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Adoecimento e Resiliência – Quando o Corpo Fala

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Quero ser o teu amigo.

Nem demais e nem de menos.

Nem tão longe e nem tão perto.

Na medida mais precisa que eu puder.

Mas amar-te sem medida e ficar na tua vida,

Da maneira mais discreta que eu souber.

Sem tirar-te a liberdade, sem jamais te sufocar.

Sem forçar tua vontade.

Sem falar, quando for hora de calar.

E sem calar, quando for hora de falar.

Nem ausente, nem presente por demais.

Simplesmente, calmamente, ser-te paz.

É bonito ser amigo, mas confesso: é tão difícil aprender!

E por isso eu te suplico paciência.

Vou encher este teu rosto de lembranças,

Dá-me tempo de acertar nossas distâncias.

 

Poema do Amigo Aprendiz

Fernando Pessoa

 

Para ficarmos doentes, física e psiquicamente, são necessários vários fatores tanto de ordem genética, quanto ambiental, que interatuam entre si, com maior ou menor ênfase em um ou em outro.

A geneticista Mayana Zatz, em resposta à pergunta feita por um jornalista no programa Roda Viva da TV Cultura, de São Paulo, há uns anos, a respeito do que era determinante no aparecimento de doenças, esclareceu de maneira simples a intrincada relação entre genética e ambiente: “A genética é a arma e o ambiente o gatilho” querendo dizer que para a maioria das doenças, é necessária a pré-disposição genética (arma) mas que, à maneira de “uma andorinha não faz verão”, a genética precisa do ambiente (gatilho) para se expressar.

Para fazer de algo complexo algo simples, pode-se dizer que a genética vai muito além do que se entende leigamente, sua ação não se reduz a ter ou não ter certas sequências de DNA ou determinado grupo de genes. Na verdade, depende, em grande parte, do ambiente interno e externo para que os genes sejam “ligados” ou “desligados”.

É a epigenética que estuda esse conjunto de fatores que tem interferência nos genes, fatores esses que permitem, ou modificam, sua expressão – ou desligamento.

 

“A função transcricional de um gene, que vai redundar na sua capacidade de sintetizar proteínas, é passível de regulação e responsiva a fatores ambientais. Através da chamada regulação epigenética, hormônios, toxinas, estresse, aprendizado, influências socioambientais, medicamentos e psicoterapia podem modificar a transcrição, e, portanto, a expressão gênica”.[1]

 

Ou como traduziu o pesquisador Moshe Szyf da Universidade Mcgill[2] de Montreal, Canadá, a genética é o hardware e a epigenética é o sistema operacional do sofisticado aparelho que é o nosso corpo-mente.

Dentre os fatores ambientais, um dos mais importantes é a relação estabelecida entre o bebê e a mãe, ou seu substituto, num primeiro momento. É no relacionamento da díade mãe-bebê que grande parte do cérebro e da circuitaria cerebral é construída, organizada e redistribuída em conexões e funções cada vez mais sofisticadas. São as necessidades e emoções mais primitivas, despertadas, interpretadas e atendidas pela figura materna, que forjam a matriz de todo o desenvolvimento psiconeuroimunológico. É no vínculo com a mãe que as estruturas psíquicas se desenvolvem e se diferenciam, vínculo a partir do qual novos vínculos são construídos tal como tramas e urdiduras de um tecido, e que logo se estendem ao ambiente familiar mais amplo.

Com o desenvolvimento, a essa matriz somatopsíquica inicial, vão se acrescentando mais e mais experiências positivas e negativas, de atendimento e de frustração às necessidades do bebê, que vão, por sua vez, moldando o corpo e a psique numa unidade. Quando as experiências positivas superam as negativas teremos um psiquismo e um soma mais resilientes e competentes para lidar com as adversidades que inexoravelmente virão – doenças, traumas, conflitos e angústias. 

