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Algumas das contribuições de Jean Claude Rolland à Psicanálise

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Meu primeiro contato com Jean Claude Rolland aconteceu nos começos dos anos 1990, quando convidada por Horácio Etchegoyen, passei a ser Secretária Geral da IPA, trabalhando bastante ao lado de toda Diretoria da IPA, inclusive ao lado da Casa de Delegados. Os encontros aconteciam duas vezes por ano, ora nos Estados Unidos, junto aos encontros científicos americanos, ora na Europa e na América Latina por ocasião dos Congressos de Psicanálise.

Jean Claude Rolland, na época era presidente da APF (Associação Francesa de Psicanálise) e, como tal, fazia parte da Casa de Delegados. Essas reuniões conjuntas, “Board da IPA e Casa de Delegados” aconteciam duas vezes por ano, o que possibilitou que meu contato com Jean Claude fosse se tornando mais frequente, e consequentemente meu interesse em seu trabalho, foi crescendo.

Na época, além de trabalhos publicados em revistas e outras publicações psicanalíticas, Jean Claude já havia publicado seu primeiro livro, “Curar do mal do amor” (Guérir du mal d’aimer, Gallimard, 1998), premiado como “melhor ensaio” por AU.TR.ES, traduzido no Brasil em 1999 pela Martins Fontes.

Além desse primeiro livro seguiram-se cinco outros, dos quais, em três desses, tive a grata satisfação de participar da tradução para o Português. A questão aqui não é retomar o currículo de Jean Claude Rolland, mas sim tentar acompanhar suas ideias e propostas e, para tal, se torna inevitável a referência a sua obra.

Acredito que seu trabalho foi e ainda é bastante desconhecido em nosso país, e essa foi uma das razões que me levou a optar por escrever sobre ele, nesta comunicação. Acredito que depois da morte de André Green na França, em 2012, a Psicanálise ficou carente de novas contribuições e de novos autores capazes de preencher esse espaço e, sem dúvida, de meu ponto de vista, é Jean Claude Rolland, quem deveria ocupar esse lugar, ser melhor conhecido e ter suas ideias mais divulgadas.

Seguiram-se a “Curar do mal do amor”, dois livros que completam um ciclo do pensamento do autor. São eles: “Antes de ser aquele que fala”, 2017, (Avant d’être celui qui parle, Gallimard, 2006), e “Os olhos da Alma”, 2016, (Les yeux de l’Âme, Gallimard, 1998).

Nesses três livros, o pensamento de Jean Claude, que havia começado complexo e condensado em seu primeiro livro, se expande e se amplia permitindo antever a riqueza que se mostrará. Um tema é fundamental, desde o primeiro instante: o da Melancolia. Dentre muitas das contribuições que Jean Claude nos oferece, talvez sua abordagem à melancolia seja a pedra angular de seu trabalho.

“O melancólico é aquele que conquistou aqui na terra a vida eterna” (p. 3,); assim começa o “Curar do mal do Amor”, referindo-se à melancolia como representando a transferência de uma representação primitiva, narcísica, da morte, para uma representação de vida sem limites e sem fim, pois é a vida que na realidade impõe a presença da morte, e esta é justamente negada pelo melancólico, ao manter em seu mundo interno seu objeto vivo, presente, imortal.

Com este modelo, iniciando sua reflexão ao lado dos grandes nomes da literatura como Goethe, Jean Claude irá prosseguir, propondo pensar sobre a Paixão, sobre os Sonhos, tendo em mente a experiência da Transferência e da Representação. O eu, na experiência transferencial, assim como no sonho e na paixão, tem acesso ao recalcado, ou seja, às experiências antes esquecidas da infância, que apenas o analista pode ajudá-lo a recuperar. Essa, quase uma definição da análise para Jean Claude, irá permitir que o contato com os objetos internos do paciente seja retomado, possibilitando com o tempo, o contato com sua melancolia, com os objetos que em lugar de serem abandonados, ou renunciados, foram conservados.

A “rememoração”, presente em toda análise, traz à tona esses objetos internos conservados, constantemente objetos edípicos, os mais investidos desde o início da vida, e os mais difíceis de se submeterem à renúncia.

