Ficha de assinatura e nº avulso / Onde encontrar ide
200
Editorial
Jassanan Amoroso Dias Pastore
Foi ao abordarmos o entrecruzamento da Psicanálise
com a Cultura, no número anterior da revista, que a
problemática das fronteiras emergiu. Fronteira tomada como
lugar onde se destaca o Outro – diferente/estrangeiro/temido/sonhado – no nosso imaginário.
As questões que se relacionam com a posição do estrangeiro
estão entre os problemas mais candentes que a
humanidade tem enfrentado. Temos vivido períodos de
guerra e de terrorismo entre nações, comunidades, etnias,
raças, religiões, períodos que impõem pensar sobre o lugar
ocupado pelo estrangeiro no contemporâneo.
Se, de um lado, a figura do estrangeiro se situa na fronteira
do subjetivo e do singular com o social e com a pólis, para
a psicanálise o conceito de estrangeiro traz outra marca, que
coincide com aquele estranho-familiar que não quero ser eu,
mas que, não obstante, habita em mim. Nesse sentido, o homem é sempre, por definição, um estrangeiro; ele é impelido
por algo que lhe é estrangeiro e não é integrado em si mesmo.
Interrogar o estrangeiro é interrogar as relações do eu com o
outro, mas, sobretudo, com o outro de nós mesmos.
Em seu texto Psicologia de grupo e a análise do ego,
Freud alerta para a dimensão social da vida fantasmática, para
o fato de que a Psicanálise, ao formular uma psicologia do
indivíduo, comporta sempre também uma dimensão social
e coletiva, ou seja, o outro é parte integrante de nossa constituição,
considerado que é a partir de quatro posições:
Na vida psíquica do indivíduo, o outro é freqüentemente
tomado em consideração, seja como modelo, seja como
objeto; ou ainda como aliado, ou como adversário; por isso é
inteiramente justificável que se considere a psicologia individual
também, desde o início, ao mesmo tempo, como psicologia
social, no sentido amplo do termo.
Estaria incluída aí a referência ao(s) outro(s) da cultura
e da sociedade – esferas que possibilitam as identificações
e contraposições, as ligações de pertencimento e de exclusão,
entre o sujeito e o outro. Entretanto, na relação com
a cultura e com a alteridade, em certas circunstâncias, criase
a condição que tem sido chamada de estrangeiro. Indagar
sobre essa condição foi o nosso tema.
Orientados por essas considerações, procuramos investigar
o lugar do estrangeiro sob alguns ângulos da cultura
atual: num mundo globalizado, com ideais de homogeneidade;
nos regimes políticos, nas religiões e nas
diversas formas de preconceito e de segregação. É na interpenetração das três grandes correntes do pensamento
teológico-político do Ocidente – a saber, o judaísmo,
o cristianismo e o islamismo – e nas tentativas de pôr em
evidência os paradoxos e as possibilidades da democracia e da
tolerância no mundo contemporâneo que o cerne da questão
do estrangeiro se mostra inventariado. Nesse registro, é relevante
a contribuição de Freud, ao questionar, em Moisés e o
monoteísmo (1934-38), as noções de origem e de identidade
como instâncias homogêneas e estáticas, e ao considerar que
todas as formas de identidade e de origem, que se pretendem
uma e una, têm antecedentes diversos. Assim, como sujeitos,
constituídos de matéria tão informe e múltipla, somos condenados
a identidades provisórias.
O percurso rumo ao reconhecimento do estrangeiro
em nós mesmos transporta-nos para uma terra desconhecida,
em que as fronteiras são permanentemente desfeitas e reconstruídas.
Hostilidade e hospitalidade, desagregação e
agregação, exílio e habitação, desterro e morada, desenraizamento
e pertencimento coexistem na arriscada travessia de
acolhimento do estrangeiro. Jacques Derrida ilumina a questão,
ao trazer a idéia de “desconstrução” como princípio fundador
da hospitalidade. Desconstrução permanente dos instrumentos
metodológicos e epistemológicos da psicanálise
diante do estranho que nos aparece a partir da denominada “mundialização da cultura”.
Os textos mostram que não se trata, pois, de assimilar
o estrangeiro e, ainda menos, de “apagá-lo”: cabe à psicanálise
sustentar o debate a respeito de como abrir lugar a ele,
no sentido de admiti-lo e tolerá-lo no inquietante estranhamento
que é de todos nós – ou seja, de como pensar o sentimento
de ser estrangeiro tendo como horizonte a perspectiva
da hospitalidade que tende a incluir o exercício do jogo
da convivência entre identidades flutuantes e díspares em
busca de um lance incerto.
