A ÉTICA DA PSICANÁLISE: UMA ILUMINAÇÃO FREUDIANA
Sonia Curvo de Azambuja
Membro da Comissão de Ética da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo.
Membro Efetivo e Analista Didata da SBPSP
Sabemos que existem leis e regulamentos para preservar a privacidade dos que procuram atendimento com médicos, psicólogos, psiquiatras e psicanalistas. Tais questões jurídicas são da maior importância para nós, na Comissão de Ética da SBPSP. Gostaria de falar, no entanto, sobre o tema mais de dentro da psicanálise, ou seja, pensá-lo em termos da ética que lhe é imanente, e que nos acompanha diuturnamente, em seu contraponto com a necessidade das comunicações analíticas.
Encontramo-nos numa instituição, a Sociedade de São Paulo, em que a clínica é considerada o miolo da psicanálise - e essa chave é central na constituição da nossa identidade, como grupo. Em todos os níveis, há uma mensagem para que escrevamos sobre a nossa clínica: a clínica é soberana.
A partir do momento atual, podemos observar o seguinte: no decorrer desses últimos anos na diretoria científica, a orientação de que a clínica deveria ser discutida e expandida reflexivamente estava nessa chave da nossa identidade.
No Instituto, durante a forrnação, o candidato é incentivado a escrever relatórios, numa busca de amalgamar as reflexões metapsicológicas com a experiência viva na qual pulsa seu desenvolvimento na metodologia psicanalítica, visto pelo prisma do seu entendimento clínico.
Sabemos que esse ideário é coerente com a história do movimento psicanalítico: no ato de escrever sobre casos clínicos, Freud inaugurou a psicanálise. A expansão da nossa prática através das comunicações clínicas orais e escritas é um compromisso que ternos com o movimento psicanalítico desde sua origem. E esse compromisso exige de todos nós, dos juniores aos seniores, uma enorme dose de trabalho, freqüentemente vivida com angústia.
Ao lado desse imperativo categórico inerente à psicanálise, surge um compromisso que assumimos com o paciente, que é o da confidencialidade: corno mantêla em relação a um caso atendido e, ao mesmo tempo, comunicar esse caso aos nossos pares, em debates, conferências, supervisões, seminários clínicos, escritos? Em um trabalho escrito, por exemplo, esse paradoxoestá presente o tempo todo. Há uma tensão, um tormento que nos invade e que, muitas vezes, nos paralisa. Todos já pudemos viver essa experiência na própria pele.
Num trabalho sobre interpretação, de 1988, com o qual participei de urna jornada sobre interpretação na experiência clínica e de um congresso, falo desse conflito entre segredo e revelação.
Aqui, também, penso ser oportuno que possamos considerar a questão do segredo em análise, como urna ancoragern da nossa prática, que está muito além de qualquer censura vinda de fora de nós.
Quando atendemos um paciente, estamos implicados numa intimidade de tal ordem que somente o desejo de recriar a atmosfera existente nesse vínculo singular - para que possamos apreender, expandir, universalizar num outro gesto, numa outra expressão, o pensar psicanalítico - nos impulsiona a escrever sobre essa intimidade.
É um pequeno ponto que se expande. Tolstói fala de corno podemos escrever sobre uma aldeia, sobre nossa cidade, e tornar, porque as conhecemos, universal essa escrita.
Mas o que conhecemos desse pequeno ponto que é o nosso atendimento? 0 que é essencial do fato clínico, que ultrapassa o dizer literal do diálogo que tivemos com nosso paciente e, nesse sentido, transgride o diálogo do senso comum, universalizando-se em linhas temáticas, em que os liames, as linhas da intimidade, vão sendo bordados, freqüentemente distante de qualquer nitidez concreta.
Ricoeur aborda essa questão no seu Da inlerpretação, vendo o diálogo analítico como o mais poderoso instrumento de reflexão já constituído, segundo ele capaz de afastar o cogito cartesiano, como instrumento metafísico de reflexão sobre a realidade. No entanto, poucos trabalhos existem sobre a teorização desse diálogo analítico. Lembro-me de quando fazia supervisão corn Virgínia Bicudo e levava minhas "sessões escritas", numa tentativa de reprodução, e ela dizia: "Mas éassim que você fala com seu paciente?".
