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Quinta-feira, 17 de Maio de 2012.
 

EDITORIAL

Nesta edição prestamos uma homenagem especial ao Fabio Herrmann, que tanto colaborou, com suas idéias, para o desenvolvimento do pensamento psicanalítico.
O “Folhetim” neste número privilegia a interface cinema-psicanálise. Miriam Chnaiderman, psicanalista e documentarista, nos contempla com o seu olhar pela cidade na realização de seus documentários. Numa linguagem plástica, ela configura o indivíduo no seu tempo, sua cultura e sua inserção social.
Contamos ainda com a colaboração de muitos colegas que trouxeram suas idéias e experiências para enriquecer as demais seções do nosso jornal:

Nossa Memória – Maria da Penha Zabani Lanzoni e Mário Lúcio Alves Baptista, numa lembrança especial, homenageiam o querido colega Fabio Herrmann.

Ponto de Vista - Eliana da Silveira Cruz Caligiuri, com arte e maestria, sintetiza sua entrevista com Miriam Chnaiderman.

Um olhar – Célia Maria Blini de Lima, “tocada” pelo encontro com Arrigo Barnabé, fala de suas emoções e reflexões.

Fragmento da Vida Cultural - Edival Antonio Lessnau Perrini, psicanalista e poeta, nos presenteia com uma composição de sua criação.

Alquimista Transgeracional – Ana Maria Brias Silveira nos convida para compartilhar do trabalho original de nossa colega Patrícia Bohrer Pereira Leite.

Agradecemos o incentivo dos colegas para a continuidade do “Folhetim”.


Palavra da Diretora da Cultura e Comunidade da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo

O Folhetim nasceu nessa gestão da Diretoria de Cultura e Comunidade da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, em caráter experimental, a partir da observação dos colegas de que haveria um espaço importante a ser cultivado, além daquele tradicionalmente preenchido pelas publicações de ótima qualidade de que dispomos.
Animado pelo propósito de ser um veículo de comunicação informal, o Folhetim tem recebido contribuições de muitos colegas e, com isso, vem nos possibilitando trocas em torno de diversas manifestações artísticas. A transmissão de nossas tradições culturais (folclore, culinária, arte popular), de forma mais ágil, alegre e irreverente, também tem sido um ponto de grande interesse. Como toda criança pequena que começa a dar seus primeiros passos, nosso jornal tem também seus tombos e tropeços. É natural. É assim que vamos aprendendo.
Como diretoria na área da interface com a cultura, a nós cabe acolher iniciativas que fazem do fluir institucional algo mais agregador e funcional. Esperamos que o Folhetim continue seu desenvolvimento, agora mais experiente, para bem cumprir seu papel de promover esta modalidade de encontro em nossa comunidade.


Cecilia Maria de Brito Orsini
P/ Diretoria de Cultura e Comunidade


Nossa Memória:

Uma Mente parou de pensar...
Um coração parou de bater...
Uma alma parou de sentir. E de sofrer. Um homem, um amigo, deixou de viver. Deixou a mim, deixou a todos nós num vazio. Foi no dia 08 de julho de 2006. Apenas a três dias de completar 62 anos, anos vividos intensamente. Apesar de um dia de um intenso azul e de muito calor, às três da tarde o tempo parou e fez frio. E o frio nos congelou, congelou a alma, o espírito. Perdi um amigo, um mestre, um orientador, um irmão, um supervisor, um analista, um homem que me ensinou a pensar.
A perda de um amigo é sempre grande, mas Fabio deixa duas lacunas: a de amigo e a de um dos mais importantes autores da psicanálise atual, um dos maiores pensadores da psicanálise nos últimos 40 anos.
Sua obra, extensa e profunda, ficou conhecida como Teoria dos Campos e constitui-se, na companhia das propostas de Isaías Melsohn, na maior revisão crítica da Psicanálise desde as revisões de Klein, Lacan e Bion.
Fabio mergulha na questão mais profunda e importante da mente psicanalítica proposta por Freud, a questão da ipseidade, ou seja, da determinação do sujeito. Deste mergulho, Fabio emerge com uma solução digna de um profundo conhecedor da mente, tal como foi proposta por Freud. Há o inconsciente, e o sujeito é determinado por uma instância alheia a ele, mas exclusivamente durante a sessão analítica, já que é da mente psicanalítica que o psicanalista trata. E o campo imanente à sessão analítica é o campo transferencial de cujas sucessivas rupturas deve brotar o conhecimento psicanalítico. Por isto e para isto, é necessário que o sujeito se deixe determinar por esta instância. Instância inconsciente durante a sessão analítica criada pela própria aplicação do Método Psicanalítico, o campo transferencial.
Fabio Herrmann deixou-nos; fará muita falta, mas deixou-nos também uma valiosa herança.
Cabe a nós prosseguir seu trabalho, como forma única de reconhecimento e homenagem. Esperamos estar capacitados para isto.