Podemos depreender, a partir das reflexões contidas
neste número, no que se refere à posição da psicanálise na
contemporaneidade, que precisamos, no mínimo, de uma
crítica que não se restrinja apenas ao nosso próprio campo,
mas que se amplie pelos planos da cultura e da sociedade,
em interlocução permanente com outras formas do pensar.
Desse modo talvez possamos lidar clinicamente com as múltiplas
formas de subjetivação que nela se apresentam, incessantemente,
num mundo cada vez mais (des)encantado no
que diz respeito à “visitação” do estranho.
Jassanan Amoroso Dias Pastore
R. Capote Valente, 432/82 – Pinheiros
05409-001 – São Paulo – SP
Tel.: 11 3081-4349
jassanan@uol.com.br
Os muitos e o Um:
Logos mestiço e hospitalidade
Olgária Chain Féres Matos
Resumo
O objetivo do ensaio é indicar de que maneira o princípio de identidade
metafísico se traduz, na política, em fundamentalismos políticos e preconceito.
Toda origem é, em si mesma, mestiça, porque mista e misturada. Assim,
do puritanismo estético aos fundamentalismos religiosos e ódios étnicos, opera
a exclusão do Outro, do diverso, do contraditório, segundo uma lógica da
evidência e do incontrovertido. Reconhecer o Outro dentro de nós é acolher
um logos híbrido e plural que se traduz em cosmopolitismo e hospitalidade.
Resumo
Consideramos fundamentais as coisas que não podem ser submetidas à troca, em torno das quais não devemos negociar. Concebemos
nossa civilidade como um produto de nossas crenças fundamentais, e, no
entanto, são precisamente essas crenças que nos levam a perder nossa civilidade.
A este quadro a psicanálise veio a acrescentar que estamos com
freqüência enganados quanto às coisas fundamentais e que nem sempre
agimos em nome do que pensamos agir. Isso faz da situação analítica um
espaço útil para se discutir nossa adesão a valores fundamentais e o nosso
aparente temor quanto ao fundamentalismo.
Resumo
O objetivo do texto é compreender certos traços de uma conduta
que ganha generalidade na época contemporânea: a indiferença. Não se
trata apenas de um comportamento, mas de um modo de ser, razão pela
qual é preciso relacioná-la com a construção da subjetividade e com a experiência
da alteridade. Para isso utilizamos como instrumentos de elucidação O
ser e o nada, de Sartre e O homem sem qualidades, de Musil, procurando
indicar que, na filosofia da existência a alteridade interna ao
sujeito torna-se meio de constituição da subjetividade por via da liberdade,
e no romance de Musil a ausência de unidade substancial redunda
na dissolução da realidade subjetiva e na opacidade do mundo objetivo.
A indiferença aparece então como uma conduta específica, embora contenha
elementos da familiaridade e da estranheza.
A metapsicologia no horizonte estético:
Assombro e estranhamento
Luiz Carlos Uchôa Junqueira Filho
Resumo
Este artigo procura estabelecer algumas raízes essenciais na caracterização
da metapsicologia como um recurso psíquico econômico, dedicado
a representar as experiências emocionais através de “artimanhas
estéticas”. A primeira influência apresentada é o estado de mente de “estranheza”
descrito no artigo Das unheimliche de Freud, o par de adjetivos
heimliche/unheimliche sendo considerado o termo metapsicológico
por excelência. A segunda influência é a contribuição da “Escola Britânica
de Estética Psicanalítica”, com destaque para os conceitos de “conflito
estético” e “reciprocidade estética” de Meltzer e Meg Harris Williams,
ilustrados através de uma análise crítica do poema “The tiger” de
William Blake; a formação de ideogramas proposta por Bion é exemplificada
clinicamente para ressaltar suas implicações econômicas e estéticas.
Finalmente, é apresentado um exemplo de “unheimliche cultural”,
um embate imaginário entre um cavaleiro medieval, Sir Lancelot, e o nosso
Lampião, rei do cangaço.
O vôo do corvo sobre os jardins
da Torre de Babel
Luiz Felipe Pondé
Resumo
Este texto discute o mito da torre de babel tal como aparece na obradofilósofo
inglês contemporâneo Michael Oakeshott. Um mito narra uma
estrutura ancestral damente humana, nos seus aspectos sociais e psicológicos.