Não, não era assim. Lembro corno era difícil me aproximar do que acontecera, pois já não estava acontecendo. Meu paciente não estava mais lá: era eu com ela. E o que eu havia escutado do meu paciente era mero pretextopara falarmos do meu texto: da minha escuta de meu paciente. Experimentei nesses muitos anos a dificuldade da comunicação, até ali, na intimidade da supervisão. A natureza dessa dificuldade é a que examinei em meu trabalho de 1988, que, no meu entendimento, diz respeito à ética nas comunicações psicanalíticas.
Há urna "dupla mensagem" vinda da psicanálise, de fora de nós, que diz que precisamos dialogar com nossos pares e, ao mesmo tempo, manter a confidencialidade da relação analítica. Mas, muito mais forte que essa "dupla mensagem" de fora, é a "dupla mensagem" que nos aguilhoa de dentro, exigindo "segredo" e "publicação".
Encontrei companhia, quando já terminara o trabalho referido, em dois autores franceses: Didier Anzieu e Claude le Guen. 0 primeiro compara essa dificuldade que ternos à cena primária e a refere também à ferida narcísica a que somos submetidos. 0 segundo centra o problema na questão da exacerbação do superego.
Não é pouco. Sabemos corno a questão da cena primária é central na psicanálise, ao lado da questão da castração. Se ao escrever sobre a intimidade da nossa relação com nosso paciente desvelamos essa vivência, então só podemos ter conflito entre o desejo e o pudor. Não pode nos espantar que o nosso superego esteja mais que nunca exacerbado.
Volto ao meu antigo trabalho, quando eu dizia que a mim também essa dificuldade parece de ordem inconsciente e profundamente ancorada em dois registros. Em um, existe o pudor de expor toda a intimidade de nossa relação com nossos pacientes. Vemos, como uma espécie de perversão, a curiosidade do "olhar" que vai recair sobre essa intimidade, esse segredo. Em outro registro, vemos como cobrança de um superego insensato - nosso ou de nossos colegas - a forma como foram construídas as interpretações, as conversas na intimidade do setting. Temos dúvidas se realmente podemos nos aproximar do que aconteceu -da atmosfera que se criou e que nunca mais se recriará. Temos dificuldade de narrar os elementos do jogo - o toma-lá-dá-cá das palavras com os adultos ou o brincar com as crianças -, que são por vezes um prazer do espírito e que contêm urn "humor" que só sobrevive na atmosfera do setting. E são esses elementos que permitem dramatizar as interpretações e que caracterizam o acolhimento, a reverie para com o paciente. Entre a dúvida e a dificuldade, a tendência é tornar nossas comunicações lapidares, polidas, lavradas. Corno resolver essa questão delicada?
No meu caso, procuro ver no trabalho o tom com que o paciente fala.e as ressonâncias que esse tom produz em mim, as metáforas de que me sirvo e que me levam longe da concretude da fala. Talvez alguma coisa, como certos trechos deUma memória do futuro, de Bion,em que todo o problema da convivência está contido no registro das identifcações projetivas, porém em tom de ficção. Algo que, na ocasião em que o li, me fez pensar que, quando chegamos a poder narrar filigranas do espírito humano, fazemo-lo conduzidos pelo poético.
Hoje, repensando essa temática, vejo que atendemos nossos pacientes em dois registros de linguagem: um denotativo (objetivo) e outro conotativo (subjetivo). E é nesse registro da conotação, da subjetividade, que escutamos e falamos com eles em linguagem coloquial. Corno recriar, numa comunicação fora desse coloquial, o que se cria na sessão? É um alvo que temos, uma meta, quando comunicamos.
Gilberto Gil diz num verso que, quando o poeta diz meta, ele pode estar dizendo o inatingível. É esse inatingível, esse sonhar, que as comunicações querem atingir. E esse também é um tema fundante da psicanálise.
Contudo, a nossa história com o paciente está mergulhada na linguagem denotativa, com a qual ele nos narra fatos da sua história pessoal, do seu sintoma, do seu cotidiano, dos seus interesses. 0 mundo freqüenta nossos consultórios, através das matérias fotografadas, em reportagens coloridas ou em preto e branco, dos nossos pacientes. Sem sair de nossa poltrona, sabemos como vai indoo mercado financeiro, a vida acadêmica de universidades, as idiossincrasias de determinada família. Essa é a carne, na qual o seu espírito se planta.
