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Algumas notas sobre a trajetória de Virgínia Leone Bicudo

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Foi uma experiência gratificante participar da entrevista ao jornal Folha de S.Paulo (edição de 19 de julho de 2021) sobre Virgínia Leone Bicudo, figura emblemática da SBPSP. Socióloga e psicanalista, ela teve o mérito e o privilégio de compor o grupo embrionário de fundação da nossa Sociedade, formado em torno do psicanalista Durval B. Marcondes e inicialmente dedicado ao estudo e à divulgação da psicanálise.

Nascida em 1910 na cidade de São Paulo, filha de Giovanna Leone, imigrante italiana, e de Theofilo Bicudo, descendente de escravos negros, Virgínia carrega no sobrenome a história de sua herança familiar. Seus pais se conheceram numa fazenda de café na região de Campinas, propriedade do coronel Bento Augusto de Almeida Bicudo, para quem os dois trabalhavam como “empregados de dentro”.

O pai de Virgínia, escravo livre, recebeu de Bento Bicudo não só o sobrenome, mas também incentivo para os estudos e para uma colocação numa agência dos Correios. Homem inteligente e esforçado, que sempre buscou progredir, Theofilo estimulou os filhos a estudar, sobretudo por ter sofrido as agruras do preconceito racial. Ao não conseguir entrar no tão almejado curso de medicina, escutou do professor que o reprovou: “Negro não pode ser médico”.

Também Virgínia, desde cedo, teve contato com o preconceito racial, sofreu ofensas e intimidações das colegas de escola, porém as palavras “Negrinha, negrinha!” que ouvia constantemente não a derrubaram. Incansável batalhadora, prosseguiu seus estudos com perseverança e disposição. Depois de haver cursado a Escola Normal Caetano de Campos, formou-se educadora sanitária. Junto com sua grande amiga, Lygia Alcantara do Amaral, prestou serviços de assistência educacional, sanitária e médica às crianças e suas famílias, ligada à Cruzada Pró-Infância, no cenário da Revolução Constitucionalista de 1932.

Seu interesse por questões sociais ganhou corpo ao ingressar na Escola Livre de Sociologia e Política de São Paulo, ligada à USP, onde foi a única mulher de sua turma. Em entrevista dada ao prof. dr. Marcos Chor Maio em 25 de agosto de 1995, Virgínia conta ter optado por sociologia por acreditar que através de seu estudo poderia ao mesmo tempo compreender melhor as questões raciais e se proteger, uma vez que eram questões próprias do ambiente sociocultural.
                 

Em 1945, sua tese de mestrado, “Atitudes raciais de pretos e mulatos em São Paulo”, foi a primeira dissertação sobre questões raciais no Brasil.

Em 1949, compôs a equipe do projeto Unesco-Anhembi sobre relações inter-raciais no Brasil, publicando o estudo “As atitudes raciais na vida escolar”, que trazia uma rica investigação sobre os aspectos psicossociais do preconceito racial.

Pode-se dizer que a produção científica de Virgínia resultou de um casamento entre sociologia, antropologia e psicologia social. Tudo leva a crer que ela soube se valer de sua preciosa bagagem acadêmica e de vida para se tornar psicanalista. Na minha leitura, levanto a hipótese de que a escrita foi uma das alternativas que Virgínia encontrou para elaborar seus sofrimentos de natureza psíquica.

Na comovente entrevista que deu a colegas da SBPSP em 29 de setembro de 1989,  ela conta que seu interesse pela psicanálise foi despertado no dia em que, no curso de sociologia, deparou-se com um artigo de Freud sobre o processo de sublimação: “Percebi que o problema que estava me causando sofrimento era de dentro para fora e não de fora para dentro. Não é sociologia que tenho que fazer, e sim psicanálise”. A partir dessa profunda percepção, sua trajetória pessoal e profissional foi marcada por uma busca incansável pelo desenvolvimento de ideias psicanalíticas.

O encontro com o médico Durval B. Marcondes, ocorrido quando cursava sociologia, representou um dos pontos de virada de seu caminho rumo à psicanálise, resultando em uma parceria longa e profícua. Em 1940, Virgínia e Durval assumiram a cadeira de psicanálise e higiene mental na Escola Livre de Sociologia e Política. A disciplina se voltava para o contexto familiar e educacional, enfatizando os cuidados preventivos relacionados à saúde psicológica das crianças.

Durval, amante da cultura e das artes, apaixonado pela psicanálise, mantinha contato próximo com escritores, artistas e poetas do Movimento de Arte Moderna de 1922, manancial de cultura que encontrou na psicanálise um promissor habitat. Tanto Durval como Virgínia defendiam a ideia que o vir a ser psicanalista devia passar necessariamente por uma imersão cultural.

Em 1937, ela iniciou análise pessoal com Adelheid Koch, mulher culta e sensível, membro da Sociedade Psicanalítica de Berlim. Ao se dar conta das ameaças que pairavam sobre a Alemanha às vésperas da Segunda Grande Guerra, Koch teve a diligência de sair do país em 1936 e vir para o Brasil a tempo de escapar do nazismo. A função de analista didata da dra. Koch foi um passo fundamental para que nossa Sociedade recebesse, em 1951, no Congresso Internacional de Amsterdã, o reconhecimento oficial e definitivo da International Psychoanalytical Association.                                                       

Pode-se dizer que Virgínia atuou em duas frentes marcantes: contra o preconceito racial e a favor da divulgação e consolidação da psicanálise no Brasil. Dotada de notável capacidade de comunicação, em 1950 Virgínia soube se aproveitar disso para tornar acessível à população os diversos aspectos do nosso mundo mental através de um programa nos moldes do radioteatro.