E diferentemente do que se acreditava há até relativamente pouco tempo, essas estruturas não são fixas e imutáveis. Em 1998, o neurocientista americano Fred Cage e sua equipe surpreenderam o mundo científico com a descoberta da neurogênese em adultos que, acrescida à outra importante descoberta feita anteriormente, a da neuroplasticidade, transformou a Medicina e a Psicologia, em especial a neurociência. Essas descobertas tiveram e têm inúmeras repercussões.

Uma delas foi demonstrar o que psicoterapeutas, sobretudo os psicanalistas, vêm testemunhando em seus consultórios há décadas e que diz respeito à possibilidade de reestruturação da personalidade em combinações mais satisfatórias e harmônicas para os que dela se beneficiam.

Sabemos por estudos recentes que a psicoterapia é capaz de modificar e melhorar o funcionamento mental, otimizando sua atividade e aprimorando funções, sendo importante fator que compõe a epigenética, o nosso sistema operacional.

Aí é que entra a psicanálise como uma das formas mais elaboradas de transformação do psiquismo.

Mas como a psicanálise pode colaborar na diminuição e mitigação do sofrimento, e dos sintomas e doenças físicas?

Usualmente nosso corpo é silencioso e só se manifesta quando algo não vai bem. Assim, o estômago ronca e dói quando estamos com fome, ou com uma gastrite, ou quando algo nos “cai mal” e não conseguimos “digerir” – um alimento ou uma situação, por exemplo. A cabeça dói quando dormimos mal, quando estamos de ressaca – alcóolica ou moral – quando estamos com alguma virose, distúrbio na visão, ou com preocupações. E assim por diante.

Mas por que o corpo “fala”? Que mensagens há por decifrar?

É comum conceber a dimensão corporal do ser como algo externo, como não fazendo parte de nós mesmos e como sendo algo separado: corpo de um lado – desconhecido – e mente do outro – conhecida. Nada mais equivocado.

Isto acontece porque a maior parte dos acontecimentos internos, físicos e psíquicos, se dão num plano não-consciente. Por isso não se sabe de sua existência.

Freud, já em 1917, em Uma dificuldade da psicanálise, faz um alerta a respeito da negação, presente na Psiquiatria da época e, de certa forma, ainda presente na concepção que várias abordagens têm do humano, da influência de elementos psíquicos desconhecidos no aparecimento das afecções mentais:

 

“… A psicanálise procura esclarecer estes inquietantes casos patológicos, empreende longas e minuciosas investigações e pode, por fim, dizer ao ego: ‘Não se introduziu em você nada estranho: uma parte de sua própria vida anímica foi subtraída de seu conhecimento e à soberania de sua vontade. Por isso é tão fraca sua defesa; combate com uma parte de sua força a outra parte, e não pode reunir, como faria contra um inimigo externo, toda sua energia’”, p. 2435[3].

 

Tais elementos psíquicos desconhecidos, não-conscientes, hoje sabemos, estão também atuantes em outras doenças que não as mentais, isto é, nas físicas.

Porém, tais elementos psíquicos, presentes em todas as doenças, é algo extremamente difícil de se aceitar numa concepção dualista pela qual corpo e mente são entidades separadas e não fazem parte de um continuum. Como é difícil para nós, profissionais e pacientes, identificados que estamos com nossa consciência, aceitar que “Há mais coisas no céu e na terra, do que sonha nossa filosofia”![4].

É menos complicado conceber que mente e corpo são entes separados e que, só em casos específicos, têm uma estreita ligação.

Uma vez recebi em meu consultório uma jovem mulher, indicada por seu médico, com fortes dores nos braços. A paciente veio se queixando das dores e do médico! Disse que ele havia lhe falado que suas dores eram psicológicas, pois não havia encontrado nada “físico” que justificasse o incapacitante desconforto. Aborrecida com o fato, ela se lamentava: “Mas doutora, dói muito! Eu não estou inventando nada!”.

