Lourenço Mutarelli
A estranha arte de produzir
efeito sem causa*
Reconhecido por sua obra como desenhista de histórias
em quadrinhos, em que se destacam as grafic novels
Transubstanciação, de 1991 e a “Trilogia de 4”, do detetive
Diomedes, dos álbuns: O dobro de cinco, O rei do ponto e
A soma de tudo I e II, Lourenço Mutarelli marcou sua estréia
na literatura com o perturbador romance O cheiro do
ralo, de 2002, roteiro adaptado por Marçal Aquino para um
longa filmado por Heitor Dhalia, em 2007. Em seguida escreveu
as ficções: O natimorto: Um musical silencioso, São
Paulo: DBA, 2004, adaptado para o cinema por Paulo
Machline, em 2008 e para o teatro por Mario Bertolloto, e
A arte de produzir efeito sem causa, São Paulo: Companhia
das Letras, 2008. Escreveu também peças de teatro e atuou
em curtas-metragens e nas adaptações de seus livros.
***
ide: O que nos mobilizou fundamentalmente a realizar esta
entrevista com você foi a experiência de estranhamento
familiar, uma espécie de espanto mas também de empatia,
despertada na platéia, da qual fazíamos parte, por ocasião
da sua apresentação, aliás com um tom trágico-cômico impressionante,
de seu romance O cheiro do ralo, na Flip
(Festa Literária de Parati) em 2006. À medida que você foi
contando a respeito do protagonista, a maioria das pessoas
da platéia foi passando a detestá-lo e ao mesmo tempo a se
empatizar com ele. Algumas pessoas mudavam de lugar,
tentando se aproximar de você, enquanto outras levantavam
e deixavam a sala... E assim foi... O fato é que esta vivência
teve a força de resistir dentro de nós até hoje sustentando
o desejo de marcar este encontro.
Lá na Flip, você mencionou sua experiência com a
psicanálise e ficou em aberto dentro de nós um possível elo
entre a psicanálise e a sua criação literária. Gostaríamos que
você nos contasse se e como a psicanálise tem sido um instrumento
indireto de criação ficcional para você.
Lourenço Mutarelli: A minha primeira graphic novel, Transubstanciação
(1991), é um trabalho totalmente terapêutico.
Estava em depressão profunda, tinha tido muitos ataques de
pânico com agorafobia bem violentos, estava há três meses
deitado no mesmo lugar e era carregado pelos meus pais três
vezes por semana para o psiquiatra. Quando consegui melhorar,
comecei a fazer esse trabalho, que foi muito terapêutico.
A partir daí, fiz dez anos de psicanálise freudiana e tomo
medicação há muitos anos. Já fui diagnosticado como bipolar,
mas, meu atual psiquiatra não tem certeza disso, portanto
venho me medicando somente com antidepressivos e tranqüilizantes.
Costumo dizer que meu trabalho é um mergulho.
Em casa, trabalho em um lugar separado, no quarto da empregada,
onde eu mergulho e não gosto que minha família
entre lá. E, quando saio de lá, sou essa figura sociável e agradável
que está aqui (risos). Acho que é um bom começo, né?
Eu não me conheço inteiramente, mas o fato de me conhecer
bem me leva a dizer que, naquele intervalo de três
meses em que passei no inferno, pude fazer um mapa do inferno
e então posso voltar para lá quando quiser. Só que, da última vez em que voltei de lá, percebi algumas pequenas
portas e aberturas que não havia antes, e isso me preocupou
um pouco. Encontrei caminhos que não existiam no meu
mapa. Eu acho que o inferno se ramifica, e aí é mais fácil se
perder. Mas não vou deixar de ir até ele porque a minha vida é isso, é meu esporte radical, é minha auto-exploração.
Meu hobby é a demonologia. Eu gosto e acho divertido ler
sobre isso. Eu e meu filho de doze anos costumamos a assistir
juntos filmes meio fortes. Eu tenho um histórico familiar
complicado e ele, desde pequeno, acompanha um irmão
meu muito problemático, esquizofrênico, viciado em
crack, que já virou mendigo, vive preso e internado. Desde
muito pequeno meu filho percebeu isso e, desde então, a
gente conversa sobre isso, porque ele presenciou cenas muito
fortes quando criança. Meu irmão não mora comigo, não
mora com ninguém, vive internado ou nas ruas. Então, como
tem filmes que eu gosto e assistimos juntos, sempre conversei
muito com ele... Tenho muito medo, é muito difícil
ser pai, muito mais do que ser filho. Mas é isso, meu filho
existe. Tento ser bastante... pai com ele. Faço o possível.
Eu costumo dizer que, se eu fosse mais espiritualista,
diria que eu psicografo o que escrevo porque escrevi O cheiro
do ralo em cinco dias, em um carnaval em que estava sozinho,
quando minha mulher e meus filhos tinham ido viajar.
Escrevo muito por cadência... ouço muito música direconcreta,
minimalista, porque sinto, nitidamente, que esse tipo
de música atinge áreas do meu cérebro – quando estou
em estado de concentração – que não seriam atingidas de
outra forma, e isso me traz idéias que talvez não tivesse sem
esse momento de fruição. Eu escuto obras muito longas,
muito complexas, e gosto de ficar ouvindo-as até que elas se
transformem em uma música para mim e me tragam emoção.
Quando em algum momento algo se torna familiar e me
emociona, escolho a emoção que quero desenvolver. É mais
ou menos assim que é meu trabalho criativo com texto.
Quando acabo um livro, não acho que ele seja meu.
Não tenho nenhum livro, nenhum quadrinho, não acho
que nada do que fiz seja meu. Acho que o livro é de quem
lê. Então, sobre participar da adaptação não é mais comigo.
O livro O cheiro do ralo foi publicado em 2002 e eu o
li somente uma vez, logo após sua chegada da gráfica, depois
nunca mais li. Escrevi e li só uma vez.
ide: E como foi a leitura?
L. Mutarelli: Foi estranha. Na primeira leitura não sabia o
que era aquilo ainda. Eu tinha escrito muito rápido e depois
fiquei uns dez dias mexendo em alguns trechos – mais
enxugando do que acrescentando – e mandei para a gráfica.
Quando ele voltou de lá, me acomodei como faço quando
leio um livro que não foi escrito por mim, e me tocou
em muitos pontos. Gostei de muitas coisas, como a cadência.
Quando a gente foi, não sei quantos anos depois, filmar,
disse a eles que eles conheciam o livro melhor do que
eu, já que nunca mais eu o tinha lido. Disse que adoraria
participar, fazer qualquer personagem, mas que não podia
opinar. Adaptação já é outra coisa, não é o livro, o livro já
era. Então, eu tenho uma relação não problemática com a
adaptação, porque não tenho apego. O único livro ao qual
tinha certo apego era O natimorto, mas tive que me desapegar
porque tinha uma dívida ruim que precisava pagar.
