Dois tempos da clínica de Freud

 

Osmar Luvison Pinto

Secretário-geral da Diretoria de Cultura e Comunidade da SBPSP
Professor e Supervisor do curso de atendimento em orientação familiar do Instituto Sedes Sapientiae

 

      Em 1931, na passagem dos 75 anos de Freud, Lou Andréas-Salomé o presenteou com a Carta aberta a Freud, uma espécie de texto psicanalítico alinhavado pelos fios de uma narrativa intimista. Apresentou problemas nascidos do exercício da clínica, discutiu alguns de seus fundamentos, principalmente aqueles nos quais se apóia o analista em seu trabalho e, de resto, recordou ensinamentos do mestre, sem esquecer de apontar para as dificuldades enfrentadas. Afinal, heroicamente, ele lutou para sustentar suas teses no plano do debate acadêmico e intelectual, de maneira ampla, e desbravou sua própria realidade psíquica pela via da auto-análise, fator decisivo para os avanços da nova área de conhecimento. O livro comemorativo contém um outro atrativo: há um tom peculiar na escrita, algo que parece transbordar das palavras de Salomé, familiar aos psicanalistas, característico daqueles que são tomados por uma necessidade premente de comunicação, em momentos em que nada parece ser mais apropriado do que falar a alguém. Convenhamos que, neste caso, a expectativa é bastante compreensível, afinal quem não gostaria de falar a Freud?
     
      Salomé teceu seu manifesto psicanalítico em prosa elegante e apaixonada, como se ali houvesse o desenho de uma forma pontual de transferência, diante da exposição à convivência direta com Freud, desde 1912. Acontece que, homenagens à parte, a Carta, escrita quando a autora tinha em torno dos 70 anos, contém a densidade da experiência. Por um lado, coloca em relevo as inquietações da analista madura, com 20 anos de atividade clínica e estudo de psicanálise e, por outro, expressa a modéstia recomendada aos clínicos, mantendo em perspectiva a abertura para novas descobertas e indagações. Como ocorre com a psicanálise e com o traço envolvente da narrativa freudiana, a trajetória de formação do analista também insiste em apontar para o inacabado.
     
      As palavras sensíveis e a cultura da mulher que foi amiga íntima do filósofo Friedrich Nietzsche e do poeta Rainer Maria Rilke são estimulantes nesta fala a Freud, pois convidam a que se coloque no tempo presente, em primeiro plano, o teor das relações entre a obra originária e os psicanalistas que vivem sob as luzes e as sombras do século XXI. O texto de Salomé fica como um estímulo, indicador de que “o mais belo dos ofícios” se consubstancia nos domínios das paixões. O interesse maior desta reflexão consiste em destacar as ligações entre a clínica psicanalítica de nosso tempo e aquela concebida pelo pioneiro, tantos anos e “mundos” depois. Daí os dois tempos da clínica de Freud.Este enfoque nos leva à apreciação daquela que foi uma de suas capacidades mais notáveis: mergulhar na tarefa de compreender sua época, tendo o método psicanalítico como instrumento de abertura para o universal.

Uma clínica para sempre
     
      Freud coloca em movimento simultâneo três elementos fundamentais: o método interpretativo, a teoria da psique e a clínica. Assim, a psicanálise, numa visão que privilegia o conjunto dinâmico destes saberes, teve por destino promover, gradualmente, uma das mais profundas e delicadas revoluções culturais da humanidade. Profunda, porque perfurou a superfície orgânica dos fenômenos do homem, matéria da qual se ocupava a medicina, encontrando como objeto um núcleo essencial da vida (psique). Delicada, porque a “nossa ciência”, expressão ao gosto do autor, nasceu para acolher a natureza conflitiva e paradoxal do ser humano, governado por motivações desconhecidas, abrindo espaço para o que, anos depois, Jacques Lacan chamaria de “sujeito do desejo”.
    
