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Quinta-feira, 17 de Maio de 2012.

Palavras da Diretora

Aceitando a bem humorada provocação de nossa equipe, é com prazer que vemos “O Cordial” nascer. Fruto do entusiasmo e da percepção do grupo de trabalho da Comissão de Eventos, “O Cordial” abre um espaço de comunicação até então inexistente: um veículo em que os lançamentos de livros dos colegas da casa serão privilegiados com breves resenhas. Ademais, uma publicação leve e ágil, contendo notas curtas, saborosas e de interesse de nosso público sobre cinema, música, artes, literatura e - por que não ? - receitas e estórias exclusivas passadas de mão em mão, entre nós. Desejamos força, sucesso e vida longa ao novo rebento!

Cecília Maria de Brito Orsini


Editorial

“O Cordial” inaugura, dentro de nossa Sociedade, um novo espaço de troca e diálogo sob o enfoque da interface psicanálise, cultura e comunidade, dentro de nossa Sociedade. Nosso objetivo é possibilitar a divulgação de produções de autoria dos colegas: livros, crônicas, poesias, reflexões a respeito de experiências artísticas.
A sessão “Nossa Memória” trará pequenas estórias, fatos, frases ou pensamentos que falam da nossa história. Teremos nesse número a contribuição de Maria Ângela G. Moretzsohn.
No “Ponto de Vista”, pequenas entrevistas com personalidades a respeito de temas que abrangem a interface psicanálise-cultura-comunidade. Neste número pudemos contar com a entrevista feita com Luiz Tenório de Oliveira Lima.
“Um olhar” , dá oportunidade para nossos autores veicularem suas reflexões, crônicas, poemas, artigos e outras produções. Lecy Cabral traz neste número a idéia do Café Cultural.
“Fragmentos da Vida Cultural”, trará pequenos comentários, críticas e novidades sobre a vida cultural em São Paulo, que falem de perto à nossa clínica. Colaborou neste número Ignácio Gerber
“Alquimia Transgeracional” é um cantinho especial de resgate das histórias, crenças, mitos, receitas, hobbies da experiência pessoal de cada um de nós, analistas. Luiz Carlos Uchôa Junqueira Filho nos brinda com um texto especial.
“Vitrine- criações” aqui se dará o encontro e a divulgação de nossos autores: seus livros e suas criações cultuarais.
Pretendemos que “O Cordial” seja compartilhado por todos. Por isso precisamos da sua colaboração, críticas e sugestões.

Boa leitura!


Nossa Memória

Uma palavra da Divisão de Documentação e Pesquisa da História da Psicanálise “País que não preserva os seus valores culturais jamais verá a imagem da própria alma”

F. Chopin


A Divisão de Documentação e Pesquisa da História da Psicanálise pertence ao Departamento de Acervo Documental e retoma o trabalho do Projeto Memória, desenvolvido na SBPSP desde o começo dos anos oitenta. A Divisão tem por objetivo a reunião e organização de arquivos de valor para a nossa história, tais como bibliotecas, filmes, fotografias, correspondência e documentos variados. Inicialmente está sendo realizado o tratamento do rico acervo da própria Sociedade, estando entre nossos objetivos receber em doação ou adquirir arquivos particulares, que aqui receberão acondicionamento e manutenção adequados.
A Divisão abriga atualmente os acervos de Durval Marcondes, Virginia Bicudo, Flávio Dias, Lygia Amaral, tendo recebido também doações de documentos pertencentes a Gecel Szterling e Isaías Melsohn. Além de atender à necessidade de preservação e organização deste material, teremos oportunidade de desenvolver aqui um contínuo trabalho de pesquisa de amplo alcance, com fortes possibilidades de ramificações em outras áreas do conhecimento. Estaremos, assim, comprometidos com o uso cultural e científico de nosso patrimônio documental, que será acessível a todos. Tanto o conteúdo deste acervo, quanto o resultado das pesquisas serão divulgados em filmes, publicações, edições digitais e exposições periódicas.
Como é recente a nossa experiência nesta área, hoje tão desenvolvida, foi firmado um acordo de cooperação entre a SBPSP e o IEB- Instituto de Estudos Brasileiros da USP instituição considerada referência na área de documentação e que vem nos assessorando dentro de sua especialidade, tanto no que se refere a nossas instalações e equipamentos, quanto aos projetos de pesquisa que aqui venham a se desenvolver. Recebemos ainda o apoio institucional do jornal O Estado de S. Paulo.
Temos também procurado estabelecer um intercâmbio com os inúmeros Centros de Documentação hoje existentes no país e no exterior, e estamos nos filiando às Sociedades que os congregam.