“O que é sonhado na experiência transferencial, o que é vislumbrado segundo um procedimento análogo ao do sonho são, portanto, as representações inconscientes de objeto, os restos psíquicos dos objetos de amor, aos quais o sujeito se vê obrigado a renunciar! ”.

Renúncia essa evitada a todo custo pelo melancólico e por grande parte de todos aqueles que buscam evitar a terrível dor da perda dos objetos de amor! E não é esse exatamente o maior sofrimento do ser humano desde sua infância? Ser desmamado, separado de sua mãe, não ser entendido, ficar só, sofrimento esse repetido muitas vezes durante a infância, sempre pondo em risco o conhecido, o desejado? Acredito que é difícil encontrar uma situação de vida, mesmo no adulto, na qual não esteja presente essa questão. Uma questão que põe sempre em jogo o prazer e a satisfação, colocando em seu lugar o desprazer e a dor.

A Renúncia pode então ser concebida como um movimento extremamente difícil, só alcançada por aqueles dotados de condições emocionais, que permitam tolerar o sofrimento e a dor. O modelo da Melancolia expandido por Jean Claude parece-nos profundamente adequado, eloquente e claro, na consideração da Psicanálise, principalmente na clínica psicanalítica, assim como o modelo da Renúncia, desafiadora do crescimento emocional!

Sua “ênfase” na sexualidade, principalmente numa sexualidade infantil, ligada aos objetos edípicos, característicos do modelo inicial de relação de objeto, porém presentes e atuantes durante toda a vida, não deixa dúvida quanto a origem freudiana de sua obra. A Renúncia na verdade precisa ser considerada desse ângulo; renúncia aos objetos edípicos, primeira fonte de amor, que se não alcançada, irá deixar marcas em toda a vida sexual e afetiva da pessoa.

Nos três primeiros livros que mencionamos, creio que poderíamos dizer que esse modelo mental e emocional, o da Melancolia, é expandido e acrescido de outras variáveis, com consequências fundamentais: a questão das imagens (2006) como representantes psíquicos, não apenas como o instrumento básico dos sonhos, mas também como fonte e polo constante de expressão emocional, consideradas como mais próximas “às coisas”, portanto mais próximas ao inconsciente. As imagens “conservam os objetos”, em contraste com a linguagem que promove a renúncia aos objetos.

O modelo da terceira língua (ou da terceira orelha) que permitirá ao analista com sua escuta, se dar conta dos movimentos psíquicos profundos do analisando, enterrados no interior da alma, na psique.  Em “Antes de ser aquele que fala”, 2017, ao lado do estudo das imagens, encontraremos também essa proposta, a de considerar a “Fala”, ou seja, “A linguagem”, como um fenômeno fundamental para o prosseguimento de seu pensamento.

J-B. Pontalis em sua introdução, ao se referir ao livro citado acima diz: “Qual relação estabelece a linguagem com a imagem?… Ao que renunciamos quando deixamos de ser apenas videntes? E será que renunciamos ao olhar? O que ganhamos com a eventual renúncia do olhar, o que nos torna sujeitos que falam? Ganho ou perda? (2017, p. 6).

Da repetição à rememoração, do atuado ao sublimado, de uma análise difícil e silenciosa a uma análise que caminha e onde há elaboração, a palavra, caminho escolhido por Freud, é talvez o mais importante elemento do trabalho analítico, e talvez o menos levado em conta por psicanalistas em geral. São inúmeros os exemplos clínicos oferecidos por Rolland que vão, aos poucos, porém, incessantemente, mostrando seu uso da analogia, da terceira língua, da temporalidade da língua, de uma polissemia e de uma semiologia e da intensa sexualização a que estão submetidas, tanto a palavra do analisando, como do analista!!

Longe de nós pretender resumidamente e rapidamente falar de uma questão, talvez a mais difícil, no trabalho de Rolland, tão intrincada como é a questão da língua e da palavra. Podemos apenas aqui, levantar alguns pontos, que tornem interessante e tragam curiosidade à mente do leitor. A leitura do capítulo 5 (2017) “Falar – Renunciar”, em “Antes de ser aquele que fala”, e do capítulo 10 “Sobre a renúncia” em “Os olhos da Alma”, podem esclarecer aqueles interessados no assunto. O fato é que a escuta privilegiada de Rolland, transformou totalmente seu posicionamento frente à fala, à interpretação e eu diria mesmo, sua apreensão da Psicanálise.