      Revoluções engendram-se nos espaços dominados por diferentes formas de violência (entre elas, repressão e controle) exercidas sobre grupos sociais oprimidos por algum poder que manipula a informação e define parâmetros de conduta. No caso da revolucionária obra freudiana, havia uma atmosfera cultural absolutista que não se manifestava pela violência típica dos regimes totalitários, mas por um absolutismo traduzido sob a forma de “espíritos armados”, efeito prático de um ideário disciplinador, semeado ao longo dos séculos anteriores, com implicações para a convivência social e, sobretudo, para as relações do indivíduo consigo mesmo. Sempre existe uma dimensão individual do sofrimento, que se dá a partir dos movimentos restritivos ou libertadores, e que têm lugar na subjetividade coletiva. Assim, a psicanálise restituiu ao homem o direito à intimidade para curá-lo de doenças da alma, formas variadas de acometimento por alguma modalidade de absolutismo particular. Por meio de uma proposição clínica sustentada numa espécie de repouso moral, criava-se a condição para que se recebesse a instabilidade natural da psique, passando, necessariamente, pela exposição ao contato com o desejo. A “regra de ouro”, a associação livre, bem como seu correspondente para o analista, a atenção flutuante, não deixam dúvidas quanto à vocação anti-voluntarista do tratamento psicanalítico e podem ilustrar com precisão o sentido da “suspensão” moral no processo terapêutico.
     
      Freud, de inegável talento poético, que por problemas de tradução muitas vezes ficou reduzido a um disciplinado homem de ciência (uma verdade parcial), tinha preferência pelo uso de palavras simples e populares, como se pode verificar a partir dos originais em alemão. Lançou mão da palavra “alma”, atribuindo-lhe um novo sentido. Antes do advento da psicanálise, a alma era entidade pertencente ao campo religioso ou místico; a ciência da época, por sua vez, religiosamente, elegia a razão como recurso para o domínio das forças da natureza, o que incluía as manifestações intempestivas, inerentes à natureza humana, entre as quais, a sexualidade. Não obstante, a racionalidade contida no ideário iluminista contribuía para as descobertas psicanalíticas, pois representava, no plano da organização política e social, a flexibilização progressiva da cultura ocidental em favor da lei, dos direitos universais do cidadão e de um estatuto para a individualidade.
     
      O que hoje se entende por vida psíquica ou anímica (e aí estaria a nova concepção de alma), na qual o desejo e a demanda por prazer figuram como elementos naturais do psiquismo, foi postulação sustentada pela psicanálise, que a moral racionalista da ciência tinha por inspiração recusar.
     
      A inclusão da sexualidade e da primazia do desejo ensejava uma representação de alma formada por forças contrastantes, o que levou a pesquisa freudiana à conclusão de que, a todas as formas de absolutismo, singular ou coletivo, corresponde um universo paralelo que o subverte. Na verdade, em todos os tempos encontramos infindáveis testemunhos culturais do secreto pulsar da alma humana, sobretudo na literatura: no mundo mitológico dos gregos, no romantismo germânico do século XIX, em Shakespeare, em Sade...
    
       Freud, homem de seu tempo, fez surgir a psicanálise no centro da modernidade vienense, período conhecido pelo contraste cultural. Ao lado do progresso, da expansão metropolitana e dos avanços da ciência, o seu avesso: desemprego, prostituição e produções da contracultura, que denunciavam um mundo em decadência. Era um tempo de fragmentações políticas e geográficas, marcado por movimentos nacionalistas de independência contra a unidade imperial. A literatura romântica de Viena apresentava os dilemas do homem dividido, incendiado por paixões, num paralelo claro com a produção freudiana, ambas centradas na tensão entre amor e morte, como consta na homenagem a seu contemporâneo, o escritor Arthur Schnitzler.
    
      É instigante na obra de Freud sua automática capacidade de atualização. Ainda que pese o contexto histórico em que nasce a psicanálise, o autor parece transcender seu próprio tempo; universalizou-se, por assim dizer, ao construir a ponte entre mundos freqüentemente isolados, o místico e o científico, o clássico e o romântico, situando a alma num quase indizível espaço volátil entre luzes e sombras – realidades co-habitantes de um todo anímico.