Mas, enfim, fui muito feliz com as pessoas que foram escolhidas
para adaptar meus dois livros.
Quero muito que as pessoas assistam O natimorto.
Vi recentemente o segundo corte e gostei muito. Não sei como é para as pessoas que não leram o livro, não sei se o filme
dá a dimensão do livro... Não dá, não dá em profundidade,
porque no livro você entra na cabeça do personagem
em que ele explica e amarra uma série de questões. Mas,
acho que o filme está bem interessante.
ide: Como foi para você a experiência de estar nesses dois
lugares tão diferentes entre si, como o da criação e o da atuação
como personagem nos filmes, feitos a partir da adaptação
de suas obras O cheiro do ralo e O natimorto?
L. Mutarelli: O Heitor Dhalia, diretor do filme O cheiro do
ralo, queria que eu atuasse de algum modo no filme, porque
eu já fazia os testes com os atores, quando o Selton Mello não podia, e também porque eu já tinha feito um
curta-metragem como ator. Então, ele pediu para eu escolher
um personagem e eu respondi que era para ele escolher.
Ele escolheu que eu interpretaria o segurança, por causa
do meu porte (risos) e aí virei o segurança.
Já me propuseram também a direção dos filmes de adaptações
de meus livros, mas não quero dirigir cinema. Tenho
vontade de dirigir teatro, já me ofereceram um espaço e eu
só preciso administrar meu tempo para isso. Mas não tenho
a menor vontade de dirigir cinema, porque envolve
trabalho de equipe e, como criador, eu não acredito em
equipe, não seria uma coisa boa para mim, acho que eu viraria
um ditador ou alguma coisa assim e eu não costumo
ter essa postura (risos).
O cinema é muito difícil, porque é muito fragmentado.
Você faz uma cena dentro de milhões de limitações.
Há uma fita crepe no chão, até onde você pode caminhar e
estar em foco, é preciso prestar atenção na luz para não causar
sombra na pessoa com quem está contracenando, tem
que ter seu texto e esperar o momento certo de falar, porque, se os dois falarem ao mesmo tempo, atrapalha o som.
Há muitas limitações. A gente ensaia ou estuda, a cena vai
se passar aqui, mas quando estamos nela, ela vai ser totalmente
limitada e é preciso fazer, às vezes, cinco vezes a mesma
cena. Existe emoção, existe uma coisa que prefiro chamar
de “evocação” ou até “invocação”, mas tudo isso tem
que estar dentro de uma série de restrições. Como acontece
também em outras coisas – por exemplo, na própria escrita – quando você quer dizer uma coisa e não tem palavras. É mais ou menos isso, mas na filmagem são muitas,
são restrições geográficas, espaciais. As pessoas, infelizmente,
não percebem, não vêem. Parece que foi tudo filmado
em uma seqüência e nem sempre é assim. Ainda mais
quando se trabalha com uma única câmera e não há como
cobrir um mesmo momento, em dois pontos distintos.
Mas, existe emoção também.
Eu tenho um problema com a técnica, com toda e
qualquer técnica. Por exemplo, tive a preparação física para
O natimorto e foi incrível: abri um leque gigantesco de
possibilidades que não sabia que existiam em mim. Quando
se descobre a técnica, você expande, mas depois de um
tempo, vira prisioneiro dela. A técnica não é nada mais do
que um truque. São truques que você vai aprendendo – como
manipular certos instrumentos com um pouco mais de
destreza ou precisão – até que se chega a um ponto em que
não se consegue mais fazer sem a técnica. E isso não é uma
coisa que venho buscando, não quero ter técnica demais na
atuação. Por isso também não quero atuar no teatro, por
que lá tem que ter muita técnica, como, por exemplo, para
projetar voz. Você vive muito mais aquela cena, integralmente,
quando está lá, mas é preciso ter muita técnica e não
pretendo adquiri-la.
Pretendo dirigir só teatro, porque, o que faço, é brincadeira,
experiência. Mas não vou fazer um curso de direconcretação, por exemplo. Minha primeira peça: O que você foi
quando era criança, foi indicada para o Prêmio Shell.
Eu não considero o teatro uma coisa sagrada. Respeito muito,
mas estou brincando, não vou ser Shakespeare. Acho
que, às vezes, as pessoas respeitam demais algumas coisas e
por isso elas se repetem tanto. Acho que deveriam colocar
assim: é isso que quero fazer e posso fazer desta forma e
pronto; e é isso que talvez possa ser diferente, novo, inovador:
estar liberto da técnica. Até a faculdade, por exemplo,
nunca estudei nenhuma técnica de desenho, não sabia nada.
Comecei pintando com remédio e tinta que minha mãe
usava para tecido. Todos os remédios que tinham cor, e que
eu tomava, eu usava para pintar. Trabalhei em uma farmácia
e experimentei todos os remédios, até anticoncepcionais,
nem sabia o que era isso. Disse: “quero tomar todos”.
Aí tive uma reação alérgica e quase morri.
ide: Umas das personagens que mais nos impressionou em
O cheiro do ralo é aquela moça viciada que transborda dor
por todo o corpo. Queríamos te ouvir como você pensa a
relação entre a dor e a criação.
L. Mutarelli: O Heitor me apresentou a atriz que interpreta
a viciada no dia em que ela veio fazer o teste. Ela era toda
bonitinha, gordinha, pequenininha. Acho que emagreceu
oito quilos para fazer o papel. Todo fim de cena eu a
abraçava e pedia desculpas porque uma coisa é o texto que
escrevo para um livro em que o leitor entra, se quiser, participa
e cria também. A imagem já é algo que te prende e
que te manipula demais e por isso estava cansado dos quadrinhos.
A imagem retira a parte criativa do fruidor. Então,
quando vi a primeira cena com a viciada em que o vendedor
da loja se masturba na frente dela, pensei: “Pô, esses caras
são loucos, que coisa horrível...”. Porque uma coisa é
um texto escrito, num livro, e outra é aquela imagem. Eles
me dizem que fui eu que criei aquilo, mas eu criei para um
texto que seria construído por cada leitor. Algumas cenas
parecem de maneira muito mais horrível do que eu tinha
visualizado. Então, outra coisa é você ver isso. Conversei
um pouco com esta atriz sobre o meu irmão, sobre quanto
sofrimento existe no vício e que eu achava que há uma tendência
a não mostrar esta dor. Por ex., no filme Meu nome
não é Johnny não há sofrimento, então, não é uma história
de vício. Ah, a criação... eu sofri bastante e tinha, de alguma
forma, que trabalhar com isso.