Oakeshott trabalha a torre de babel em duas chaves: via filosofia moral,
criticando o excesso de racionalismo na moral moderna e iluminando
a importância da moral do hábito e do afeto, duramente desqualificada pelo
projeto do “paraíso moral racional”, e em seguida, via um ensaio literário
onde ele retoma o mito de babel para apontar os sintomas psico-sociais
de uma sociedade maníaca pela construção social do paraíso.
Palavras-chave
Afeto. Hábito. Perfectibilidadade. Racionalismo. Torre de babel.
Resumo
O autor enfatiza na concepção freudiana do sexual a descoberta de
uma indeterminação, de uma imprevisibilidade a priori em seu âmago, e
que a torna irredutível, na singularidade que assume em cada um, a qualquer
projeto que busque ordem e previsibilidade na condição humana,
em sua inserção social. O sexual freudiano encontrado pela psicanálise é,
portanto, de saída, refratário a todo projeto racionalista, tanto científico
como político, característicos dos ideais da modernidade.
Nas sociedades ocidentais atuais, a liberalidade e uma certa
liberdade em relação aos comportamentos sexuais parecem levar, paradoxalmente,
apesar dos ganhos que representam, a uma sexualidade “domesticada”,
conformista, a um simulacro do sexual como forma contemporânea
de sua repressão.
Palavras-chave
Modernidade/pós-modernidade. O sexual. Totalitarismo.
Amor e sexualidade:
Uma linguagem extraviada
Jassanan Amoroso Dias Pastore
Resumo
Tomando como ilustração o romance e o filme O cheiro do ralo,
este ensaio procura discutir a concepção psicanalítica de sexualidade que
não admite necessariamente uma coincidência dessa com amor e vida, reunidos em torno de Eros, e desenvolver a idéia de uma espécie de amor
que rompe o elo com Eros e se liga à pulsão de morte (Tânatos).
Resumo
O texto trata da questão da construção da representação psíquica
do corpo próprio e da aquisição da diferença sexual. Baseado no estudo
do transexualismo e dos chamados “estados intersexuais”, ou pseudohermafroditismo,
o autor discute como o corpo é percebido nestas duas
configurações psíquicas e analisa os elementos presentes na construção
do sentimento de identidade sexual e suas relações com o corpo. No transexual,
o corpo é visto como estrangeiro, pois em desacordo com o sentimento
de identidade sexual; nos intersexuais, o corpo torna-se estrangeiro
quando o sujeito é informado que não pertencer ao sexo que lhe
fora atribuído, fazendo emergir um real que não corresponde aos universais
da anatomia em relação às categorias do masculino e do feminino.
A partir daí, coloca-se a questão da diferença dos sexos: em que consiste
essa diferença? Onde ela se situa? Na linguagem? Na lei? Será ela
apenas um operador?
Palavras-chave
Corpo próprio. Diferença sexual. Estados intersexuais. Identidade
sexuada. Transexualismo.
O olhar sobre o estrangeiro
Fanny Blanck Cereijido
Resumo
A palavra estrangeiro contém a raiz grega xenos e exprime o desprezo
e a estranheza suscitados pelo que se considera estranho, alheio, bárbaro
e indesejável. O preconceito é a parte inconsciente da ideologia da
sociedade que justifica a discriminação, a separação e a exploração de um
grupo por outro. Racismo e ódio pelo estrangeiro implicam a impossibilidade
de se desenvolver sem desvalorizar, excluir e odiar os que são diferentes.
Atribuir traços indesejados ao outro provém da necessidade de
proteger a coerência da própria imagem. O ódio racista dá lugar ao ódio
pela cultura, costumes, tradições e religião do outro. Sem dúvida, há forças
libidinais ligadas ao outro que permitem a integração dos estrangeiros nas
sociedades. Simultaneamente ao desenvolvimento do racismo moderno,
surge uma descoberta etnológica de grande importância que confirma o
mito adâmico que propõe uma única origem para a humanidade.
Palavras-chave
Estrangeiro.Etnocentrismo. Outro. Prejuízo.
Racismo: Uma questão
cada vez mais delicada
Caterina Koltai
Resumo
Este trabalho pretende discutir o racismo entendido como sintoma social,
como forma de mal-estar na civilização. Aborda seu recrudescimento nos
dias atuais e a forma que vem assumindo travestindo-se de anti-racismo, como é o caso das políticas de discriminação positiva.
Partilha, testemunho e
formas contemporâneas do excessivo
Paulo Endo
Resumo
Este artigo discute os testemunhos como formas de oposição às catástrofes.
