Musas pós-modernas
Lilian Quintão
Fernandes, Maria Helena, Transtornos alimentares. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2006, 303 p.
Escrever a respeito do livro de Maria Helena Fernandes,
Transtornos alimentares, não é tarefa fácil. Trata-se de um livro
denso, embasado em amplo levantamento bibliográfico a respeito
do assunto, bem como dos estudos epidemiológicos, de
maneira rigorosa. Ao mesmo tempo, pelo modo com que
encaminha a leitura, acaba por elaborar uma verdadeira “psicopatologia
da alimentação cotidiana”.
Para tanto, toma como baliza cinco casos de sua clínica
(p. 16). As pacientes em geral são mulheres, jovens em sua maioria,
cujo corpo e sua respectiva imagem estão na pauta de seu
interesse, na maior parte dos casos ocupando todo seu espaço
mental, sua energia, sua libido. Corpos e imagens que vão
sofrendo transformações e deformações de tamanhas proporções,
que aos outros – a elas aparentemente não – se apresentam
como objeto do olhar que perturba, que causa horror. Pior:
essas sintomatologias acenam para a morte. Isso atinge diretamente
as questões que a psicanálise coloca, tanto no nível da
teoria como no de seu manejo, pois se trata do cerne das questões
da própria vida: corpo e imagem, sofrimento e dor, os enigmas
da feminilidade, sexualidade, desejo, vida e morte. Maria
Helena focaliza a anorexia e a bulimia sem, no entanto, deixar
de constatar os inúmeros casos de obesidade mórbida, que
podem vir a se transformar em problema de caráter endêmico.
A pergunta que se coloca é: como se chegou a este
ponto? E por que mulheres? Nas três ultimas décadas a questão
vem se intensificando, até se banalizando e se tornando,
na maior parte das vezes, um ideal a ser atingido.
Mal-estar contemporâneo? Não nos esqueçamos de que
na cultura globalizada, como aponta a autora, a mídia exerce
enorme apelo e influência sobre a questão da imagem do corpo,
o que se poderia chamar de uma verdadeira “ditadura da beleza”.
O sistema midiático convoca a esta qualidade de identificação
por meio do consumo de bens e mercadorias, aí incluída
a imagem corporal. Tempo da exterioridade, em que fazer-se
para outro e através do olhar do outro é quase que sinônimo de
ser... Tempo de alienação, em que a máscara, o semblante, corre
risco de se aderir ao rosto, e o sujeito se esvai. Qual Narciso, fundem-se na imagem – naquela, do outdoor.
Grassam os blogs que possibilitam a troca de experiências
entre as anas e a mias (anoréxicas e bulímicas), em
muitos casos incentivadores e, até mesmo, considerados
como estilos de vida. (Basta acessar alguns deles para que se
tenha uma idéia da extensão do problema.) As top models –
ideal máximo de beleza –, por exemplo, têm um índice de
massa corpórea muito abaixo do recomendável.
A esta preocupação excessiva com a imagem, chamará
de “hipocondria do corpo”, meio de expressar o sentimento
de mal-estar que, na impossibilidade de ser descrito como
mal-estar psíquico, acaba sendo expresso por um relato sobre
insatisfações do próprio corpo. Ao longo dos séculos, as mulheres
têm sido porta-vozes das “mazelas subjetivas de seu tempo”
(p. 20). Só que hoje, na contramão das histéricas da época de
Freud – tão sedutoras, tão fascinantes...
Enfrentar o desafio de dar conta do fenômeno do corpo
recortado pela cultura em termos metapsicológicos, “para
que não tentemos fazer da psicanálise uma mera sociologia
do corpo” (p. 275), é sua proposta. O que possibilitará sua
aplicabilidade na teoria e na clínica, construindo fronteiras
epistemológicas da psicanálise para a compreensão da questão
da participação e do lugar do corpo da mulher nas formas
de apresentação do mal-estar contemporâneo.
Nos últimos trinta anos, os transtornos alimentares vêm
comparecendo de forma cada vez mais eloqüente e preocupante.
A autora lembra que Freud, em relação às suas histéricas,
já considerava o sintoma como forma de se fazer “escutar”.
No entanto, citando E. Bidaud, “se a histérica pode ser ‘teatral e
encantadora’, a anoréxica, dando-se a ver descarnada, exalta um
fascínio gelado. Provocando olhar, perturba” (p. 19). Essa seria
talvez a versão contemporânea do recalque e da sexualidade.
Acompanhando a evolução da abordagem deste tema
desde Freud, Maria Helena traça um amplo panorama do
tratamento de tais questões até o dia de hoje.
Ela aponta que Freud tentou compreender a anorexia,
bem como os sintomas da disfagia e vômitos, através da lógica
da histeria, assinalando a importância da oralidade na
organização da sexualidade e sua relação com a melancolia.
Além de atribuir uma função defensiva de tipo histérico,
também chamou atenção para a possibilidade, em alguns
casos, da dimensão psicótica da recusa alimentar. Quanto à
dimensão melancólica da histeria, a associou ao afeto do luto.
Freud pouco se referiu à bulimia, mas a abordou no registro
da lógica das adições e no registro das psiconeuroses, por vezes identificando-a com a melancolia – que coloca entre as neuroses narcísicas.
Também contribuíram suas considerações a respeito dos
processos de descarga de excitação pulsional e sua influência na
constituição do trauma, cujos vestígios e marcas se inscrevem diretamente
no corpo. Há que considerar a participação de mecanismos
arcaicos do funcionamento libidinal, como o auto-erotismo.