Nos meus personagens recentes, tenho trabalhado
muito uma sensação que tenho tido. Eu durmo pouco, tomo
medicação e bebo – agora voltei a beber, meu médico
não gosta, depois de quase uma década sem beber – e às vezes,
quando estou acordando, tenho muita dificuldade de
lembrar dos meus sonhos. Mas, percebo quando estou entrando
e saindo da vigília e me deu uma impressão um
pouco forte e assustadora de que todo dia, nesse percurso
de voltar para a vigília, a gente tem que reinventar tudo, toda
a nossa história, em segundos. E não é lembrar. É inventar.
Então, cada vez confio menos nas minhas lembranças,
que aparecem por imagens. A gente lembra como imagens,
como um filme, mas elas me convencem cada vez
menos. Acho que existe uma grande manipulação nossa
nisso. Por outro lado, como tive uma vida sempre muito difícil,
e ela foi melhorando – costumo brincar que era muito
maltratado e agora estou me acostumando a ser bem tratado– talvez isso também esteja mudando alguma coisa,
talvez até floreando meu passado.
Vou contar exemplos do que eu acredito serem verdades.
Meu pai era delegado de polícia, um artista frustrado,
fazia teatro, desenhava e pintava, mas não conseguiu nada
com isso e entrou para a polícia, tornando-se um homem
muito violento. Eu apanhava quase diariamente e a razão de
eu apanhar era o fato de ter uma irmã mais velha e um irmão
mais novo. Um exemplo clássico foi quando meu irmão
subiu no beliche, junto com meu primo, e pulava na
cama da minha irmã, e eu fiquei do lado do meu pai porque
eles iam quebrar a cama e eu não queria apanhar. Eles
quebraram a cama e meu pai ficou muito furioso. Ele me
chamou e disse que precisava bater em alguém porque estava
muito nervoso por terem quebrado a cama, mas que não poderia bater no meu primo e nem no meu irmão, por ser
muito pequeno, e que então iria bater em mim. Pediu para
que as pessoas saíssem de dentro do quarto e me espancou
de tal forma que fiquei uma semana sem conseguir andar
direito. Uma outra era a de que ele não podia bater na minha
irmã, porque era mulher, e ele não iria agüentar. Então,
um personagem meu diz uma vez que a vida sabe bater e
que ele aprendeu a apanhar. E foi isso, eu aprendi a apanhar.
A nossa relação melhorou muito com o tempo, mas eu tive
episódios assim, por exemplo: quando tinha dezessete anos,
ele me ligou para que eu fosse para delegacia com uma desculpa
qualquer, e, na verdade, era para que eu assistisse a
uma sessão de tortura. Ele entrou com dez policiais, me
apresentou uma pessoa e falou que aquele era um homem
inocente e que ia me mostrar como se transforma um inocente
em culpado. Eles tinham perdido um prisioneiro que
precisavam entregar e levaram esse outro para lá... Dava para
ouvir uma música do Black Sabbath, que eu já havia escutado
em casa e meu pai associou com tortura; eu tinha
respondido que não tinha nada a ver, porque tinha muita
gente rindo... - a música termina com uma pessoa chorando
e muitas outras rindo. Mas aí ouvi a música lá dentro!
Tive que ter uma força absurda para... Era tortura mesmo...
e durou até a pessoa se converter em culpado para eles.
Então, sempre convivi com esse tipo de peso. Era uma pessoa
que eu amava, era meu pai. Tive que tentar lidar com essas
coisas e acho que consegui. A terapia me ajudou muito.
Quando tinha dez anos de idade, minha mãe me perguntou
o que eu queria de aniversário e respondi que queria
ir a um psiquiatra, porque tinha umas coisas na cabeça,
tinha umas sensações, via umas coisas muito coloridas, via
coisas com halos... Eu sentia que precisava ver o que
era. Uma vez fiquei perdido em um lugar aonde a gente
sempre ia. Perdi totalmente o senso de direção, então eu
achava que precisava de alguma ajuda. E quando pedi isso,
ela me deu um tapa na cara, que a minha cabeça deu quase
três voltas, porque naquela época psiquiatra era coisa de
louco. Quando tinha dezesseis anos, tive problemas com
drogas, e aí eles me levaram e foi quando comecei a fazer
psicanálise. E foi muito bom para mim, porque eu queria
isso. Eu queria entender, queria ir junto. Eu tive vários analistas,
até este atual, com quem fiz mergulhos extremamente
profundos, em uma época em que, obviamente, devolvia
toda essa carga de violência que recebi. A minha
adolescência foi uma adolescência bastante conturbada.
Meu pai morreu de mão dada comigo, enquanto tomava
uma injeção de morfina por causa de um câncer que
ele tinha. Esse foi outro momento... Foi o fim de um ciclo,
um dos momentos mais intensos que já vivi.
ide: Isso causou algum impacto na sua produção?
L. Mutarelli: A morte de meu pai? Sim, eu resolvi parar de
fazer quadrinhos, porque o que meu pai mais gostava eram
os quadrinhos e eu os fazia para ele. Então, não havia mais
sentido continuar. É muito trabalho e ele não pode mais vêlos,
então não tenho por que fazer, não iria fazer só para
mim. O meu primeiro álbum eu assinei com meu nome de
batismo que é Lourenço Mutarelli Junior. Aí, percebi que
precisava tirar o Junior, como um presente para meu pai, de
certa forma. Meu pai tinha uma coleção muito interessante
de quadrinhos, ele gostava muito. Ele tinha os clássicos dos
quadrinhos. Tínhamos muitos livros em casa e a gente sempre
teve total acesso e liberdade em relação a isso. Foi um
momento em que a gente tinha alguns diálogos. No começo,
teve uma coisa curiosa... Ele acompanhava meus desenhos,
mas de modo distante. Eu publicava em revistas. Mais
tarde, voltamos a dialogar sobre cinema, porque ele amava
cinema e a gente via muitos filmes juntos. Ficamos muito
amigos, não no fim da vida dele, mas antes disso, quando
ele se aposentou, principalmente. Então, desde cedo eu via
muito quadrinho e, sempre que escrevia alguma coisa, fazia
um desenhinho e sempre que desenhava alguma coisa, escrevia
uma frasezinha. Percebi que era a melhor forma para
conseguir me expressar e, depois, para conseguir me comunicar,
o que foi mais difícil e levou mais tempo também.
Na verdade, a minha vida foi um drama mexicano, mas
agora está tudo em ordem. Houve momentos que não foram
fáceis e o meu trabalho sempre foi uma válvula de escape.
ide: O desenho e a escrita fluíram desde cedo na sua vida...
L. Mutarelli: Eu desenho desde muito pequeno. Lembro
que, quando fiz meu primeiro desenho, foi a primeira
vez que fui tratado de maneira respeitosa. Aí comecei a desenhar bastante, porque queria ser tratado assim, com
respeito. Também nunca soube fazer mais nada, era uma
negação em tudo.
ide: Você acha que sua literatura pode ser considerada como
uma obra mítica, no sentido de estar revestida por uma
história pessoal?