      A clínica proposta por Freud, no entanto, não é simplesmente o inventário descritivo das doenças da alma; não se reduz a um compêndio sobre técnica de tratamento para afecções como histeria, paranóia, neurose obsessiva; nem é somente uma teoria do aparelho psíquico. Antes, é um método, receptivo às expressões de sentido humano contido na palavra, na metáfora, no corpo e em todas as formações psíquicas, daí sua possibilidade de resistir ao tempo.

Freud e o mundo do mal-estar

      A popularização da psicanálise e a progressiva absorção de suas idéias pelo vocabulário do cotidiano criaram certas distorções dos conceitos psicanalíticos e a colocaram numa condição explicativa, obrigada a conter as respostas prontas para os enigmas, um ícone de nosso tempo, no qual o conhecimento deve existir a priori. Parte deste fenômeno parece justificável, pois o método se presta a analisar qualquer modalidade de formação psíquica, como aprendemos com o conjunto da obra do psicanalista Fabio Herrmann, em particular em seus trabalhos mais recentes – Clínica extensa e alta teoria, inspiradores deste artigo. Inúmeros textos de Freud estabelecem relações entre os conceitos da clínica e fenômenos culturais: psicologia de massas, guerras, obras plásticas e literárias, processo criativo e religião. No pensamento freudiano, indivíduo e mundo se definem mutuamente, o que permite um trânsito do método de um objeto a outro, expandindo o potencial da clínica.
     
      Por várias razões, entre elas a necessidade de delimitar o campo da psicanálise, a própria expansão do movimento psicanalítico distanciou-se das possibilidades do método, privilegiando uma visão restrita do ofício, por identificá-lo automaticamente com o tratamento de consultório, num determinado setting, com um número mínimo de sessões por semana e uma esperada atitude analítica. Há, entretanto, uma demanda pela atualização da representação de psicanálise e do psicanalista, cada vez mais convocados a ampliar suas possibilidades de intervenção, oferecendo-se como instrumental para a escuta da psique que anima pequenos e grandes movimentos da cultura (em hospitais, escolas, centros de especialização profissional, projetos de saúde pública, pesquisas ou análise dos fatos publicados na imprensa).   
Nosso tempo nos impõe a tarefa de manter a disposição investigativa da clínica, como a vemos em Freud, pois os pacientes sofrem as conseqüências por viverem num mundo exigente, hostil. Não seria impróprio dizer que o “mal-estar na cultura” apresenta suas formas contemporâneas, particulares e coletivas, reeditando os ares absolutistas (pressão, controle) presentes no nascimento da psicanálise, ainda que, no plano dos valores morais, a sexualidade tenha sido libertada para em seguida se enroscar nas malhas do prazer compulsório e do senso estético radical.
     
      O mundo em que vivemos está marcado pela revolução sexual dos anos 60, por novas configurações familiares e avanços tecnológicos, pela chegada da informática e pelas relações virtuais que ela cultivou: blogs, chats, orkut, msn, além, é claro, do acesso à pesquisa, aos mercados, aos serviços. Vitrines para que todos vejam e sejam vistos, numa rede de imagens e informações, autênticas ou criminosas, muito além de nossa capacidade de processamento, que deixam no sujeito a marca melancólica do eterno atraso, da inelutável exclusão. A visão panorâmica também expõe um novo mapa geopolítico, pois fronteiras territoriais se esmaeceram e o mercado financeiro, soberanamente, cria novos territórios, governando acima das nações, estas subjugadas pelo senhorio multinacional.
     
      O tempo trouxe transformações de valores e costumes que incidem sobre a clínica psicanalítica, desafiando-a a dialogar com o homem deste cenário adverso, no qual reina uma nova temporalidade, que altera a experiência pessoal. A nova exigência temporal nos faz menos tolerantes aos processos, queremos satisfação imediata. Não há muito tempo para pensar, pois se espera que as demandas sejam resolvidas, literalmente, no ato. É assim que o ato toma o lugar das idéias e do pensamento, e o homem é seduzido pela quimera da ação que dispensa a compreensão e o envolvimento. Haveria algo mais problemático que um regime temporal que leva ao descrédito tudo que exige esforço, dedicação, tolerância e idealiza as ações para “dar conta” das demandas rapidamente? O pior é que há! A expectativa por resultados rápidos, sempre idealizados e nunca alcançados, cria severos níveis de desumanidade:  nenhum humano pode corresponder ao esperado. O descompasso essencial deságua em frustrações, sentimentos de menos valia lancinantes, ausência generalizada de confiança na relação com o mundo. Estamos diante de um potente mal-estar.
     