Como conheço o profissional, supus, com razoável segurança, que não foi isso o quê ele quis dizer, mas sim, conforme esclarecido depois pela própria jovem, que ela, além do tratamento médico proposto, se beneficiaria de uma análise, tendo em vista que poderia haver forte influência de aspectos psíquicos em seus sintomas.

No entanto, a paciente estava quase que indignada frente à possibilidade de haver algo em sua mente que se expressava ativamente nas dores e pelas dores. E, parece que até certo ponto, o próprio médico que havia feito o encaminhamento, ainda que num grau diverso, também estava fazendo uma dissociação entre os aspectos físicos e os psíquicos presentes naquelas manifestações dolorosas.

Marty, em 1952[5], apontou que além da dificuldade de linguagem na abordagem dos fenômenos psicossomáticos, há uma dificuldade ainda maior, e que reside no nosso narcisismo. E como Freud nos mostrou, a terceira ferida narcísica[6] para o ser humano, é constatar que não sabe tudo de si, isto é, que a Consciência não é o centro, e que há um universo desconhecido que habita em nós.

Vale dizer que nos provoca tremenda perplexidade sentirmos algo no nosso corpo e na nossa mente que não sabemos de onde vem, mas que vem de nós mesmos. Por isso a dificuldade de conceber que corpo e mente fazem parte de uma única unidade, e que as diversas diferenciações de estudo e abordagem são apenas recortes para possibilitar uma maior compreensão desse cosmos incógnito e surpreendente.

A psicanálise dá voz ao que não é dito porque não pode ser pensado. E não pode ser pensado porque não é algo consciente. São conteúdos que habitam nas profundezas do nosso Inconsciente que, ou são reprimidos e recalcados, “expulsos” do horizonte consciente, ou não ganharam figurabilidade e representatividade suficientes para alcançar a Consciência. Conteúdos pré-simbólicos e pré-verbais.

São esses conteúdos que se expressam nos e pelos sintomas e doenças e que demandam decodificação e elaboração, a fim de que possamos diminuir a alostase (desequilíbrio) e aumentar a homeostase (equilíbrio) corpo-mente.

Por meio do trabalho psicanalítico conflitos reprimidos e/ou não representados podem ser elaborados e adquirir uma compreensão que, de outra forma, talvez nunca alcem um novo patamar que possa ser uma oportunidade de crescimento e desenvolvimento.

[1] Muraro, M. A. G., Genética, Epigenética e Comportamento. Psychiatry Online – Brasil, Setembro de 2021 ‐ Vol. 26 ‐ Nº 09. (acesse aqui

[2] Curso de Neurociências e Comportamento, PUCRS, 2019.

[3] Freud, S., Uma dificuldade da psicanálise, p. 2435. Obras completas, tradução de Luis Lopez-Ballesteros y de Torres, 3ª. Ed., Biblioteca Nueva, Madri. 1973.

[4] Alusão à famosa frase de Shakespeare: “There are more things in heaven and earth, Horatio, than are dreamt of in our philosophy”.  – Hamlet (1.5.167-8), Hamlet to Horatio.

[5] Marty, P., As dificuldades narcísicas do observador diante do problema psicossomático. Livro Anual de Psicanálise, 2012, XXXVI, 79-93.

[6] A primeira ferida narcísica seria a descoberta feita por Copérnico que a Terra não é o centro do universo e sim o Sol; a segunda ferida narcísica foi a Teoria da Evolução de Darwin, demonstrando que o homem é fruto da seleção natural e, portanto, pertencente a uma cadeia de evolução dos seres vivos. A esse propósito ver Freud, op. cit.

Eliana Riberti Nazareth é membro efetivo da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo. Mestre em Psicologia Clínica pela PUCSP. Docente do Instituto de Psicanálise da SBPSP. Coordenadora do Grupo de Estudos sobre as Relações Corpo-Mente da SBPSP. Coordenadora da Comissão de Divulgação e Comunicação da SBPSP. Pós-graduanda em Neurociências pela PUCRS. 

Imagem: Seated bather on the beach, 1930 – Pablo Picasso 



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