L. Mutarelli: Tento fugir da história pessoal, às vezes a utilizo
como experiência para um novo personagem, mas sempre
percebo que, num determinado ponto, estou misturado,
bem misturado. Às vezes, enquanto estou fazendo a
obra, não percebo isso. Mas percebo depois, na publicação,
quando começo a identificar alguns aspectos com minha
história. Tem uma coisa que eu adoro: identificar de onde
veio cada peça daquela estória na minha história. Às vezes
consigo perceber um caco, que se junta com outro, e com
outro, e me surpreendo com a origem das experiências.
Gosto também de criar metáforas para certas situações.
Minha mulher insistia para que eu escrevesse minha biografia,
mas não posso, pois colocaria muita gente em julgamento,
e não quero isso. Acho que, de alguma forma, eu já o faço
de forma dissimulada. Meu trabalho é muito verdadeiro.
ide: Uma autobiografia ficcional?
L. Mutarelli: É, acho que misturo bastante. O personagem
que o Selton Mello interpreta em O cheiro do ralo é uma
antítese de mim, porque eu não sei comprar nem vender nada,
sem tomar prejuízo. Sou muito mal tratado no comércio.
Isso me revolta, porque às vezes me visto muito mal, tenho
esse cabelo do palhaço Bozo (risos). E aí fica só um
lado... (faz um gesto mostrando o cabelo arrepiado só de um
lado). Certa vez, entrei em uma loja e o comerciante me tratou
muito mal. Ia comprar um tapetinho e acabei comprando
o tapete mais caro; é uma coisa da qual me arrependo
até hoje. Foi só para mostrar que eu podia comprar
aquela merda, que ele não precisava me tratar daquele jeito.
Então, queria criar uma antítese, mas estou muito misturado
com o personagem.
ide: Logo após a Flip, nós compramos o romance e o lemos
quando ainda nem se sabia que existiria o filme. No romance,
os personagens são todos anônimos. Quando mais
tarde fomos assistir ao filme, levamos um susto ao ver logo
de cara o protagonista com o nome Lourenço, mas não era
você em carne e osso, porque ele é interpretado pelo Selton
Mello; depois apareceu você, Lourenço, em carne e osso, interpretando
o segurança...
L. Mutarelli: Imagino que daí tenha dado um nó na cabeça
de vocês... Em O cheiro do ralo e O natimorto os personagens
não têm nome, têm funções. Eles me disseram que
o nome do protagonista ia ser Lourenço, como uma houmas menagem, mas eu respondi que não sabia se seria bem uma
homenagem (risos), “mas ... vocês é que mandam”.
ide: Os personagens também adquirem nomes na adaptação
do romance O natimorto para o cinema?
L. Mutarelli: Não. Um personagem é o agente e o outro é
a voz. Ah... tem também a esposa. Sempre tem que ter a esposa.
E sempre acham que é a minha esposa, coitada, que é tão boazinha. Em O natimorto, tem um momento romântico
quando o agente descobre uma cantora que tem uma voz incomum e, em uma conversa entre eles, acaba se
envolvendo e se apaixonando. Mas ele é assexuado – é um
pouco complicada a história, não sei se vocês conhecem –
mas aí ele diz para ela que ela é tão legal e ainda fuma.
E minha mulher, que não fuma, começou a fumar por causa
dessa frase. Não era ela, mas ela também sempre acha
que é. Está fumando bem.
Essa campanha contra o cigarro me irrita porque eu
fumo. E porque agora voltei a beber depois de uma década,
saí da tumba e não posso dirigir! Antigamente, quando você
ia ao shopping, o cachorro ficava fora e o fumante entrava;
agora, o cachorro entra e o fumante fica de fora. Tem
alguma coisa aí. Por que alguém diz que não pode? A gente
vive em um mundo em que o importante é morrer com
saúde. Acho muito hipócrita. O ar que a gente respira, tudo
que a gente vive... Respeito não fumar em restaurante,
em lugares fechados, mas... Já falei, vou parar de dar palestras
em lugares onde não posso fumar, porque é a única forma
de contra-atacar isso. Às vezes fico quatro horas em
uma palestra e não posso fumar.
ide: Mas você está liberado para fumar aqui hoje!
L. Mutarelli: Mas aqui é muito fechado, também tenho
bom senso. Só não gosto da hipocrisia. Acho uma questão
delicada, é muita censura, muito policiamento. Tem coisas
que não entendo mesmo!
ide: Na sua literatura, você acha que há hipocrisia com relação
à recepção por parte do público ou do leitor? A sua
literatura é uma descida para o inferno, o subterrâneo, o
porão... Como você percebe que esse tipo de literatura é recebido
pelo público?
L. Mutarelli: Sempre, antes mesmo de O cheiro do ralo, tive
um público muito restrito, porém fiel, que acompanhou
meu trabalho durante muito tempo. Evito um pouco o contato
com o público porque já passei por várias situações.
Algumas pessoas se tornaram meus amigos. Não falo muito
do meu trabalho na minha vida particular. O meu padrinho
de casamento nunca leu nada meu, e eu acho isso ótimo,
porque tem tanta outra coisa de que falar sem precisar
ficar falando do meu trabalho. Um trabalho é só um trabalho.
Mas, não sei... tem gente que fica perturbada. Já tive
problemas com uma pessoa que veio à minha casa dizendo
que eu havia botado aquilo na cabeça dele e agora eu é que
tinha que tirar. Era uma pessoa bastante agressiva – que fez
uma oficina comigo, por isso teve acesso à minha casa. Eu o
recebi e depois tive que mandá-lo embora na marra, porque
ia dar trabalho. Então, não sei, algumas pessoas gostam outras
não. Quando estou fazendo um trabalho, não penso que
ele vai sair dali e nem sei o que vai surgir dali, ou do papel
em que estou desenhando, ou do que estou escrevendo.
Estou experimentando aquilo, depois surge algo e a responsabilidadeé minha, naturalmente. O livro não é o meu, mas
a responsabilidade sim. Mas é só ficção. É só um livro.
ide: Seus personagens são demoníacos, beiram o grotesco
e deixam o espectador muito perturbado, no sentido de
agüentar, ou não, até o fim...
L. Mutarelli: Isso eu sinto com bastante força. Acho que,
por mais que eu envelheça ou amadureça, muito do meu
trabalho tem a ver com as minhas primeiras impressões das
pessoas, das coisas. E não eram imagens agradáveis. Isso está
muito dentro, enraizado em mim e é difícil mudar esse
olhar no meu trabalho. Posso tentar com alguns personagens...
