de levar má sorte àquele que possui algo que é objeto de desejo.

Esse é um sentimento que, em maior ou menor intensidade, todos sentimos. Isso não quer dizer que toda pessoa seja invejosa. Mas existem indivíduos que sentem a inveja de uma forma tão intensa que chega a ser tóxica e precisa de tratamento. Em muitos casos, essa pessoa sofre do transtorno de personalidade narcisista, uma condição mental em que ela superestima a sua importância, colocando-se acima das demais, sem empatia e com a necessidade de atenção, admiração e reconhecimento exagerada, o tempo todo.
         

A diferença entre inveja, cobiça e ciúme

É comum as pessoas confundirem inveja com cobiça ou ciúme. Embora se pareçam, são sentimentos distintos. Ciúme é o medo de perder algo que o indivíduo acredita ser só seu —um bem material, um melhor amigo ou amiga, um familiar, um parceiro ou parceira etc. O ciumento se sente inseguro ou ameaçado em perder a outra pessoa da relação ou seu objeto, gerando um sentimento exacerbado de posse.

Já a cobiça é querer algo que o outro tenha. Pode ser um carro ou uma casa, por exemplo, ou um corte de cabelo, uma roupa ou até mesmo condutas pessoais. Mas sem desejar mal ao outro indivíduo.

A inveja, como explicado, é um sentimento de ódio ou pesar provocado pelo bem-estar ou prosperidade de outrem, além de um desejo muito forte de desfrutar algum bem possuído ou desfrutado por outra pessoa.

Esses três sentimentos são comuns a todos nós. Porém, a inveja é o único que não tem nada de positivo, pois o invejoso quer destruir o que o outro tem, fica feliz com a infelicidade do outro.

                          

Por que sentimos inveja?

Segundo a psicanálise, a inveja é um afeto que indica que uma parcela muito significativa de nós mesmos se forma a partir de identificações com os outros, por meio de processos de alienação.

Desde muito cedo conquistamos um sentimento de “ser si mesmo”, devido ao “investimento” que fazemos em pessoas que despertam o nosso interesse, e nos sentimos vivos a partir das experiências que vivemos, ao recebermos o reconhecimento dessas pessoas.

Em um sentido muito radical, ser “eu” só é possível a partir de outros, ou seja, é por meio da observação do outro que o indivíduo percebe a si mesmo. A inveja, assim compreendida, é uma forma de laço social muito primária (ou primordial), segundo a qual o desejo pelo outro, pelo reconhecimento do outro e pela satisfação pessoal se confunde com a nossa própria identidade.

Na inveja, querer para si e querer para alguém nos remete novamente a essa confusão fundamental entre os limites de nossa identidade e suas origens na alteridade.

A inveja segundo…

MELANIE KLEIN

Para a psicanalista, a inveja está presente na organização e no desenvolvimento psíquico desde os primeiros dias de vida de uma criança. Nesse caso, primordialmente, o sentimento é dirigido ao seio materno, objeto ora tomado como objeto bom (que nutre, suporta e o acolhe), ora como mau, que é quando a criança sente a sua ausência. É nessa falta, no querer e não ter o peito da mãe, que surge a inveja e a criança experimenta a angústia e a agressividade em sua forma mais destrutiva. Essa dualidade faz com que a criança assegure e preserve a existência do objeto bom e volte a sua agressividade para o objeto mau. Quando por algum motivo essa divisão não é possível, a criança terá dificuldades de proteger ou preservar o objeto bom dos ataques do objeto mau.

 
JACQUES LACAN

Para ele, a inveja é um afeto, com tudo o que isso significa em sua teoria, ou seja, um circuito que forma um laço social próprio à lógica do “eu” e do “outro”. Seu aspecto real é fruto da inexistência de uma relação pré-definida com o outro (relações mãe-filho, por exemplo). Entendida em seu aspecto imaginário, a inveja seria um afeto que tenta nos assegurar da relação com outro, tentando transpor essa falta com uma tentativa de ancorar no outro o nosso “eu”, a partir de projeções e introjeções próprias à constituição do “eu”: vejo no outro algo que se torna “eu”, reconheço em mim algo que é proveniente do outro. A inveja seria uma certa fratura nesse processo, no qual a divisão é colocada em questão, sem que um “eu” consiga delimitar seus limites com precisão.