Examina a produção testemunhal escrita e oral como expressões
radicais da linguagem. O autor analisa a representabilidade testemunhal à margem da representação. Do mesmo modo e juntamente com
diversas produções escritas e orais, destaca o trabalho psicanalítico como
espaço privilegiado de produção testemunhal: o testemunho do inconsciente,
do trágico e do traumático.
Resumo
O ensaio propõe, com Freud, que a crueldade é fundamental na
relação com o outro, e há, portanto, uma violência inerente à cultura.
A psicanálise é o campo cultural que trata privilegiadamente da incidência
dessa violência sobre nós, ou seja, do trauma. A arte contemporânea,
porém, pode também convocar a força do trauma, da crueldade que nos
constitui, graças à apresentação do objeto em sua dimensão de objeto caído,
dejeto. Trabalhos do artista luso-brasileiro Artur Barrio são trazidos,
nesse contexto, para um diálogo com as idéias de Jacques Lacan a respeito
do chamado objeto a.
Palavras-chave
Arte contemporânea. Cultura. Outro. Violência.
Resumo
Nesse texto, a autora parte das considerações de Freud sobre o estranho
(unheimlich), reconhecendo sua importância e reservando-lhe
um lugar especial, dentro da teoria psicanalítica e do trabalho na clínica.
Ilustra a escrita com os trabalhos antropológicos de Lévi-Strauss e Roger
Bastide, e com vinhetas extraídas da clínica.
Notas sobre o conto “O espelho”,
de Guimarães Rosa
Yudith Rosenbaum
Resumo
Partindo do conto “O espelho”, de Guimarães Rosa, a autora busca
algumas aproximações entre cinema, literatura e psicanálise, discutindo
aspectos referentes ao imaginário e seu enlace com o real.
O grotesco, o estranho e a feminilidade
na obra de Cindy Sherman
Alessandra Monachesi Ribeiro
Resumo
O presente artigo traça um percurso, a partir das obras da artista plástica
Cindy Sherman, no qual a feminilidade é repensada fora da dico tomia definidora
dos campos masculino e feminino, em que os mesmos se articulam
em torno da lógica fálico / castrado. Por meio do trajeto da artista, é possível
aproximar o feminino do grotesco e, conseqüentemente, do estranho, conceito
psicanalítico que aponta para uma região de fronteira, que escapa à possibilidade
de circunscrição no âmbito do psíquico e do simbólico. Com isso, a
feminilidade revela-se como outra via de subjetivação possível em nossos tempos,
a ser perscrutada pelo campo psicanalítico.
Resumo
Este artigo mostra a potência crítica e a função interpretativa que
a arte produz no discurso social. Analiso alguns aspectos da relação entre
arte e psicanálise a partir de um trabalho de Arthur Bispo do Rosário
intitulado Podium, que tem a força de interrogar o poder inscrito em todos
os “pódios sociais” que produzimos. A partir de uma leitura da obra
de Bispo desenvolvo algumas relações entre criação, arte e utopia.
Palavras-chave
Arte. Arthur Bispo do Rosário. Poder. Utopia.
Em que língua teria Édipo
conversado com a esfinge?
Joyce Kacelnik
Resumo
A autora, a partir de sua experiência pessoal e de uma pesquisa da história
da psicanálise, pretende demonstrar o quanto a questão da língua estrangeira
ficou esquecida entre os temas psicanalíticos, o que pode ter ocorrido
pela própria resistência à questão do estrangeiro, do Unheimlich de Freud.
A autora parte da hipótese de que uma análise que se realiza em língua estrangeira
ficaria a desejar, comparada a uma análise realizada em língua materna
para a dupla analítica, e desconstrói tal idéia, esclarecendo que as diferenças
presentes não são impeditivas de um trabalho analítico criativo.
Palavras-chave
Língua estrangeira. Língua materna. Psicanálise.
Cinema, psicanálise; espectador, analista:
Campo, contracampo
Danilo Sergio Ide
Resumo
Freud (1914/1996d) analisa o Moisés de Michelangelo seguindo a
regra fundamental da psicanálise, tomada, porém, como regra de recepção:
a obra é analisada segundo a mesma atenção dedicada pelo analista
a um paciente. Nesse caso, obra e paciente tornam-se contrapontos: “o paciente como obra de arte” (Frayze-Pereira, 2004). Entretanto, na
aproximação entre cinema e psicanálise, busca-se comumente o paralelo
entre espectador e paciente. Ambos se assemelham pelo fato de estarem
submetidos a regras. Regra de produção, proposta pelo analista ao paciente:
tudo merece ser dito. Regra de recepção, proposta pelo diretor ao
espectador: tudo merece ser visto. Entretanto, o analista também está
submetido a uma regra de recepção: tudo merece ser ouvido. No cinema,
melhor seria contrapor dois planos, um do espectador e outro do analista,
montados como campo e contracampo.