Na minha vida, felizmente, não tenho isso. Adoro as
pessoas, mas não convivo com ninguém. Adoro minha solidão,
gosto de encontrar as pessoas esporadicamente, não
telefono para ninguém – as pessoas sabem disso –, não respondo
e-mails, e, às vezes, atendo ao telefone. Mas, quando
encontro as pessoas, gosto de ter um tempo de entrega, gosto
muito de contato físico, gosto de abraçar, de encontrar...
ide: Você disse que gosta de criar metáforas...
L. Mutarelli: O ralo é metafórico. Quando escrevia o livro,
vinham muitas imagens, que são ícones. Como o ralo, buraco
para onde vão os excrementos – os nossos excrementos–que se relaciona com o inferno, com meu interior.
São símbolos nada agradáveis, mas estão muito ligados ao
interior, ao que a gente come e, de alguma forma, não quer
cheirar ou enxergar. É um olhar para o que a gente às vezes
vê – a gente sempre vê, aliás, e sente o cheiro, mas tem muitas
coisas assépticas que ajudam a suavizar.
ide: Você disse que o que você faz é trabalho; só que tem
uma qualidade esse trabalho, a de ser arte. Você disse também
que sua vida não é seu trabalho, é mais do que o trabalho.
Mas, ao mesmo tempo, a gente vê – pelas histórias
que você nos conta e por alguns livros – que o seu trabalho
está impregnado da sua vida; quanto ao contrário, você
acha que não?
L. Mutarelli: Na verdade, gostaria de achar que não. Naturalmente,
se você vai toda hora para o fundo de uma mina...
Eu tento uma divisão, entre meu local de trabalho e minha
casa. Mas eu volto com poeira dessa mina. Tento limpar, mas
ela está ali. O que tento, na verdade, é fazer o que fazia quando
era criança. Lembro que, quando era muito pequeno,
mas muito pequeno, tive uma sensação de morte, de uma
morte nada agradável, da inexistência, de inexistir. Devia ter
uns seis anos de idade. Senti isso muito profundamente e
pensava que meus pais não podiam saber disso, nem perceber,
pois tinham que acreditar nas coisas em que acreditavam:
que a gente vai para o céu e... E aí eu tentava me distrair. É a mesma coisa que faço com minha família que segue
agora, que são minha mulher e meu filho. Naturalmente,
quando meu filho tinha três anos de idade, como trabalho
em casa, uma vez ele veio até a minha mesa – na época só
fazia quadrinhos, não sei se vocês conhecem meu desenho,
mas ele é pesado, disforme – e perguntou por que só desenhava
monstro e só ouvia música triste. Respondi que não
eram monstros, eram pessoas, e comprei um fone de ouvido
(risos). Então, acontece isso, tento não misturar, mas há
mistura. Consigo até me distanciar disso, consigo me divertir,
ter momentos muito bons, tranqüilos, e tenho visto cada
vez mais melhorias em tudo isso.
ide: Como foi seu percurso na faculdade?
L. Mutarelli: Foi muito bom por causa de alguns professores.
Tive um professor que abriu minha cabeça com um machado.
Ele me levava na casa dele, mostrava, falava... nada
diretamente, mas me fez perceber muita coisa. Foi incrível,
muito importante para mim. E a faculdade dá uma bibliografia
incrível. Eu precisava trabalhar. Minha família sempre
cobrava que tinha que ter o tal do “fixo”. Minha namorada
disse para eu fazer artes plásticas. Eu nem sabia o que
era isso, mas, quando entendi o que era, fui fazer. Aproveitei
muito, havia sido sempre um péssimo aluno, mas na faculdade
fui um bom aluno. Conto sempre essa história.
Cheguei a ser o pior aluno da classe, porque tinha o que hoje
em dia se chamaria de déficit de atenção – TDAH. Mas, é
que eu olhava para a professora falando, olhava a boca e a
mão dela se movendo e achava interessante e aí me distraía.
ide: Aí você desenhava?
L. Mutarelli:Não, porque meu pai numerava as páginas para
que eu não desenhasse, assim eu não podia arrancar.
Desenhava na carteira, que dava para apagar. Mas o desvio
não era pelo desenho. Era para ver os detalhes, focar em coisas
que me raptavam, não é que eu decidisse: “vou olhar”.
Mas, de repente, estava olhando. Faço isso ainda hoje.
Tem uma coisa curiosa em relação ao desenho. Sempre
quis entender por que algumas pessoas param de desenhar.
Toda criança desenha, e bem – adoro desenho de
criança – então queria entender por que pára. Usei meu filho
de cobaia e descobri que ele parou de desenhar quando aprendeu a escrever. È muito mais rápido escrever “montanha” do que desenhá-la. Acho que é isso... Fiz uma
peça - que nunca vai ser montada, porque fiz um monólogo
completamente doido para uma atriz, mas de que gosto
muito. Ela explica o que diferencia a pessoa comum do artista.
Ela diz que ela conseguia brincar com as bonecas, dava
vida a elas, falavam, e em um momento não conseguiu
mais. Acho que um artista é o que consegue dar vida a qualquer
coisa inanimada e consegue continuar brincando.
Não é necessariamente a coisa infantil, mas é somar a isso,
deixar a coisa acompanhar. Não é a questão da infantilidade,
de não querer crescer, mas a de não atrofiar uma sensibilidade.
Você vai adquirindo outras, sem perder essa. Acho
que essa é a característica.
ide: Que autores você leu desde a sua infância?
L. Mutarelli: Lembro que li Kafka e depois Dostoievski.
Quando li Kafka, achei – é por isso que não tenho apego
com o que faço – que ele havia feito o livro para mim.
Pensei: “Esse livro é meu. Obrigado, Sr. Kafka, isso aqui
também é meu”. Então, não é só influência, é mais do
que isso. Ele me tocou de uma forma... São aquelas pessoas
que nos encorajam a ser nós mesmos, a nos expressarmos.
Identifico-me muito com A metamorfose, que é incrível.
ide: Você fala que não tem apego, mas tem responsabilidade...
L. Mutarelli: Sinto-me responsável e acho que seria imprudente
um autor não se sentir assim. Quero me dar para
as pessoas, me dividir. No começo, eu era mais natural
nos meus trabalhos, alguns até me proibi de publicar.
Mesmo que fosse muito inconscientemente, eu queria talvez
agredir ao me manifestar, dizia algo em que me expressava,
mas não comunicava. Hoje, quando apresento um
personagem, por mais difícil que seja – do O cheiro do
ralo ou do O natimorto –, tento dar toda a profundidade
aos personagens para que a pessoa possa entender a complexidade
dele, gostar ou não, aceitar ou não. Assim, eu me
entrego muito. Não escrevo porque quero, escrevo porque
preciso. O meu trabalho é terapêutico. Se parar de trabalhar
não vou ficar bem, vou ter que aumentar a dose de tudo
que tomo.
ide: Parece que este fato é uma característica do artista.
Fellini dizia que era compulsivo, que se não filmasse, enlouqueceria.