ARISTÓTELES

Em sua obra Retórica, o filósofo grego, na parte II dedicada às paixões, procurou demonstrar quais seriam os meios que emergem e cessam tais afetos e de que forma a inveja surge. Para o pensador, as pessoas sentem inveja, geralmente, de quem é igual ou parecido consigo, mas que eventualmente adquire vantagens que o sujeito julgava somente a si pertencer. Os invejosos seriam todos aqueles que possuem quase tudo o que desejam, mas que por sua ambição jamais se bastam, incomodando-se com todos a sua volta. Aristóteles pontua que sentimos inveja de quem por mais variados motivos rivalizamos. Para ele, as pessoas que buscam honra são mais invejosas do que as demais, pois reclamam uma glória que só pertence supostamente a si. Os sábios (ou os que tentam se passar por um) também estão sujeitos à inveja pela soberba ambição de quererem uma constante reputação que a sabedoria daria. Por fim, a inveja ataca em igual medida o também medíocre, mesquinho, pois no seu nivelamento baixo não admite algo ou alguém acima.

 
SOREN KIERKEGAARD

Para o filósofo dinamarquês, a inveja transpõe a mera condição de sentimento negativo. Antes, ela atua como um princípio regulador, que tem a propriedade de estimular não somente um já conhecido afeto de ressentimento e hostilidade entre os homens, mas também o de aprisioná-lo numa negatividade absoluta. Em outros termos, a inveja atua como uma forma de balizar ações e pensamentos dos indivíduos, mantendo-os reféns de uma rede de inflexões paralisantes: a inveja retarda ao mesmo passo que invalida uma decisão, enfraquecendo a vontade e mantendo o homem sob seu cativeiro de inércia. Na filosofia, são diversas escolas e pensadores que a representam. De acordo com o filósofo inglês Bertrand Russell, a inveja teria uma potência para além de sua carga negativa, inoportuna e geradora de infelicidade: ela também seria um tipo de força motriz por trás das economias e de sistemas políticos.
                                      

Inveja dói, literalmente

Um estudo publicado por pesquisadores japoneses conclui que a inveja é processada no cérebro na mesma área em que a dor física.

Por meio de ressonância magnética, os cientistas conduziram um grupo de estudantes a imaginarem algumas situações. Em um primeiro cenário, os estudantes eram comparados com pessoas de perfis semelhantes, mas que estavam sempre se dando melhor (eram mais bonitas, namoravam o par mais cobiçado, eram mais ricas). As ressonâncias mostraram que existe um gradiente de ativação da região do cíngulo, área do cérebro ativada quando existe a rejeição e a dor física.

Posteriormente, os estudantes tinham de imaginar que os planos das pessoas comparadas e que tinham sempre mais começavam a dar errado: elas perdiam o emprego, terminavam a relação. Os pesquisadores perceberam que, no cérebro dos analisados, em vez de ativar o cíngulo, era ativada a área do bem-estar e satisfação.

Na psicanálise, a felicidade em ver o outro se dar mal é chamada de “schadenfreude”, palavra alemã que significa “schaden” (dano, prejuízo) e “freude” (alegria, prazer): a alegria com a desgraça alheia ou o gosto pelo desgosto.

Uma constatação importante deste estudo é que nosso cérebro tem uma anatomia bem clara representando os nossos sentimentos. A inveja é um sentimento que se associa a um conjunto de outros sentimentos como orgulho, ciúme e paixão, que mobilizam o nosso organismo e mexem com a nossa homeostase (equilíbrio interno).
                                                  
Existe inveja “do bem”?

Você já deve ter dito ou ao menos ouvido alguém falar que sente inveja “boa”. Nesse caso, as pessoas se referem ao desejo de querer algo que o outro tem, mas sem desejar mal a essa pessoa. Como já dissemos, isso é cobiça. A inveja, caracterizada pela alegria ou prazer com a desgraça alheia, nunca é um sentimento bom.

Essa invenção de duas categorias de inveja —boa e má— é fruto da necessidade de se antecipar e se defender de possíveis julgamentos ou críticas moralistas ou moralizantes. Se a inveja que eu sinto é boa, eu não posso ser julgado e condenado nem por mim mesmo, nem pelos outros.

A inveja não é um pecado, uma doença ou um distúrbio de caráter. É um sentimento que faz parte de uma configuração psíquica complexa. Utilizar a moral para analisar sentimentos ou emoções dificulta o contato com o psiquismo e prejudica a viagem pela profundidade e complexidade do nosso mundo interno, e assim perdemos a possibilidade de mapear nossas fragilidades e limitações. Com isso, fica difícil vislumbrar nosso potencial tanto criativo como destrutivo —ou autodestrutivo. Ou seja, o procedimento de avaliação moral nos afasta da verdade sobre nós mesmos.

É importante diferenciarmos inveja de admiração. É possível admirar uma pessoa por suas competências, seu caráter, sua condição material, cultural e psíquica sem necessariamente invejá-la. Mas não é possível invejar uma pessoa que não se admira.

Redes sociais, um gatilho para a inveja

Ver postagens com vídeos e fotos de viagens, momentos de lazer ou em família, conquistas profissionais e em outras áreas estimula nossos desejos e pode levar à comparação entre nós (eu) e eles (outro, ou seja, quem seguimos nas redes sociais).