Virgínia escrevia textos sobre situações do cotidiano, habilmente criava  circunstâncias propícias ao surgimento dos mais variados sentimentos entre os personagens: inveja, inferioridade, culpa, ciúme, ódio, entre outros, eram dramatizados pelos atores, que depois recebiam dela intervenções psicanalíticas, digamos assim. Transmitido pela rádio Excelsior, o programa Nosso Mundo Mental foi não apenas bem-sucedido em divulgar as ideias psicanalíticas como ganhou credibilidade junto ao público e ainda funcionou como uma tentativa de fazer frente à forte oposição que a psicanálise sofria na época, sobretudo de uma parcela de psiquiatras.

                                                             

Essa iniciativa de Virgínia contou com o apoio essencial de um admirador da psicanálise, José Nabantino Ramos, dono da rádio Excelsior e diretor-proprietário do jornal Folha da Manhã, onde, em 1951, os textos de Virgínia produzidos para a rádio passaram a ser publicados, chegando a ocupar a primeira página do jornal.

Depois veio, ainda, o livro Nosso Mundo Mental, com comentários de Virgínia sobre psicanálise, relacionados com as peças de rádio escritas por ela. No primeiro parágrafo de sua introdução, ela diz: “O motivo que nos levou a escrever um livro sobre o ‘nosso mundo mental’ decorre do desejo incoercível que existe em cada um de nós expresso na busca de melhores condições de vida. Embora cada um a seu modo tenha uma definição do que lhe seja a felicidade e para alcançá-la trace caminhos aparentemente individuais, em essência todo ser humano procura os mesmos fins, movido por imperativo interior, que não é apanágio de nenhum indivíduo ou grupo e sim característico da espécie”.

                                                                          

Com seu costumeiro dinamismo, em 1955 ela foi para Londres e lá fez a formação na Sociedade Britânica de Psicanálise e cursos na clínica Tavistock. Na entrevista de agosto de 1995 a Marcos Chor, Virgínia contou ter recebido suporte financeiro do então presidente Jânio Quadros, para garantir sua permanência na capital inglesa por cinco anos.

                                     

Em Londres, teve contato com psicanalistas proeminentes da época, como Melanie Klein, Beth Joseph, Ernest Jones, Frank Phillips (seu analista), Paula Heimann, Rosenfeld (seu supervisor) e D. Winnicott. Ficou amiga de W. Bion e de sua esposa, além de ter se tornado próxima de Melanie Klein, sendo convidada para o tradicional chá das 5 londrino na casa da psicanalista austríaca.

                                                             

De volta ao Brasil nos anos 1960, Virgínia introduziu o curso de Melanie Klein no Instituto de Psicanálise São Paulo, do qual foi diretora entre 1961 e 1974, além de promover a vinda de W. Bion para seminários em Brasília e São Paulo. Em 1966, criou o Jornal de Psicanálise, no início feito de modo artesanal, e em 1967, com Durval Marcondes e outros colegas, colaborou para o relançamento da Revista Brasileira de Psicanálise, atuando como diretora editorial entre 1967 e 1970.

                                                       

Nos anos 1970, cria a Sociedade de  Psicanálise de Brasília, onde foi professora, supervisora e analista, recebendo como analisandos vários políticos da época. Por muitos anos seu trabalho se dividiu entre São Paulo e Brasília.

Mulher de vanguarda, Virgínia transitou por várias publicações nacionais e internacionais ao longo de sua carreira e é hoje uma das psicanalistas mais procuradas por pesquisadores que se dirigem ao Centro de Documentação e Memória da SBPSP.

 

Referências bibliográficas

BICUDO, Virgínia Leone. Nosso Mundo Mental, Instituição Brasileira de Difusão Cultural, 1966.

MAIO, Marcos Chor. “Educação sanitária, estudos de atitudes raciais e psicanálise na trajetória de Virgínia Leone Bicudo”. Caderno Pagu (35), jul-dez de 2010, p. 309-355.

MORETZSOHN, Maria Angela. “Uma história brasileira”. Jornal de Psicanálise, vol. 46, no  85, p. 209, São Paulo, 2013.

TEPERMAN, Maria Helena, KNOPF, Sonia. “Virgínia Bicudo: uma históra da psicanálise brasileira”. Jornal de Psicanálise, vol. 44, no 80, São Paulo, junho de 2011.

In Memoriam, vol. 2, 2004. Departamento de Publicação da SBPSP, coordenado por Paulo César Sandler e Teresa Haudenschild.

 

Regina Lacorte Gianesi é membro associado da SBPSP, historiadora e psicanalista. Participante da equipe editorial da Revista Brasileira de Psicanálise e coordenadora do CDM – Centro de Documentação e Memória da SBPSP. 



Comentários

2 replies on “Algumas notas sobre a trajetória de Virgínia Leone Bicudo”

uraciramos@gmail.com disse:

Está muito bom.

Luís Fernando de Nóbrega disse:

Muito bom o texto da colega Regina Gianesi, dá uma panorâmica dos caminhos que fez Dna. Virgínia Bicudo. Eu tive a oportunidade de conhecê-la, participar de reuniões de trabalho. Além de toda a experiência dela na Psicanálise, uma pessoa muito agradável de se estar junto, de muito bom humor!

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