Ao Fabio, toda nossa gratidão.


Maria da Penha Zabani Lanzoni
Mário Lúcio Alves Baptista.


Ponto de Vista:
PSICANÁLISE, CÂMERA, AÇÃO

“A experiência do sair para a rua e ser fisgado pelo evento serve-me de paradigma na minha reflexão a respeito das relações entre psicanálise e cultura: sair do contexto instituído da clínica, da comodidade de nossos consultórios e, com nossa maleta viajante de psicanalista, ir até o mundo. Nomadismo necessário onde, com um jeito a ser inventado, somos obrigados a pensar a clínica a partir do contato com o asfalto, com a poeira, com os acordes dissonantes.
Talvez apenas a errância possa definir a relação entre psicanálise e cultura. Se não for assim, corremos o risco de transformarmos nosso conhecimento em armadura empobrecedora e reducionista, o mundo da cultura passando apenas a ilustrar o que já sabemos.”
MIRIAM CHNAIDERMAN

É com estas palavras que Miriam nos comunica não só sobre a psicanálise que pratica: uma psicanálise transformadora, que se esparrama pelo mundo. O texto acima também revela que Miriam coabita a fronteira psicanálise/cultura, especialmente como realizadora de documentários.
Miriam não se restringe a dizer de suas inquietações e reflexões diante do mundo e do humano por meio do discurso literário. Apaixonada por cinema desde a adolescência, corajosamente ela mergulhou, em 1994, no mundo da sétima arte, realizando o documentário “Dizem que sou louco”, partindo em busca dos personagens nomeados “loucos de ruas”. E o olhar / escuta revelou a linguagem dessas figuras silenciosas. Seria esse trabalho uma psicanálise documentada ou um documentário psicanalítico?
Procurar uma definição significaria reduzir a ação desta psicanalista implicada no mundo e (com o) com o talento de promover o diálogo psicanálise/cultura. Sua obra é tão implicada socialmente que “Dizem que sou louco” foi usado na luta anti-manicomial.
A partir dessa experiência fundadora, Miriam perambula com questões e perguntas, e vai sendo fisgada pela vida, ampliando, a cada passo, a cada encontro, seus interesses e revelando a mente inquieta, curiosa e atuante, sua característica marcante.
O caso de um pedreiro de cemitério que se enforca numa árvore de seu local de trabalho, supervisionado por Miriam, dá origem a seu segundo e premiado documentário “Artesãos da morte”. Sua mente de psicanalista e documentarista vai em busca de dar voz ao inusitado: aos profissionais que lidam com cadáveres - coveiros, maquiadores, técnicos de necropsia, administradores e outros.
E Miriam segue transformando o discursivo em imagem. Imagens sobre artistas como em “Gilete Azul” – a respeito do fascinante mundo da artista plástica Nazareh Pacheco - e em “Passeio no Rancho Silvestre” – uma experiência visceral com o guru do Tropicalismo, José Agripino de Paula.
Em outras imagens ela transforma anônimos em grandes personagens, como ocorre nos documentários “Arma na Mão” – a partir da visão de uma arma reluzente durante as filmagens de “Artesãos da Morte” – e “Alma na Mão” – originário do encantamento com o Fórum em Defesa da Vida pela Paz, do Jardim Ângela, ainda não finalizado.
O conjunto de documentários de Miriam Chnaiderman tem resultado em prêmios e convites constantes para filmar temas delicados e trágicos como o preconceito, tarefa realizada com respeito nos documentários “Isso, aquilo e aquilo outro” e “Você faz a diferença”, encomendados pelo programa “São Paulo, Educando pela Diferença para a Igualdade”, projeto idealizado pela Universidade Federal de São Carlos e implantado pela Secretaria de Educação do Estado de São Paulo.
Uma obra de fôlego de uma psicanalista que, em companhia da psicanálise, com idéias na cabeça e uma câmera na mão, parte para a ação de revelar-nos “sua paixão pela vida humana, seja ela qual for“, com profundo respeito e comovente interesse.


