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A Psicanálise e a arte e suas infinitas formas de expressão

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Convidado a escrever no Blog da SBPSP, aceitei o convite. Pensei em fazer algo original, mas enxertando trechos de trabalhos antigos que escrevi na minha passagem pela SBPSP. Faço esta ressalva para contornar a vigência da regra dos editores, que consideram plágio se aparece alguma coisa já publicada anteriormente pelo autor.

O foco desta comunicação é o destino trágico da vida humana, presente em nós desde o nascimento até a morte. Todos  trazemos conosco um potencial original, que em uma sessão de psicanálise pode vir a ser revelado. Contudo, a vida e o mundo sempre exigirão alguma realização.

Tomarei algumas ideias de Susanne Langer para expressar algo de minha experiência, parte da urdidura de um tecido no qual estão mesclados minha trajetória de vida, minha psicanálise pessoal e um longo tempo de trabalho clínico psicanalítico, que hoje se concretiza na minha forma pessoal de ser psicanalista.

Expressando livremente o exposto por Susanne Langer em seu livro Sentimento e Forma, aproprio-me de suas ideias na tentativa de traduzir minhas experiências porque seus postulados coincidem com as minhas observações. Assim, o potencial do indivíduo que inclui, além dos seus dotes mentais, seus dotes éticos, físicos, e também a capacidade para agir e a tolerância para sofrer.

A realização destas potencialidades inatas manifestar-se-ão no decurso da vida. Tanto os acontecimentos exteriores, como as experiências que a pessoa sofre, como as escolhas que faz, são ocasiões que favorecem a realização de suas potencialidades. É um destino trágico. Por termos nascido, morreremos e levaremos conosco o aprendizado acumulado durante nosso existir, processo que se desenrola por etapas que chamamos de crescimento, maturidade, declínio e morte.

No verão de 1967, dirigi-me à rua Itacolomy em busca da SBPSP. Fui muito bem recebido, amistosa e calorosamente por Adele Lacotis. Uma imensa curiosidade havia sido despertada em mim ao tratar dos pacientes clínicos. Percebi que, muitas vezes, o sofrimento psíquico era maior que o sofrimento somático.

Somente agora tenho algumas respostas para as percepções do que me moveu nessa troca tão grande de vértice, no meu interesse pelo ser humano: o maior interesse era por mim mesmo, pois precisava conhecer quem eu era verdadeiramente, processe que ainda não terminou, caminho necessário para entender um pouco dos sofrimentos psíquicos de outros seres humanos.

Hoje posso dizer que é preciso ter uma paixão pela psicanálise, isto é, paixão pela realidade psíquica não sensorial, para ir se tornando um psicanalista. Mas não é só isso. A complexidade para ser psicanalista (é que ele deve possuir um talento especial), que penso ser inato, indispensável para a apreensão da mente em sua qualidade psíquica.

O psicanalista se desenvolverá na sua análise pessoal. Bion, em seu livro Aprendendo com a experiência (1966), escreve que todo aprendizado humano é experimental, desde a concepção, o nascimento, o crescimento e a evolução, até a morte. Se observarmos a vida ao nosso redor, veremos que a experiência é fundamental. A experiência transformada em observação, em percepção e correlação, possibilitará ao indivíduo estabelecer os conceitos úteis à vida.

Leonardo da Vinci, que viveu entre 1452 a 1519, pode-nos inspirar nesse momento. Sua genialidade é inquestionável, suas manifestações ocorrem até hoje. Deixou grande quantidade de escritos pessoais, científicos e artísticos. Escreveu 7.200 páginas que demonstram o seu grande e variado interesse pelos acontecimentos, pela natureza, pelas pessoas, pelas ciências, pelas artes. Sua imensa curiosidade infantil foi conservada por toda a sua vida e, de um iletrado jovem, tornou-se um exímio observador do ser humano e da natureza, um artista.