Na nossa escuta, nós recebemos suas associações de idéias. Afinal, o paciente não vem para a análise supervisionado. Ele está livre, até o limite de suas possibilidades, para falar de si. Isto é, até o ponto em que a sua censura o permite, nós o acolhemos na sua liberdade de expressão: a livre associação de idéias, que, sabemos, não é tão livre assim.
E é a nossa atenção flutuante que pode nos levar ao significante da sua narrativa. Os nossos ouvidos são treinados, por meio da formação de toda urna vida, para catalisar, filtrar, na trama da nossa conversa com o paciente, a temática que o conduz: qual é o destino que o seu inconsciente lhe fadou viver.
Rastreando a conversa denotativa do nosso paciente, nas entrelinhas da sua fala, nos atos falhos, vamos "escutando" o analítico: a palavra com cunho conotativo.
Quando Freud funda a psicanálise com a Interpretação de sonhos, em 1900, apesar de já investigar clinicamente havia muito, ele a funda porque o sonho é uma forma de comunicação que se dá ali na transferência e também na rede, na trama da intra-subjetividade. 0 sonhar é um caminhar prazeroso ou assustado pelos vários registros do aparelho psíquico.
Como podemos, num outro momento, trabalhar sobre esse trabalho, já realizado na clínica; para nos comunicar com nossos pares, já que a nossa pesquisa é essa? São essas articulações investigativas que necessitam ser arejadas com a comunidade científica.
Vivemos inevitavelmente urn paradoxo de ordem ética nas nossas comunicações - para fora desse campo estaqueado do setting -entre a confdencialidade da relação, já tão complexa, com o paciente, e o compromisso com a expansão da psicanálise. Todos nós nos preocupamos em corno manter a nossa lealdade à expansão da psicanálise, nossa vocação, e ao mesmo tempo não trair a pessoa que confiou em nós.
A clínica não pode ser, nesse conflito, mero refúgio que nos aliene da psicanálise, sob o pretexto da ética. Acreditamos também que nossos pacientes não podem ser exibidos numa exposição, que só serviria ao nosso prestígio pessoal, numa passarela de sugestão e fascínio, típicos dos fenômenos de grupo. Temos aqui um problema de ordem ética. Corno resolve-lo?
Numatentativa prática e certamente superficial à natureza da psicanálise, podemos pedir autorização ao paciente. Ainda, num aprofundamento responsável, podemos retornar no tempo e pensar em outras histórias, as quais, na sua dramaticidade, poderiam encarnar as histórias dos nossos pacientes. Como quando nos servimos de mitos culturais, que são o sonhar coletivo. Podemos compor personagens, em que os dados biográficos de sexo, profissão, nada teriam a ver com o relato, porque a temática é o que conta.
Podemos usar a nós mesmos, como tantas vezes o fez Freud, contando sonhos como o da "injeção de Irma", que é paradigmático do trabalho analítico. Podemos trabalhar num movimento de expansão analítica com material fornecido por um colega descolado do contexto do historial clínico. De qualquer modo, essa é uma questão espinhosa. 0 desenvolvimento da psicanálise se dá a partir das indagações que publicações e comunicações suscitam em nós ao faze-las e nos supostos destinatários, aos quais sempre nos dirigimos nesses trabalhos. Nesses trabalhos é que a psicanálise se interroga.
Freud se preocupa com a questão ética da psicanálise em todas suas reflexões sobre o mundo pulsional e instintivo do ser humano. Em suas "Reflexões para os tempos de guerra e morte", de 1917, afirma que os tratados de lógica e ética da flosofia ficam rasgados pela guerra, quando o contrato social se esgarça e o mundo pulsional do homem vem à tona.
No mesmo sentido, direciona-se 0 mal-estar na civilização ( 1930), no qual faz aflorar o caráter destrutivo da pulsão de morte. Neste trabalho, esbarramos nos limites da ética, quando Freud indica o conceito de pulsão de morte como potência destrutiva e o homem é visto como "lobo do homem", tendo corno objeto da consciência a morte de outra consciência. Freud faz, assim, urn tratado profundo sobre o sentimento de culpa do ser humano - o mal-estar na civilização, que também cria a civilização.