Eliana Silveira Cruz Caligiuri


Um olhar:
CONVERSANDO SOBRE ARRIGO

Desta vez foi a música, com as transformações e criações geniais de Arrigo Barnabé, que nos permitiram viver momentos que nos tocam. Essas experiências fazem uma reverberação tal qual uma pedra jogada num lago faz movimentos que se propagam.
Ele e sua música dodecafônica, tendo a psicanálise como referência, procuram se aproximar do inconsciente, do imponderável e ensejam a importância de se abrir mão do que seria uma escolha pessoal, para atingir algo novo, com possibilidade de provocar emoções e mudanças em quem entra em contato com suas composições musicais.
A construção das séries dodecafônicas, cujo princípio é a não repetição e a quebra da harmonia tonal, tomada com espontaneidade, dá a possibilidade de trabalhar com o acaso - a busca da inocência, segundo Arrigo.
Não é uma boa sugestão de método para praticar a psicanálise? Ou, em outras palavras: não é uma leitura bem próxima do que desejamos na prática da psicanálise?
Célia Maria Blini de Lima


 

Fragmento da Vida Cultural:

VARIAÇÕES EM TORNO DE CURITIBA

Edival Perrini (*)

na sua manhã
Curitiba
respiro a cerração
das nuvens que dormiram com você

*

Teu frio
Curitiba
vicia-me em abraços

*

Atrás do lençol de nuvens
Curitiba
meu exercício de sonhos

(*) Edival Perrini é Membro Efetivo da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo e do Núcleo Psicanalítico de Curitiba, e autor de Pomar de Águas e Armazém de Ecos e Achados, entre outros livros de poesia.


Alquimista Transgeracional:
A COR DA LETRA

Convidada a colaborar com O FOLHETIM, pareceu-me interessante relatar a experiência de colegas nossos que desenvolvem atividades paralelas à sua atividade clínica e que fazem interface com a psicanálise.
Nossa colega Patrícia B. Pereira Leite coordena A Cor da Letra, Centro de Estudos e Pesquisa em Leitura e Literatura, que realiza ações culturais cujo principal foco é disseminar a leitura, formando mediadores que ampliem o acesso ao livro, à literatura e à informação. Trabalha prioritariamente com comunidades e instituições das quais façam parte bebês, crianças e jovens em situação de risco e suas famílias.
Patrícia iniciou seu trabalho em um Hospital Dia- “Unité du Soir”, Paris XIII, sob a orientação de René Diatkine. Naquela ocasião o Centro dispunha de diversos “ateliers” e entre estes um ateliê-biblioteca: espaço que as crianças e jovens podiam freqüentar livremente todos os dias durante o período em que estavam na instituição. Sob a “supervisão generosa” do Prof. Diatkine, esta experiência, que se havia iniciado a partir da demanda espontânea das crianças, foi tomando corpo e ganhando contornos que permitiram desenhar e avaliar seu real significado, importância e possibilidades de exploração.
Após treze anos de atividade em Paris, de volta ao Brasil, Patrícia hoje se dedica a estender as malhas destes programas de leitura através da capacitação de agentes sociais e profissionais de diferentes especialidades, os Mediadores de Leitura, que atuam em diversas cidades do país, na rede hospitalar pública, creches, centros de atendimento a jovens e escolas públicas e privadas, incluindo algumas na zona rural.