Maria Ângela Moretzsohn



Ponto de Vista - Entrevista com Tenório

Em 1960, o filósofo francês Merleau Ponty publicou, em seu livro Signos, um artigo intitulado O Homem e a adversidade. Esse ensaio é fruto de uma conferência que proferiu no início dos anos cinqüenta, em que considera o que haveria de comum nas diversas manifestações do pensamento e da cultura ocidentais dos últimos cinqüenta anos. Merleau Ponty responde a essa questão dizendo que seria justamente a integração entre mente e corpo, entre experiência
psíquica e experiência corporal.
Corpo é entendido aqui não como organismo biológico, mas como aparece na literatura e no pensamento do século vinte e, principalmente, como surge na psicanálise. Quando Freud constituiu o campo psicanalítico, um dos seus fundamentos foi a integração entre mente e corpo. É interessante que Merleau Ponty tenha ressaltado este aspecto, uma vez que ele trabalhou com as idéias do filósofo Hurssel , bem como com as do existencialismo sartriano , e também com diferentes formas artísticas, principalmente Marcel Proust, Paul Valery, sendo que todos estes colocavam grande ênfase nesta integração. Por quê? Porque, segundo ele, a tradição filosófica e o pensamento científico do ocidente, durante os três séculos anteriores, caminharam no sentido de dissociar corpo e mente, a partir justamente do cogito cartesiano, que criou tal dissociação.
Um assunto que tem me interessado muito é como Freud, que veio de uma formação médica rigorosa, estrita, de anatomo-patologista, desenvolveu A interpretação dos sonhos. Podemos ver, pela auto-análise de Freud, que ele de fato opera uma ruptura com o passado de neurologista ao instituir um campo novo que caracteriza esta integração, recorrendo à tradição literária e poética do ocidente. Esta tradição é principalmente vinculada aos clássicos da antiguidade, latinos e gregos, e também a Goethe e os românticos alemães, além de Shakespeare. Podemos dizer, então, que o suporte fundamental de A interpretação dos sonhos, além dos sonhos de Freud, é a alusão e a referência a esses autores da tradição literária, muito mais do que à tradição científica e médica. Podemos afirmar, portanto, que só a tradição literária preservou aquilo que foi dissociado pela filosofia. O exemplo mais extraordinário desta idéia em A interpretação dos sonhos é Shakespeare, principalmente em Hamlet, Macbeth, Ricardo III , e outras obras que Freud cita exaustivamente não para analisar Shakespeare, mas para nelas encontrar osi fundamentos de suas proposições. Outro livro muito citado por Freud é Os anos de aprendizado de Whilhem Meister, de Goethe, cujo tema é justamente a montagem do Hamlet de Shakespeare e como, através disso, o personagem principal, um ator e diretor de teatro, torna-se adulto. Em Goethe, Shakespeare e Schiller encontraremos a grande de que Freud se valeu para dar subsídio e consistência à sua teoria da mente, que integra as vicissitudes do corpo. Dessa forma, a psicanálise mantém-se bastante atual porque é científica, embora sem manter aquela dissociação.
Embora tenha-se criado uma vertente em que se busca interpretar psicanaliticamente a obra literária - vertente iniciada pelo próprio Freud, como, por exemplo, no texto sobre Leonardo Da Vinci, e estimulada por ele, como no exemplo de Otto Rank com o Don Juan - eu ,de fato, coloco-me numa posição mais próxima daquilo que inicialmente ocorreu com Freud em A interpretação dos sonhos, na Correspondência com Fliess, e também com outros interlocutores. Pude perceber que ao interpretar aquilo que é tão privado, Freud revelou seu mundo inconsciente, ao falar de seus próprios sonhos. Ao fazê-lo, Freud faz aquilo que o escritor faz literariamente.Na realidade estava fazendo uma transformação entre privado e público, e publicando aquilo que, de certo modo, continha um teor de confissão pessoal. Se qualquer um de nós relesse A interpretação dos sonhos, perceberíamos a riqueza literária deste texto, que não tem uma função meramente adornativa, mas, ao contrário, constitutiva do movimento interpretativo que Freud faz dos próprios sonhos para ilustrar sua teoria da formação dos sonhos e de seu significado em relação ao inconsciente e à repressão.
Freud trabalha com os insights que a tradição literária lhe ofereceu. Há outros autores que o fazem também. Em Montaigne, por exemplo, que ele e Freud fazem da tradição clássica. que venho estudando muito recentemente, é impressionante notar a semelhança entre o uso. Portanto, venho pensando muito neste aspecto: o da literatura mais como constitutiva da psicanálise do que como objeto de análise psicanalítica.