Espera-se do psicanalista que ele possua o talento para a captação do psiquicamente verdadeiro, que será desenvolvido na experiência de sua própria análise. Que sua experiência de vida, iniciada na fase intrauterina, contribua  para a apreensão da natureza humana em suas múltiplas facetas, as quais, uma vez conhecidas, possam se transformar em escolhas, decisões e afirmações de sua personalidade.

O psicanalista, ao trabalhar e viver com o analisando, pode adquirir a arte de intuir. Ao desenvolver sua curiosidade, sua observação e sua percepção da experiência, terá a oportunidade de juntar o observado com sua arte de captação do desconhecido. E, assim, exprimi-lo em linguagem articulada e enriquecida pelo seu dom artístico, para comunicá-lo à pessoa em análise, que apreenderá, ou não, a experiência reveladora.

Shakespeare, outro ser genial, usou sua capacidade observadora e notável habilidade para usar a língua inglesa para captar a alma humana, traduzindo-a em dramas, comédias, fantasias, peças históricas e poemas.

Em seus trabalhos percebe-se a profundidade com que descreve as emoções de amor e ódio, atingindo as sutilezas da realidade psíquica, que só muito mais tarde foram atingidas e descritas na psicanálise por Freud.

O poema de T. S. Elliot Os quatro Quartetos foi composto após ele ouvir os últimos quartetos de Beethoven, compositor genial, que começou muito cedo a aprender música. Sofreu muitas vicissitudes durante a vida, ficando surdo no auge de seu potencial criativo, mas soube expressar sua realidade psíquica numa genial criação musical. O mesmo pode-se dizer de Mozart, que faleceu muito jovem, mas deixou um imenso patrimônio musical.

A exemplo de como aconteceu com Leonardo, com Shakespeare e outros, essa arte de transformação das percepções externas e, sobretudo as internas, só se desenvolverá com a experiência, isto é, sendo praticada com paciência e confiança, para que surja a capacidade de transformação e de improvisação: formas de desenvolver sua intuição e atingir a linguagem de achievement, ou uma linguagem surpreendente e penetrante.

Diferencio, como Langer, o talento da genialidade: “o talento é uma habilidade especial de expressar o que concebe. O gênio é o poder de concepção. O gênio muitas vezes tem que lutar pela qualidade de expressão e, para isto, recebe a dedicação exclusiva de um supremo talento.” (1980, p. 422).

O psicanalista observa os fatos na sala de análise, abstendo-se de memórias, desejos, compreensão e do sensorial, para poder fixar sua atenção no “infinito vazio e informe” (Bion, 1973, p 142), de onde evolui o desconhecido. Sua intuição pode ser sempre maior que a sua observação, permitindo-lhe sonhar, para se pôr em consonância com uma real psicanálise, isto é, a psicanálise que se ocupa do que é psiquicamente real.

A psicanálise e a cultura, sendo verdadeiras, são o alimento para a nossa mente. A arte fornece a linguagem expressiva para a psicanálise: a arte e a psicanálise são belas.

*Deocleciano Bendocchi Alves é psicanalista, membro efetivo e analista didata da SBPSP.

Referências bibliográficas

Alves, D. B., Considerações psicanalíticas (no prelo).
Alves, D. B., Evocando Bion, Retornamos: uma fábula para a nossa época. Alter – Revista de estudos psicanalíticos Vol. 35 (1) 9-20, 2017/2018.
Alves, D. B., (2014) Tessitura de uma experiência. São Paulo. Edição do autor.
Langer, S. K., (1980) Sentimento e forma. São Paulo: Perspectiva.

Crédito: Leonardo da Vinci, Homem de Vitrúvio. 



Comentários

One reply on “A Psicanálise e a arte e suas infinitas formas de expressão”

Gisele Brito disse:

Parabéns pelo texto Deocleciano. Profundo, sensível e muito bem escrito! Abraço Gisèle

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