Em relação à interpretação, ele desenvolve sua “Interpretação analógica”, única talvez capaz de juntar conteúdo e forma num mesmo ato de palavra, remetendo o analisando temporalmente a seus objetos edípicos, presentificados na transferência com o analista. (Para maior entendimento, ver o capítulo 2, 2017). Ao lado da “Interpretação Analógica” e ligado a ela, é desenvolvida por Rolland, a ideia de “Uma terceira língua”, que na verdade se refere à escuta e à interpretação.

Diz ele: “A situação analítica ativa então uma função da palavra que, nas condições comuns da vida, ficam inaudíveis. Ela escuta os movimentos psíquicos que estão subjacentes. …. Insistimos no fato que essa corrente da língua assegura o essencial do trabalho analítico, trabalho que inclui em sua continuação, a interpretação que formulará o analista”, 2020.

Cabe a palavra também ter uma função de renúncia. A fala simbólica, realiza uma transformação da coisa ao símbolo. Assim o fazendo também produz no psíquico um movimento do concreto ao abstrato. Dessa forma abandonamos por nosso enunciado não só o que fantasticamente acreditávamos possuir, mas também nos submetemos à possibilidade de sua perda.

Claro que certa condição tem que tornar isso possível. Futuramente, a palavra em sua função de renúncia, irá falar daquilo que somos capazes de abrir mão ao simbolizar. No dizer de Rolland: “Aliás não é esse o sentido da ‘terapia da fala’ como proposto por Freud?”. 

Como se tudo isso até agora não bastasse, traduzimos também seu quarto livro, “A língua e o Psíquico” (Langue et Psyché, 2020) ainda por ser lançado em Português, em que todos esses pontos por mim mencionados, são expandidos e ampliados, com maior clareza. Como é possível ver, Jean Claude Rolland é um autor com uma teoria completa, formulada, desenvolvida e discutida cientificamente por ele em seus livros.

Em 2020, entre outras coisas, ele amplia a noção de imagem ao falar da alucinação negativa, diz ele: “Freud tinha razão ao propor que a alucinação negativa precedia a alucinação. A ausência, a falta, o desaparecimento do objeto desejado e amado é negado, e essa negação é substituída por uma imagem, não a mesma imagem, mas uma que lhe é próxima…”.

Novamente o modelo da “melancolia”, agora focado de um outro ponto de vista, o da “alucinação negativa”, na qual a falta, a ausência, sendo negadas e omitidas, geram um negativo, que terminará por exigir que uma presença se manifeste. Será profundamente a presença de uma imagem, não de palavras. A conservação do objeto é pois também fundamental na imagem e na “alucinação negativa”.

Minha experiência com o estudo da obra de Jean Claude foi e ainda é de enorme importância em minha trajetória, tanto teórica como principalmente clínica. Durante anos presencialmente e atualmente virtualmente, venho mantendo contato e fazendo supervisões com ele, o que enriqueceu muito minha reflexão psicanalítica e minha aproximação à clínica.

Em 2013, Jean Claude Rolland recebeu o prêmio “Maurice Bouvet”, pelo conjunto de sua obra.

Espero ter deixado clara a importância do trabalho de Rolland, e ter dado suficientes pistas para que meus leitores sintam o desejo de saber mais, conhecer mais, a respeito deste estimulante autor.

 

Coloco aqui suas referências bibliográficas:

ROLLAND, J. C. Curar do mal do amor. Editora Martins Fontes, São Paulo: 1999.

_________, J. C. Os olhos da Alma. Editora Blucher, São Paulo: 2016.

_________, J. C. Antes de ser aquele que fala. Editora Blucher, São Paulo: 2017.

_________ , J., C. Quatre essays sur la vie de l’âme. Editions Gallimard, Paris: 2015.

_________, J. C. Langue et Psyché. Editions Ithaque, Paris: 2020.

_________, J. C. Le verbe devant l’Inconscient. Editions Ithaque, Paris: 2022

Ana Maria Andrade Azevedo é psicanalista da SBPSP. 

Imagem: Madonna sentada amamentando a criança – Desenho de Raphael, 1483 (Fotografia: RMN – Grand Palais / René Gabriel Ojeda – https://art.rmngp.fr/fr)



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