A criação é uma necessidade?
L. Mutarelli: Exatamente. Sem criação, essa energia acaba
saindo de outra forma, vai para o braço, o corpo. É visceral. É como gritar: você pode segurar, mas uma hora vai estourar
a sua garganta. A responsabilidade é essa, preciso ter
certa lucidez sobre o que faço, preciso dialogar, preciso ir a
palestras. Às vezes os autores não gostam, mas estou lá para me expor porque sou responsável por isso. Se alguém
tem uma pergunta, eu estou lá. Posso não ter a resposta,
mas vou tentar pensar junto com a pessoa. Mostro honestamente
o meu processo. Não é importante que as pessoas
tentem entender o que eu quis dizer com certa obra. Não é
isso que importa. O importante é o que aquilo quis dizer
para ela e, a partir daí, talvez a gente consiga dialogar. È para
que o leitor possa se misturar internamente com aquela
construção. Algumas coisas eles vêem, outras não.
Quando eu sou o fruidor de alguma obra, também
não é tudo o que percebo, que me toca. Mas, existem também
artimanhas quando estou escrevendo, sem querer... É como a sedução. Um livro é muito parecido com a sedução: é preciso saber chegar, trazer, ganhar segurança para
poder seduzir. É um processo: como você coloca as palavras,
como se apresenta o personagem. O cheiro do ralo e
O natimorto são contrários. No primeiro, apresento um
personagem detestável e meu objetivo é tentar reverter a expectativa
do leitor. No segundo, apresento um banana, inofensivo,
assexuado, e vou virar para o outro lado. É meio
uma brincadeira, uma sedução, uma dança.
ide: A temática deste número da revista é o Estrangeiro.
O protagonista do O cheiro do ralo é um personagem detestável
e ao mesmo tempo fascinante... Sua literatura traz
questões que incomodam e perturbam a maioria das pessoas.
Seus personagens são bizarros, esquisitos, estranhos...
Como psicanalistas, lidamos muito com questões parecidas
e estamos pensando em especial na questão da sexualidade,
que no O cheiro do ralo é muito forte: aquela coisa insuportável
da sexualidade, aquela tensão...
L. Mutarelli: Esses personagens sou eu. Sou isso aí. A sexualidade é muito presente no meu trabalho e, infelizmente,
na minha vida também. Não tinha identidade nenhuma
com o personagem de O natimorto. Há apenas duas coisas
em que gostaria de ser como ele: o fato do cara que sai para
comprar cigarro e nunca mais volta – que é o sonho da
minha infância – e o fato de ele querer ser assexuado, coisa à qual venho me dedicando há muito tempo. Eu me “assexuo”
sozinho, no banheiro. Sou igual a um macaco e isso
me incomoda muito, essa bestialidade... Não quero isso,
me atrapalha. Com o tempo, acalma um pouco, mas é a
compulsão que me atrapalha. Não gosto disso, não gosto
disso no meu trabalho. Quando a gente trabalha com o teatro,
por exemplo, ou com cinema, com arte coletiva, é impossível
que as pessoas envolvidas não misturem o trabalho
com a sexualidade. Eu não posso misturar. Quando
acaba, eu comemoro, mas, durante o processo de trabalho,
não quero isso. Tem diretores que fazem um filme para
conseguir comer uma menina e fazem um filme inteiro...
Para mim, a arte, ou seja lá qual for o nome disso, não é isso,
não é esse o objetivo. Não é uma ratoeira. Essa é uma
conseqüência que acontece sempre, porque as pessoas misturam,
ou porque as pessoas mitificam... É uma extensão
de conhecimento, um abraço um pouco mais longo que as
pessoas se dão, só isso... acontece e pronto, acabou. Mas não
durante o trabalho. È uma coisa que atrapalha muito minha
concentração, essa minha bestialidade. Eu a tenho desde
que era muito pequeno e quero ter um controle melhor
sobre isso. Tenho conseguido.
Tenho uma coisa muito irritante, não consigo me sentir à vontade em lugar nenhum. Peço para minha mulher
para abrir a geladeira. Isso até foi usado em uma peça, os
caras viram isso e puseram em uma cena. Pergunto se posso
pegar aquele Danone na geladeira e minha mulher me
diz “Cacete, quem comprou essa geladeira? Então porra,
precisa pedir?!”. Mas é que minha mãe era uma figura terrível,
na casa da minha mãe tudo era impecável. Tinha uma
sala que estava sempre impecável esperando uma visita que
nunca foi. Era preciso pedir as coisas. Eu era muito rejeitado.
Então, por isso, não me sinto à vontade em lugar nenhum.
Sou completamente estrangeiro.
Uma história que gosto de contar é a de quando eu
era pequeno e minha mãe me dizia para não comer bananas,
porque dava pesadelo. Eu dormia na parte de cima de
um beliche e, às vezes, dizia que ia tomar água, ia andando
até a cozinha, tinha um corredor assim, e comia duas bananas.
Era como se estivesse indo para a Lua, adorava ter
pesadelos, porque assim eu acordava e a vida era melhor do
que o pesadelo. Então, acho importante fazer as pessoas entrarem
em um pesadelo, porque quando se sai dele, a pessoa
vê que a vida é tão boa...
ide: Você se sente muito incompreendido?
L. Mutarelli: Fui muito incompreendido e sou ainda, mas
já fui muito mais. Era uma coisa difícil para mim... Eu sempre
fui de observar e fazer perguntas. Para minha mãe, essa
era uma coisa muito estranha. Ela sempre dizia “esse menino é retardado”, porque ela não entendia o que eu dizia.
Meu pai às vezes conseguia entrar em um dialogo, mas ele
estava muito pouco em casa. Eu tinha muita enxaqueca
quando era jovem, de perder a visão, aquela dor infernal,
uma parafernália. A mãe de um amiguinho meu disse para
pedir para minha mãe fazer um eletro. E minha mãe disse
que não, porque iriam dizer que eu era louco. Há muitos
esquizofrênicos na família dela, então eu entendo. Mas,
havia muita incompreensão. E incompreensão até no sentido
de... O meu trabalho fala um pouco disso. O natimorto
apresenta uma cena de que gosto muito – não sei se vocês
leram o livro, acho que não está no filme – mas ele dá
uma volta porque o que queria era passar aquela noite ali,
no quarto com ela, mas sem transar, só queria ficar ali, não
queria ir embora... Isso é uma coisa tão simples, dá uma
volta, explica que ele é assexuado, e que a mulher não tem
orgasmo, e ela entende. Então por que eu não posso dizer
uma coisa assim para alguém? Por que não posso tocar em uma
pessoa? Se eu for sincero e explicar o que quero... por
que não posso?... Por exemplo, outro dia estava no metrô e
tinha uma senhora muito bonitinha ao meu lado, uma senhora
mesmo. Queria dar um abraço nessa mulher. Parecia
ser, não a minha mãe, mas uma mãe clássica. Aí eu pensei “será que se eu oferecer uma grana...”, é bem O cheiro
do ralo, porque talvez se der uma grana ela não se ofenda. É só um abraço, não vou sacanear, é uma coisa fraternal.