Entrevista realizada pela Comissão de Eventos Culturais e elaborada por Claudia Starzynski



Um olhar

Introdução histórica do café como local de encontros¹

O texto do livro “A importância Social do Conhecimento de Guttenberg (1450-início da Imprensa) à Diderot” de Peter Burke inspirou-nos para a criação de um café enquanto local de encontros e trocas culturais, de uma maneira mais intimista.
Achamos importante falar da origem histórica dos cafés.
Com a descoberta da América por Cristóvão Colombo, em 1492, e do Caminho das Índias por Vasco da Gama, em 1498, as cartas náuticas eram divulgadas nas lojas de Amsterdã (Holanda) em dois locais: na Loja Companhia das Índias Ocidentais e na loja da Companhia das Índias Orientais, freqüentadas principalmente pelos povos anglo-saxões.
Somente em 1503, em Veneza, que era o centro do comércio das mercadorias trazidas do Oriente, vindas por Constantinopla, cujo comércio fora bloqueado pelos turcos, tomou-se conhecimento da descoberta da América.Este fato ilustra a dificuldade que os povos latinos tinham de divulgar as novidades.
Em meados do século XVII (1650) na Avenida dos Campos Elyseos em Paris, era comum os intelectuais, escritores, historiadores, pintores, encontrarem-se em lugares como o Café-Precope para trocar informações, críticas e novidades impressas.
O café como ponto de encontro tornou-se o local preferido para a atualização e a troca de novas informações.
Hoje os meios de comunicação e a internet auxiliam essa divulgação. Sugerimos um café cultural como ponto de encontro para uma troca mais intimista e próxima. No mundo de hoje, globalizado, tudo ocorre e se transforma rapidamente.
Pensamos num momento em que nos reuniríamos para trocar informações mais sutis que ocorrem na clínica, no dia-a-dia, na literatura, na filosofia...enfim uma busca de
trazer o público-privado e o privado-público.

Lecy Cabral



Fragmentos da vida cultural
Duas ou três inspirações musicais

“As notas, não as toco melhor que tantos outros pianistas, mas as pausas... Ah! nelas reside a arte.”
Arthur Schnabel, grande virtuose do piano.
“ A música ocidental (e eu acrescento por minha conta, a psicanálise) teria muito a ganhar com um pouco mais de silêncio. “
John Cage, artista plástico da música.
Penso que ambos se referem a um silêncio interior. Quando Freud propõe a atitude de atenção livremente suspensa que Bion recria como sem memória, sem desejo, sem compreensão racional, ambos também falam de um silêncio interior, de um desapego de si que propicia e ativa a escuta psicanalítica, uma escuta bi-auricular entre o consciente e o inconsciente, na busca do puro e mágico momento presente, infinito como O.

Estou convicto de que o analisando capta o silêncio interior do seu analista e se perturba com os ruídos institucionais que nele interferem.

Ainda de John Cage:

"Não tenho nada a dizer, estou dizendo e isto é poesia".