Ana - O que vocês têm hoje como objetivo no desenvolvimento dos programas?

Patrícia - Atuamos na promoção de ações culturais que contribuam para o desenvolvimento dos indivíduos e dos grupos. Não se trata de uma proposta curativa, no entanto, esta ação cultural, ao formar “pequenas ilhas de humanização”, no dizer de Fabio Hermann, abre espaço para o desenvolvimento de uma saúde coletiva.
Neste contexto, o livro é utilizado como objeto estético-cultural, transmissor e suporte, pois através de sua narrativa textual e/ou de suas imagens e da presença do mediador, que acompanha e transmite a narrativa, cria-se o espaço para a participação espontânea dos ouvintes. Há uma aproximação entre os participantes, e entre estes e o conteúdo da narrativa, o que permite a emergência e a formulação de conteúdos emocionais, fantasias, dúvidas, idéias, a organização do pensamento, o acesso ao repertório coletivo e particular a cada um. Enfim, desperta a possibilidade e o prazer da leitura e da comunicação. Cria-se a oportunidade de transmissão da cultura entre grupos e gerações e a possibilidade de se descobrir narrador da própria história.

Ana - Você enfatizou a questão do ler a estória e não simplesmente contá-la.

Patrícia – O livro de literatura contém uma narrativa estruturada, e muitas crianças solicitam a repetição da mesma estória muitas vezes, precisam de tempo e espaço para se apropriar, formular e elaborar as questões que foram despertadas a partir da leitura. As palavras são marcas-referências, assim como o ritmo e estrutura do texto. Possibilitam o despertar de um repertório particular. Além disto existem muitas situações de crianças e jovens subnutridos afetiva e culturalmente em que o livro e a estória permanecem como sinalizadores daquela relação e daquela vivência. Tive, por exemplo, o caso de uma menina de doze anos ( no hospital dia), cujo pai havia abusado sexualmente de sua meia-irmã e se encontrava preso. Ela não falava sobre isto e vivia uma grande inibição da aprendizagem. Ela vinha com freqüência à biblioteca. Sempre solicitava a leitura de estórias com uma temática fortemente feminina, com princesas, sereias, etc, mas assim que aparecia alguma palavra que ela ligasse ao universo da sexualidade feminina, como “saia” ou “linda”, interrompia a leitura e partia ou ficava olhando outro livro.Porém sempre solicitava recomeçá-la em outro momento. Isto ocorria sem nenhum tipo de interpretação verbal da minha parte, apenas respeitando seu tempo e sua angústia, suas demandas repetidas da escuta destas narrativas, até chegar ao tempo em que lhe foi possível chegar ao final das narrativas e ainda mudar de posição e assumir a leitura em voz alta que ela fazia para mim.

Ana - E o trabalho com os bebês?

Patrícia - A leitura desperta enormemente a atenção dos bebês, que se encantam com a sonoridade das palavras, das frases, do ritmo, propositadamente estruturados desta forma, e das ilustrações. Esta leitura, por exemplo, numa sala de espera de centro de saúde, permite estabelecer uma aproximação entre e com as mães dos bebês. Nesta situação, o livro, com suas narrativas, além de estimular e ampliar o repertório de comunicação do bebê, serve também como mediador entre as mães, os bebês e os profissionais que estão ali para cuidar deles.
Vou finalizar citando Evelio Cabrejo-Parra, pesquisador, psicanalista e lingüista colombiano: “Muitas vezes a literatura nos permite ler as páginas difíceis de nós mesmos indiretamente, nos permite nomear e exercitar a representação da ausência”.
Agradeço a Patrícia


Ana Maria Brias Silveira


 

Produção: Rodrigo Pantani
Coordenação: Lecy Cabral
  Eliana da Silveira Cruz Caligiuri
 

Celia Maria Blini de Lima




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