Mas a gente não pode, não pode encostar, não pode falar...
e às vezes são coisas tão simples, tão bonitas. Coisas que podem
fazer tanto bem para a gente e para o outro. Não estou
me referindo só à coisa sexual, estou me referindo às
pessoas mesmo. Infelizmente ou felizmente, com as pessoas
de quem gosto, próximas, eu falo. Não consigo não falar. Às
vezes, ligo de madrugada. Nunca ligo, mas, bêbado, às vezes
eu ligo. Tem uma história muito bonita – acho que até
o Marçal uma vez contou isso em uma entrevista. Estava
ouvindo uma música, sozinho em casa, e era uma música
muito triste, poemas do Leonard Cohen musicados pelo
Philippe Glass. Comecei a ficar muito mal e a prestar atenção
na letra, que contava uma história muito bonita de um
cara que passou a dormir dez horas por dia e, durante a
maior parte do tempo que ele passava acordado – quatro
horas do dia –, ele se dedicava a ficar olhando para as pessoas
que via na agenda e ligando para as que amava, para
dizer boa noite. Então, comecei a ligar e agora ligo para algumas
pessoas para dizer boa noite. Não são tantas, mas eu
ligo mesmo bêbado.
ide: Você mencionou que saiu muito cedo para vir para cá
e que no caminho foi parando em vários cafezinhos até
chegar aqui para nosso encontro...
L. Mutarelli: Queria conversar com vocês, claro! O único
problema é que vocês ouvem muito e falam pouco, mas tudo
bem. Eu detesto trânsito, não posso ficar ansioso no
trânsito, fico muito mal mesmo, então saio muito antes e
quando posso pego o metrô, ou táxi. Hoje tinha que vir de
carro para vir pensando... Minha religião é a música, então
tinha que pensar no que ouviria no caminho para cá. O tipo
de música que ouço no carro não é a mesma que ouço
em casa para trabalhar. No carro, é uma melodia mais harmônica,
mais musical, para distrair... Saio antes, como se
fosse um passeio. Então, se acho um café, paro e tomo um
café. Deixo o carro em um lugar e vou andar. Aqui na minha
bolsa tem livros, lanterna, metro, tem tudo... Hoje retirei
o uísque porque ia dirigir, mas geralmente tem também
bebida. Parece com aqueles táxis... Tendo Lorax fico
seguro em qualquer situação. Preciso ter Lorax, porque sou
dependente dele há muitos anos. Às vezes, saio de casa sem
nada, mas tenho que ter Lorax. Sou muito sensível, não sobrevivo
sem um pouco de anestesia, é insuportável. Fiz uma
história de um personagem que não tinha pele, tinha os
nervos à flor da pele. É assim comigo... eu preciso. Não agüento mesmo. Quero fazer uma escultura em homenagem
ao Lorax. Eu tinha um personagem que chamava Lorax
Mutarax. Dediquei meu primeiro livro a ele.
ide: Já teve períodos em que você se sentiu incapaz de criar?
L. Mutarelli: Acho que nunca fiquei sem criar, inclusive na
depressão. Na depressão, você cria histórias contra você.
Não percebe, mas cria. Eu brincava muito quando era criança,
por exemplo, com os bonequinhos de um programa de
TV. Acho que são as histórias mais incríveis que construí.
Claro que não podem ser transportadas para os dias de hoje,
porque os personagens tinham sentido para mim. Acho
que só na depressão profunda é que se pára de criar.
Estou trabalhando agora um personagem que decidiu
não acordar mais. Ele acordou, mas finge que está dormindo,
já faz um ano, porque ele fez uma cagada e não quer enfrentar
isso. Às vezes a gente não está deprimido, mas acordar é meio sem sentido. Por eu não sonhar, essa coisa de me
desligar e ter que me ligar, e me reinventar todo dia, é cansativa. Às vezes não vejo sentido... Mas também, já superei...
Nunca tive nenhuma ambição. Minha grande ambição
era ter código de barras em uma revista em quadrinhos.
Vi isso uma vez em uma banca que tinha material importado,
quando eu era criança. Não sabia o que era aquilo.
ide: A gente fica grato por pessoas que ajudam a gente a
deixar tudo em ordem, e às vezes, por pessoas que lembram
a gente do cheiro do ralo, que não obrigam a gente a nada...
mas, evocam... Quando você contou a história da delegacia,
da tortura, tive a impressão de que você contou como
uma lembrança um tanto quanto sofrida. No entanto, você
fica muito amigo desse pai. E, você toma cuidado – eu
percebo – de não fazer com seu filho nada parecido, mas
faz com o público algo muito parecido. Por outro lado, você
fala de sua mãe como uma pessoa terrível.
L. Mutarelli: Não sei se terrível. Uma pessoa fria, pouco
passional.
ide: Mas acaba sendo uma figura que te deixa como um estrangeiro
para o resto da vida. Então tem algo de terrível
nisso. Era sobre isso que eu estava matutando. Você é uma
pessoa agradável, tem uma franqueza carinhosa, amiga.
Mas às vezes a gente não consegue deixar de ter pesadelos.
E você até os prefere, às vezes, à realidade, acho que com alguma
sabedoria, porque se não fosse assim, não haveria ficção
terrorífica. Bem, a gente não consegue parar de produzir
pesadelos. Achei muito bonita a sua descrição da
depressão, como a possibilidade de produzirmos pesadelos
para nós mesmos, em lugar de ofertá-los para o público,
com o que acabamos sendo vítimas da nossa própria violência.
E, por outro lado, a gente não consegue também deixar
de tentar se livrar disso. A grande maioria da população, todas as vezes que descreve um ser humano do ponto
de vista ideal, descreve-o como pessoa bondosa, simpática.
Quando a gente pensa nos nossos filhos – no seu caso, não
do seu pai – queremos que ele tenha uma vida leve, agradável.
Estava meditando sobre essas coisas e fiquei aqui em
silêncio, mas era meu dever entrevistá-lo, e acabei sendo intimamente
entrevistado por você. Então, te coloco essas
conjecturas porque gostaria saber se você já refletiu – certamente
sim – sobre essas questões.