Ignacio Gerber



Alquimia Transgeracional - Aprendiz de Feiticeiro

Numa agradável tarde de julho de 1995, fui atraído ao Museo Medicis em Florença para visitar uma exposição sobre Federico Fellini que recentemente falecera. Malgrado a recriação multicolorida do universo imagético do famoso cineasta, aquilo que mais me intrigou foi me defrontar inesperadamente com uma série de relatos de seus sonhos.
Lembro-me ainda da alegria infantil que me invadiu ao vislumbrar a possibilidade de espiar às escondidas o ateliê deste artista da criação onírica, na expectativa ingênua de descobrir o segredo de sua magia. Após uma rápida avaliação dos títulos disponíveis, minha atenção fixou-se na sonoridade visual de La Guardiana della Grotta. Determinado a não perder esta chance única de passar a ser guardião de uma preciosidade, encontrei um papel improvisado em meus pertences e passei sofregamente a copiar o relato.
Durante dez anos esse texto manuscrito foi zelosamente guardado por mim no compartimento mais protegido da minha “central de inteligência”, a pasta que me acompanha a ceca e meca com uma fidelidade canina. Não era só uma questão de ser fiel depositário, mas também de poder tirar esse trunfo de dentro da cartola em algum momento especial, como a inauguração deste informativo cultural. Antes de divulgá-lo, porém, um último passo se impunha: traduzir o texto amorosamente do italiano, na falta de condições para fazê-lo com competência lingüística.


A Guardiã da Gruta

Encontrei-me, como quem está sendo aguardado, diante de uma gruta que surgia de
modo imprevisto num rochedo.
Entocada na terra, ao lado da entrada escura, estava postada semi-nua, uma potente figura feminina com aparência de uma camponesa guerreira antiga. “Seria uma azteca?”, pensei no sonho. Algo de arcaico me era sugerido de modo tênue ainda, por uma frase misteriosa
esculpida na pedra que arqueava sobre a gruta. A mulher me perscrutava por entre seus cílios, talvez até sem me ver, severa e cúmplice, com um silêncio que me convidava a mobilizar lembranças profundas.
Mas, e daí? Que sentido teria aquela escrita?
Do que se tratava? Um veredito, uma condenação? A revelação de um arcano? Não conseguindo me mover, não respirando, estava me transformando numa pedra que, sem escapatória, sufocava sob o olhar infinito da antiga sacerdotisa. Finalmente, o trinado de uma risada liberou todo o entorno e a voz cheia de alegria de um menino aninhado nas cercanias falou algo, como que escrito no balão de uma história em quadrinhos. Despertei com uma sensação de felicidade, sem me preocupar em compreender aquilo que tinha sonhado.
Apresentei este sonho a Ernest Bernhard, um psicanalista berlinense que viveu em Roma.
“Você sabe quem era o menino?”, diz-me o professor com ar de admiração.
“Não”, digo-lhe sem embaraço e com certo atrevimento. “É o “Puer Aeternis”. O sêmen dinâmico, a centelha original do pensamento, o ímpeto, a pesquisa, a exploração. É Adonis, Peter Pan, o amigo eterno, o inimigo ameaçador, o companheiro seja luminoso ou obscuro, o cavaleiro errante, o eterno investigador”.
Eu calado, a cabeça baixa. “É a impaciência” prosseguia o professor “a recusa em conferir um sentido àquilo que acontece e àquilo que se faz, a necessidade de liberar-se de tudo aquilo que o bloqueia, o aprisiona, o enclausura.”
Agora o professor me olhava com um sorrizinho de desaprovação solidária, e dizia: “ É a recusa de qualquer obrigação e a condenação voluntária a uma vida provisória de vagabundagem emotiva”.
A felicidade que eu sentira ao despertar persistia, ou melhor, até aumentara.

E agora, caro leitor? Você se contentaria meramente em abandonar-se à fruição visual do texto felliniano, ou se arriscaria a fornecer uma versão interpretativa, como o nosso colega alemão? De qualquer modo, seja rápido: se você não devorá-lo, ele te decifrará.

Luiz Carlos Uchôa Junqueira Filho


Nota Insistente

Inspirados na “Revista Antropofagia” fazemos uma paródia com sua “Nota Insistente”:
‘O Cordial está acima de quaisquer grupos ou tendências’.
‘O Cordial aceita todas manifestações e não coloca nenhuma objeção’.
‘O Cordial aceita críticas mas não faz críticas’.
‘O Cordial não tem orientação ou pensamento de espécie alguma: só tem coração e (humor?)’.
Este número que ora sai é o embrião de uma proposta cuja consolidação depende de você.
Aguardamos suas idéias, críticas e sugestões


Produção: Rodrigo Pantani
Coordenação: Lecy Cabral
Eliana da Silveira Cruz Caligiuri
Celia Maria Blini de Lima


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