Em termos clínicos, a inveja é um sentimento ligado à raiva e ao ódio, o que você “tem” (subjetivamente ou objetivamente) não serve, enquanto aquilo que o outro “detém” (amigos, dinheiro, viagens, lazer, poder etc.) é almejado/desejado pelo “seu eu”. Então, o ódio é dirigido para aquele que tem algo e não para o “seu eu”. Dessa forma, preserva seu psiquismo de uma espécie de esvaziamento e do ódio contra si próprio.

Não há como mensurar se estamos mais invejosos devido às redes sociais, mas é possível afirmar que elas aguçam nossa sensorialidade — o desejo por prazer, por desfrutar de momentos supostamente felizes, por viagens, pratos, roupas, carros, objetos, conquistas no treino…
                                   
Lide com a inveja (sua e dos outros)

Algumas pessoas costumam dizer que a dor não é uma boa conselheira, mas uma boa guia. É a profunda dor causada por sentimentos de desamor, inferioridade, incapacidade, desvalimento e desamparo que está por trás da inveja. A ira e os ataques para rebaixar o outro são formas que o invejoso encontra de aplacar sua dor. O invejoso não se percebe invejoso e atira no outro para resolver um problema seu, enredado em um círculo vicioso. Confira as dicas dos especialistas para lidar com este sentimento:

1- RECONHEÇA QUE A INVEJA ESTÁ POR TODOS OS LADOS
Saber que o sentimento faz parte da mente e do comportamento humano é importante para conseguir lidar com ele e, principalmente, reconhecê-lo em nós mesmos.

2- ACEITE A DOR
O autoconhecimento é um caminho para lidar com a nossa própria inveja. Mas, além de se conhecer, é preciso desenvolver a tolerância para podermos sofrer a dor de sermos quem nós somos. Assim, abre-se um caminho de transformação, de mudança de um círculo vicioso para outro, virtuoso.

3- GUARDE PARA SI
Se a pessoa puder entrar em contato com esta parte sombria de sua personalidade, a capacidade amorosa escondida por trás desses sentimentos pode emergir. O indivíduo pode sentir a dor da inveja, mas guarda para si: tolera a dor, já que ela faz parte da vida humana.

4- NÃO TEM COMO MUDAR O OUTRO
Obviamente, não está ao nosso alcance mudar a inveja do outro. No entanto, podemos reconhecer o comportamento invejoso e nos proteger.

5- TENHA CONSCIÊNCIA DO SENTIMENTO DO OUTRO
Saber que o invejoso vai tentar apagar nosso brilho, abafar nossa criatividade, desprezar nossas conquistas ou mesmo tentar nos despertar inveja, desfilando em grande estilo suas conquistas e aquisições, nos permite cuidar e não entrar nesta dinâmica destrutiva.

6- FAÇA TERAPIA
Convivência e proximidade com pessoas muito invejosas, principalmente quando estas são figuras de autoridade, pode ser muito danoso para a saúde mental. Os ataques invejosos podem ser internalizados e destruir a autoestima, corroer o amor próprio, causar insegurança, medo, agressividade contra si mesmo e até depressão. A psicoterapia é uma ferramenta que pode ajudar a lidar com esses sentimentos gerados pela inveja.

Publicado em 13 de janeiro de 2022 em VivaBem UOL

Reportagem:
 Diego Garcia | Edição: Gabriela Ingrid | Design: Mathias Pape
Fontes: Adriana Chaves Borges Hautekeuer, psicóloga, psicanalista membro da SBPSP (Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo), mestre e doutora em psicologia clínica pela USP (Universidade de São Paulo); Ana Patrícia Rosa Ribeiro, psicóloga e psicanalista da SBPSP; André Luis Fernandes Palmini, médico neurologista e professor titular de neurologia do Núcleo de Neurociências, da Escola de Medicina e do Programa de Pós-Graduação em Medicina e Ciências da Saúde da PUC-RS (Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul), chefe do Serviço de Neurologia e diretor clínico do Programa de Cirurgia da Epilepsia do Hospital São Lucas e pesquisador do Instituto do Cérebro – InsCer da PUC-RS; Diego A. Moraes Carvalho, filósofo, historiador, psicanalista e professor efetivo do IFG (Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Goiás), doutor e mestre pela UFG (Universidade Federal de Goiás); Eduardo Name Risk, psicólogo, professor adjunto do Departamento de Psicologia da UFSCar (Universidade Federal de São Carlos); Sylvio Ferreira, psicólogo e professor do Departamento de Psicologia da UFPE (Universidade Federal de Pernambuco); Tiago Ravanello, psicólogo, psicanalista e professor da UFMS (Universidade Federal do Mato Grosso do Sul).



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