L. Mutarelli: Tenho refletido muito sobre estas questões.
Tem uma coisa, a propósito de quem trouxe o cheiro do
ralo e de quem trouxe a limpeza: a pessoa que deixava tudo
limpo, nunca ia se contaminar. Minha mãe só abraçava
a gente no Natal, era beijo, abraço e choro, e até hoje é
assim. Eu comecei a agarrá-la depois de fazer terapia muito
tempo, mas ela endurece, vira estátua, é o máximo que
ela faz. Também acho que no fundo, por mais que meu pai
tenha tido um gesto sádico, ou algo assim, acho que a vida é isso, um rito de passagem.
ide: Pensei na história do comerciante que falava para o filho: “pula que o papai segura”, querendo dizer para o filho
não confiar em ninguém, nem no pai. É como se dissesse
para não ser “tonto-extra”. Ser inocente ou culpado é completamente
decidido por quem tem o poder na mão.
L. Mutarelli: Existe sempre um aprendizado. É a forma
como eu vou receber algo, como vou lidar e assimilar.
Agora, na limpeza, não tem o que aprender. É muito orgânico,
anti-natural.
Incontáveis vezes eu entrei com o pé sujo e tentei
conversar. Fiz uma história para ela, o que foi curioso, é a única história que ela leu. Repito sempre uma frase “talvez,
possa parecer que eu não perceba tua dor, mas a minha
natureza é muito semelhante à tua”. Tento não demonstrar
o que me atinge, alguma coisa nesse sentido. Eu
sei que a vida dela foi terrível, terrível mesmo. Mas a minha
vida foi terrível também, e eu não faço ser terrível para
quem está perto de mim, eles não precisam pagar por
isso. É aquilo o meu trabalho, mas meu trabalho é um livro.
De alguma forma é como conseguir transformar...
talvez, seja só um truque, uma mentira, chamada de arte,
não sei. Mas é diferente. É diferente você levar um soco e
assistir a um soco. Acho que é a melhor maneira de você
transformar ou tentar lidar com isso. Assim como não
queria passar nada disso para o meu filho, mas um dia
percebi que ele precisava apanhar, levar uns tapas, em
uma idade aí, porque senão ele não ia entender... E levou
uns tapas, claro que não vou fazer igual a meu pai fez, mas
também não vou ficar no outro extremo de não encostar
no filhinho. Se precisar de um tapão ele toma, e assimila, é importante também. Acho perigoso esse outro jeito
também. Só a limpeza que... Limpeza é a moça que lava
uma vez por semana... Ninguém limpa o lugar em que trabalho.
Fico um ano ou dois sem limpar, jogo lixo no
chão... e só eu entro lá.
ide: E a máquina de escrever? Você ainda a usa?
L. Mutarelli: Não, algumas teclas estão ruins. Uso computador.
Mas gostei de usar a máquina, tem um barulho ótimo. É que não trabalho muito de madrugada. É muito
bom, mas é difícil de tabular. Evito trabalhar de madrugada.
Acordo sempre de madrugada, mas aí vou jogar paciência
no computador ou alguma cosia que não seja trabalho.
Prefiro trabalhar de manhã. Meio pela cadência.
Preciso ter muito controle sobre mim. Se eu começo a trabalhar
de madrugada não vou entrar em uma freqüência
legal, muito saudável. Acho que isso é se conhecer. Então,
prefiro trabalhar de manhã cedo. Adoro minha companhia.
Sou muito legal comigo.
ide: Você falou do seu irmão, do seu pai, da sua mãe...
E sua irmã?
L. Mutarelli: Minha irmã é uma pessoa normal. Ela está
sempre bem, sempre sorrindo. Ela foi para Disneylandia e
voltou assim. Nunca se recuperou. Como digo, minha família
sou eu, minha mulher, meus filhos e meus gatos.
Os gatos eu estou quase deserdando. A gente tem uma relação
quase de zoofilia, de amor profundo, mas eles me irritam
muito, às vezes. Eles não respeitam os limites, entram
no meu quartinho e fazem a festa. Pus grade para eles não
entrarem, mas eles passam. Arrancam as teclas do computador
com a unha, mas é normal...
ide: Tem gente que, quando leva um trote, passa para
adiante, e outras que tratam bem o calouro do ano seguinte.
A impressão que tenho, é que com você aconteceu a segunda
modalidade. Também existem dois tipos de depressivo.
Aquele a quem falta energia e aquele que fica esgotado
com a própria energia. Você é do segundo tipo. Acho que
tem muito cansaço que a gente chama de depressão, mas
não é. É cansaço de sentir demais. Muitas vezes o cara se
suicida, outros se trancam no quarto e ficam chorando...
então, parece depressão. Quer dizer, parece e enfim, psiquiatricamente, é definido assim. Mas acho que a gente não
devia confundir uma coisa com a outra. Tem depressão que é excesso de vida. Mas o que falei de depressão não era um
diagnóstico. Estava falando no montante de dor que você
atravessou e atravessa. A dor é uma coisa que reverbera for ever. Estou falando mais na dor porque você tem um irmão
que sucumbiu a isso. Você não, e tem a dor até de ter que
resistir, não sucumbir. Ninguém fala disso.
L. Mutarelli: É verdade, ninguém fala disso. Tenho sorte, é
o que dizem.
ide: Dizem que a sorte procura o bom jogador.
L. Mutarelli: É que a sorte também cansa.
ide: O contato com você é uma coisa que não passa despercebida.
Provoca em nós sentimentos de admiração pela
sua pessoa, um pouco também pela humanidade. É inacreditável
que a gente sobreviva apesar disso.
L. Mutarelli: Acho que essa minha paixão pela vida é o que
vejo em algumas pessoas. Apesar desse desprezo, apesar de
ver tudo que está errado, você vê pessoas que estão lá, fazendo
o melhor que podem, independentemente do cenário.
Isso me toca muito, acho muito bonito. Às vezes acho
também que as pessoas deixam de ser artistas, de brincar –
porque artistas, todos foram, pelo princípio de que todos
desenhavam, todos davam vida a seres inanimados – mas
não é por egoísmo. A pessoa não se dá porque não consegue,
porque a ensinaram a não se dar. Ela se dá só num canal.
Ela quer, mas não consegue.
ide: Você passou por coisas que, se são invenções ou não,
não importa, já que a história se reconta a cada momento.
O que importa é que você transforma o indigesto cheiro do
ralo em algo palatável. Dá para ficar sentado vendo, mesmo
que tenha espinhos na cadeira. Essa vivência, que é uma vivência
horrorosa, pode ser suportada. Acho que isso é o que
o artista faz: torna algo indigesto mais palatável, porque pode
viver aquilo um pouco menos cruamente e transformálo
em poesia. É uma vocação. Tem nisso um compromisso
com o social. Você viveu uma coisa e a transforma para os
outros. Para nós, que só o conhecíamos de longe e que hoje
pudemos estar tão perto de você só nos resta agradecer.
L. Mutarelli: Já fui mais longe. Na Flip, o pessoal se leva
muito a sério. Os escritores, os autores... acham que precisam
ser sérios, falar de nada.
ide: Muito obrigado.
L. Mutarelli: Eu é que agradeço. Vamos fumar, né?
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