A partir dos anos 1920, tendo em mãos o arsenal conceitual
da metapsicologia, Freud vai abrindo a questão para outras direções, relacionando-a, por exemplo, à pulsão de morte e seus
desdobramentos. Além disso, inclui os transtornos alimentares
nas vertentes psicótica e perversa, da lógica compulsiva e aditiva,
chamando atenção para a defusão pulsional, o papel do masoquismo
erógeno, do fetichismo, a idéia de um ego corporal.
Após percorrer de forma minuciosa os escritos dos
autores pós-freudianos, a autora conclui:
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A diversidade dessas contribuições permite constatar que
a compreensão da anorexia e bulimia transita nos escritos psicanalíticos
privilegiando quatro dimensões: a dimensão neurótica,
cujo modelo seria, por excelência, a histeria; a dimensão
narcísica, que teria como paradigma a melancolia; a dimensão
da neurose atual, representada pelo modelo da somatização, e a
dimensão impulsiva, ilustrada pelo modelo das adições (p. 130). |
Uma das contribuições relevantes deste livro é a de
empreender uma leitura metapsicológica das vicissitudes das
relações precoces e da constituição da sexualidade feminina.
E o que a autora irá desenvolver daí em diante serão os caminhos
e descaminhos da construção do corpo no processo de
constituição do sujeito, em particular da mulher.
Para tanto, parte dos primórdios da relação do bebê e
sua mãe, a fim de entender seus desdobramentos nas dificuldades
ligadas à sexualidade feminina e a importância da
mãe no gerenciamento pulsional. O outro maternal exerce
uma função de pára-excitação, sem o qual o aparelho psíquico
fica à mercê da força pulsional.
Aqui a ênfase é colocada na questão da construção do
auto-erotismo e da defusão pulsional, da passagem do corpo
fragmentado, auto-erótico, para um corpo unificado através
do narcisismo. Corpo atravessado por um outro: é através do
investimento libidinal da mãe no próprio corpo e no corpo do
bebê que vai se instaurar o prazer com o próprio corpo.
Marcado pelo olhar interditante do pai em sua função de desligamento
da relação dual e indiferenciada da mãe e bebê, para
que se estabeleçam os limites, as fronteiras, a instauração da lei.
O acesso à representação do corpo não pode se restringir
somente à imagem. É a dor – e a primeira delas é a ausência– que nos acede a uma representação do corpo. E aí está
colocada a dimensão masoquista na constituição do corpo.
O desdobramento das falhas nesse período poderá, no
limite, ter conseqüências desastrosas: dificuldades de percepção
das sensações internas e externas, distorções da imagem
corporal de proporções por vezes delirantes, dificuldade em
discriminar as fronteiras entre dentro e fora, entre eu e o outro,
entre pensar e sentir, realidade e fantasia, representável e irrepresentável,
negativação da dor... Verdadeira clivagem entre
ego e corpo. Não por acaso, André Green sugere que se compreendam
essas patologias como borderlines.
Mais adiante, avançando na compreensão metapsicológica
de tais patologias, Maria Helena aborda a questão do desejo e
sua negação, centrando-se em especial na perspectiva psicótica.
E chama a atenção para a importante participação do mecanismo
de recusa, que irá emprestar uma “coloração de perversão”
na organização do funcionamento psíquico destas pacientes –
esse algo a mais, esse além da neurose. Além disso, seu querer se
apóia sobre a recusa do objeto; e aqui se pode acrescentar a dimensão
aditiva, presente no perverso. Na tentativa de se proteger do
vazio interno e do risco de perda do objeto, “fabricam” faltas indefinidamente.
Mas a insatisfação estará sempre presente, seu motor.
Um ideal distante e absoluto. E é na impossibilidade de elaboração
da angústia de castração que o mecanismo de recusa parece
incidir sobre o próprio corpo do sujeito, que, elevado à categoria
de fetiche, irá situar essas patologias na fronteira da psicose.
E, então, podemos observar o trabalho de ligação do arsenal
conceitual da metapsicologia para dar conta da interface
entre o sujeito contemporâneo e a cultura, colocando em evidência
a recusa da alteridade, da morte e do tempo.
Corpo idealizado como forma de fetiche, negação da
incompletude, do envelhecimento, da morte, da vulnerabilidade
humana. A urgência e a intolerância com as exigências da
realidade, a abolição da temporalidade, das contradições, interdições
são figuras perfeitas do mecanismo de recusa da castração
e clivagem, evitamento do pensamento reflexivo, do sofrimento
e da dor. E seus correlatos, o triunfo da imagem sobre a
percepção, o declínio da interioridade, da inflação do eu. Ao
que Guy Débord chamou de “cultura do espetáculo” e, mais
tarde, C. Lasch, de “cultura do narcisismo”. “Diante deste culto
desmesurado do eu (...) parece que estamos diante de uma substituição
das funções do ego pelo papel de ego ideal” (p. 269).
Maria Helena se pergunta: “comer ou não comer, eis a
questão”. Como vimos, a questão está bem em outro lugar.
Essa exaltação do ego ideal, escravizante, revela a impotência
e o interior desértico em que vivem. Na ilusão de “se acharem”,
se perdem e se desencontram em sua singularidade, na
falência de serem sujeitos de seu desejo e de suas vidas.
Buracos e fendas obturados, engessados por manobras
absurdas, suas condutas seriam um estilo de vida? Blindagem
que abriga em seu avesso o intenso sofrimento do vazio da
vida. Fome: de tudo, menos de comida...
Este livro é precioso não só pelo rigor e pela naturalidade
com que a autora transita entre conceitos, teorias e autores, mas
pelo impacto que provoca no leitor. Seu interesse genuíno na singularidade
do sofrimento, seu encanto pela “irredutibilidade imprevisível
do homem”, faz de seu trabalho um compromisso realmente
encarnado, aposta, esperança. Uma clínica da delicadeza.
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