Em outro trabalho, de 1920, Além do princípio do prazer, oconceito de pulsão de morte também é introduzido, porém - na sua complexidade - esta é vista muito mais como pulsão silenciosa, tendência ao inorgânico, ao inanimado. É um trabalho fascinante de rnetapsicología, que dilata todos os limites da metabiologia e da metafísica, no dizer de Laplanche, em Vida e morte em psicanálise.
Sabemos bem que Freud, desde sempre, quando busca os fundamentos da cultura, encontra ao mesmo tempo os arcanos da vida mental. É nessas filigranas que nós, analistas, trabalhamos e somos trabalhados. Assim é que o trabalho clínico é delicado e diz respeito apenas ao analista e ao paciente que o procurou. Sabemos, também, que esta contenção nos limites do campo de trabalho é uma tarefa muito complexa do psicanalista, que tem como maior instrumento sua própria mente. A ética é imanente ao fazer analítico e a falta de ética dá-se quando o fazer analítico se desvia de seu campo, escoa para fora do setting, criando situações de sofrimento desnecessárias ao nosso trabalho.
No capítulo III de 0 ego e o id(1923), Freud diz: "A psicanálise frequentemente foi censurada por ignorar o lado mais elevado, moral suprapessoal, da natureza humana. A censura é duplamente injusta, tanto histórica como metodologicamente. Em primeiro lugar, porque já desde o início atribuímos às tendências morais e estéticas do ego a função de incentivar a repressão".
Também vemos nesse texto Freud avançar no sentido da criação dos processos de sublimação, retomando raciocínios que já fizera no estudo sobre "Luto e melancolia", assim corno em Análise de grupo, e, agora, demonstrando como o próprio caráter do egose faz através das nossas identificações. Esse caráter constitui um método, através do qual eu conquisto o id que teve que abandonar os seus objetos amorosos e incestuosos. É corno se o ego falasse ao id: "Olhe, você também pode me amar, sou semelhante ao objeto que você amou".
Assim, aqui Freud aponta não para a sombra do objeto que cai sobre o egocomo na melancolia, mas para o objeto sublimado que dá forças ao ego para conquistar o id: o amor, o prazer. Penso que os nossos escritos também fazem avançar no caminho dessas sublimações. Nessas sublimações, a concretude da vida do nosso paciente pode ser preservada, como objeto de investigação. Podemos caminhar para comunicações onde o prazer de avançar na psicanálise não esteja baseado no constrangimento de pessoas que nos confiaram seu sofrimento.
É o próprio prazer sublimatório, no qual o objeto na sua florescência é abandonado, porque o que vai importar é o trabalho que o ego passe a fazer na identificação da experiência dupla (analista-analisando) produzida no próprio analista e que lhe servirá de argumentono trabalho de comunicação. Podemos dizer, nesse sentido, que toda tese, toda publicação, é autobiográfica. Há nela a história das identificações, na qual o ideal de ego se faz, e a percepção do real no nosso conternporâneo, que o ego produz. São o mundo interno e o mundo externo que se articulam no nosso psiquismo, constituindo nossa ética.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ANZIEU, D. Dificuldade de um estudo psicanalítico sobre a interpretação. Bulletin de la Association Psychanalytique de France.
FREUD, S. (1915). Reflexões para os tempos de guerra e morte. ESB. Rio de Janeiro: Imago, 14.
_________ .(1920). Além do princípio do prazer. ESB. Rio de Janeiro: Imago, 18.
_________(1923). O ego e o id. E, SB. Rio de Janeiro: Imago, 19.
_________(1930). 0 mal-estar na civilização. ESB, Rio de Janeiro: Imago, 21.
LAPLANCHE,J. Vidae morteem psicanálise. Porto Alegre: Artes Médicas, 1985.
LE GUEN, C. (1982). Pratique de la méthode psychanalytique. Paris: Presses Universitaires de France.
'Trabalho apresentado num debate convocado pela Comissão de Ética em2003, sobre a ética nas publicações psicanalíticas.
Fonte: Jornal de Psicanálise Instituto de Psicanálise- SBPSP volume 37-2004 – N. 68
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