      Freud, ainda que não o fizesse de caso pensado, foi autor de uma revolução cultural. Atualmente, não haveria nenhum sentido em propor uma nova revolução freudiana adaptada à realidade de nossos dias; caberia somente indicar que a concepção de clínica psicanalítica originária precisa ser mantida. O absolutismo atual (e aprendemos com Freud que sempre há um) é apenas a face contemporânea do absolutismo existente em qualquer período histórico. É uma espécie de instância da psique cultural, a determinar os desejos que podem ser desejados, bem como as inclinações pessoais que devem ser conquistadas e as que precisam ser combatidas.
A cultura, que é criação humana, dita referenciais, delimitando os contornos morais dentro dos quais o sujeito deve realizar seus projetos particulares. A força padronizadora é necessária, pois constitui o princípio de realidade, que viabiliza a vida em comum. Contudo, é nesta tensão natural que a moral pode perder a medida, pois não há exatamente alguém que a governe, o que, invariavelmente, acaba por sufocar a tessitura fina da alma. A naturalidade da tensão que envolve o psiquismo do indivíduo e a cultura, anuncia que sempre haverá um lugar para a psicanálise e para Freud.
     
      As crises pessoais, bem como a própria identidade, se estabelecem na relação com a influência cultural, representada originalmente pela família. O indivíduo, distante de si, responde com naturalidade às pressões externas, confundindo-as com anseios de sua própria natureza; a exigência de prontidão, o corpo esbelto, a performance sexual, a pró-atividade, a certeza de permanente fruição de cada instante vivido, a destreza social e a inclusão intelectual figuram como formas de pressão, com as quais podemos perigosamente nos identificar.
     
       A clínica de Freud, a do primeiro tempo, ao final do século XIX, tratou de incluir a sexualidade no espaço anímico pessoal, como se pode encontrar na envolvente narrativa dos Estudos sobre a histeria, de 1895. A psicanálise também teve seu papel nas mudanças ocorridas no plano moral, graças a Freud. Tanto na análise individual quanto na análise dos fenômenos culturais encontramos a essência freudiana que hoje tem o dom de vitalizar a psicanálise e colocá-la em condições de trabalhar com as patologias atuais. 
     
      “As novas doenças da alma”, expressão usada por Julia Kristeva, psicanalista búlgara radicada na França, solicitam que os psicanalistas movimentem o próprio conceito de clínica, a exemplo do que ocorreu com a primeira clínica psicanalítica. Desta perspectiva, mantemos acesa a clínica do segundo tempo, que é aquela que a psicanálise freudiana inscreve na posteridade; é a clínica universal que, em todos os tempos, pelo fio condutor do método – o elemento invariável – cumprirá sua vocação, sempre receptiva à demanda por libertadora intimidade, eterno abrigo da singularidade e da livre expressão do desejo. Por tudo, mais que a homenagem, que prevaleça a gratidão ao primeiro dos analistas.
       

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

  1. Andréas-Salomé, L. (2001) Carta aberta a Freud. São Paulo: Landy Editora.
  2. Carone, Marilene (1986) “Freud em português: tradução e tradição”. Jornal de Psicanálise. Vol. 37. n. 68 (2004).
  3. Herrmann, Fabio (1997). A psicanálise do quotidiano. Porto Alegre: Artes Médicas.
  4. Herrmann, Fabio e Lowenkron, Theodor/organizadores; colaboradores Iliana Horta Warchavchik, Luciana Saddi, Magda Guimarães Khouri  (2004). Pesquisando com o método psicanalítico. São Paulo: Casa do Psicólogo.

Revista Viver Mente&Cérebro, ano XIV, número 159, de abril de 2006

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