Quem é estrangeiro
no mundo dos homens?
Eduardo C. B. Bittar
Resumo
Este artigo procura problematizar o uso corrente do termo estrangeiro,
trazendo à consciência a discussão a respeito das formas pelas quais se leva
em consideração, do ponto de vista ético, a dimensão do outro. Direcionase,
portanto, à compreensão dos dilemas da vida social contemporânea, e à
crítica leitura da sociedade globalizada.
O estrangeiro entre
a arte e a psicanálise
Ricardo Prado Pupo Nogueira
Resumo
O inconsciente se manifesta tanto sobre o psicanalista como sobre
o artista. Cabe ao psicanalista saber interpretá-lo, enquanto ao artista cabe
emprestar seu corpo para que através dele se faça arte. Nota-se que,
em práticas tão distintas, os dois apresentam formas muito semelhantes
de aproximação com as manifestações.
Palavras-chave
Arte moderna. Associação livre. Inspiração artística. Percepção.
Sintaxe do tempo nos tempos de hoje
Plinio Montagna
Resumo
O autor aborda algumas sutilezas da composição e do modo de vivenciar
o tempo no mundo mental, sua continuidade/descontinuidade, permanência/
impermanência, atemporalidade inconsciente, e problematiza a
aceleração e a condensação do tempo no mundo contemporâneo, de primazia
do presente. Relaciona essas questões ao tempo da sessão/processo
analítico, virtualidade do espaço transicional e considera implicações para a
possibilidade resiliente, hoje.
Desamparo e violência de gênero:
Uma formulação
Susana Muszkat
Resumo
O presente artigo, partindo de uma crítica às políticas públicas em violência
de gênero, pretende trazer ao leitor, as noções fundamentais da teoria
construcionista e de como as articulei com a metapsicologia freudiana, uma vez que vejo nessas duas teorias do conhecimento, um denominador comum
fundamental: o processo de desconstrução de paradigmas e modelos de funcionamento
fixos. Nesse sentido, o trabalho, embora focado mais exclusivamente
nas práticas violentas masculinas, tem como aspiração maior, evidenciar
um modo de se pensar e praticar o trabalho clínico psicanalítico para além
da clínica individual. Proponho uma distinção entre modalidades de atos violentos,
cunhando a expressão desamparo identitário. Essa proposição, embora
formulada a partir do estudo das práticas de violência masculina, carrega a
possibilidade de ser estendida, contribuindo na compreensão de fenômenos
de universos bem distintos, do âmbito social, individual e institucional.
Palavras-chave
Construcionismo social. Masculinidade. Psicanálise. Violência
de gênero.
Resumo
É feita uma síntese histórica do conceito de melancolia, desde a antiguidade
até os tempos modernos, estabelecendo relação deste conceito no
contexto social, cultural e psicológico.
O acontecimento e a temporalidade
O après-coup no tratamento
Jacques André
Resumo
O título deste artigo, “O acontecimento e a temporalidade”, indica
os dois pólos considerados. Enquanto a primeira entrevista de uma análise
dispõe das condições (quase) garantidas de um fenômeno de aprèscoup,
sob o duplo registro do trauma e da abertura, seu acontecimento no
desenrolar de um tratamento analítico é bem menos garantido. A conjunção
fecunda de um momento traumático com uma reorganização psíquica
conseqüente faz muitas vezes esperar, quando não cansa a própria
espera. “Nada acontece nesta análise”. As referências privilegiadas à repetição
do obsessivo ou à neutralização do processo, tal como se observa em
algumas configurações borderlines, correspondem ao desejo de abordar a
problemática do après-coup mais a partir de suas falhas, ausências ou formas
estranhas que de suas realizações bem-sucedidas.
O après-coup é uma questão de tempo. Não se pode isolá-lo de
uma concepção psicanalítica mais ampla da temporalidade. Insere-se
num conjunto do qual a afirmação freudiana da atemporalidade do inconsciente é a formulação mais original. Em sua generalidade filosófica,
o tempo não é objeto da psicanálise. No entanto, as formas da inscrição
psíquica do sujeito humano no tempo interpelam tanto a teoria analítica
quanto sua prática. Qual é o lugar, o papel, do efeito de après-coup no
processo de temporalização? Qual é o lugar do acontecimento na construção
da temporalidade?