A psicanálise e as relações de poder nas sociedades modernas
Cláudio Rossi
Cláudio Rossi - O exercício do poder exige discernimento, de capacidade de se avaliar uma situação por muitos pontos de vista, de não se deixar levar por pressões ou manipulações mais sutis das emoções. Depende ainda da capacidade de se ouvir e aceitar os outros sem preconceitos e com lucidez. Uma pessoa que se analisa tem melhores condições de enfrentar essas dificuldades. Ao se conhecer melhor aprende a aceitar as diferentes dimensões de si mesma e ter mais sensibilidade às características alheias podendo se relacionar com elas com mais liberdade e criatividade. Como o poder pode prejudicar as relações afetivas? E profissionais? CR - Quando alguém chega a um cargo, a uma posição de poder, todas as suas relações se modificam. Aparecem muitas e contínuas solicitações, aparecem rivalidades e adulações. Idealizações de todo o tipo criam um clima grandioso em torno da pessoa e se ela não sabe lidar com isso perde o pé. A glória sobe à cabeça, a pessoa fica deslumbrada e tende a se sentir mais poderosa do que realmente é. Ou, pelo contrário, desiludida com as limitações concretas do poder e emulada pelas atitudes dos que tudo esperam dela, passa a sentir-se indevidamente limitada pelos outros, irritada e agressiva com os interesses de grupos de oposição e o lado autoritário e ditatorial pode se fazer presente com conseqüências desastrosas. Tudo isso pode ter impacto importante sobre suas relações íntimas e profissionais. O poder, também, se não exercido com extrema disciplina e organização pessoal, pode envolver a pessoa de tal maneira que ela passa a se dedicar a ele todo o tempo disponível que tiver deixando de lado família, amigos e afazeres profissionais. Não é difícil imaginar o que acontecerá quando o mandato acabar e a pessoa tiver que voltar para sua vida normal. Qual a diferença entre poder e autoridade, segundo a psicanálise? CR - Todo poder é delegado. É impossível exercer poder sem um grupo de apoio. Um grupo que considera útil, que depende, de que alguém comande. Uma pessoa tem autoridade quando compreende isso e é capaz de exercer o poder de uma maneira tal, que o grupo que delegou o poder a ela tem seus interesses e necessidades atendidos. Nessas circunstâncias suas ordens, orientações, decretos, ensinamentos, pedidos, são atendidos sem contestações ou conflitos importantes. Quando uma pessoa em cargo de mando, pelo contrário, exerce o poder sem levar em conta os interesses da coletividade que está a ela submetida, torna-se autoritária, arrogante e agressiva. Tudo isso, numa tentativa que com o tempo vai se tornando infrutífera de evitar a perda do controle da situação. Em que circunstâncias o poder pode ser prejudicial? E benéfico? CR - O poder pode ser muito prejudicial para alguém que não esteja preparado para exercê-lo. Pode ser terrível quando submete coletividades inteiras aos interesses, muitas vezes desarrazoados de grupos que o detém. Benéfico será quando for exercido com sabedoria e equilíbrio, levando em conta os melhores interesses da humanidade como um todo. Quanto mais pessoas forem beneficiadas pelo exercício de um determinado poder, mais ele será justo e benéfico. CR - Com equilíbrio visando o bem coletivo, jamais buscando a resolução de problemas pessoais ou de pequenos grupos em detrimento do bem maior, que é o de todos. Qual a explicação para o fascínio que o poder exerce sobre as pessoas ao longo dos anos? CR - Não existe uma resposta genérica para esta pergunta. Pessoas diferentes se fascinam por razões diferentes e a mesma pessoa, mudadas as circunstâncias, pode ser atraída por motivos diversos. Exatamente por isso que a psicanálise pessoal pode ajudar. Numa psicanálise o sujeito pode avaliar suas circunstâncias, seus impulsos e motivações assim como suas intenções e projetos. Isso o torna menos susceptível a ficar fascinado. É necessária uma considerável lucidez e força para fazer frente às pressões grupais contínuas que assolam ou emulam quem está no exercício de uma função em posição de destaque. As reverências, os rituais, a quantidade de pessoas que ficam a serviço, a presteza em que os desejos e comandos são atendidos, tudo isso funciona como uma espécie de mágica. Quem não percebe os perigos e enganos de tudo isso pode ficar “viciado” em toda essa pompa. Homens e mulheres tem a mesma visão sobre o poder? CR - Até muito pouco tempo atrás era comum as pessoas acreditarem que o exercício do poder público era coisa para homem. As mulheres eram as rainhas do lar. Ou seja, no mundo privado elas tinham suas esferas de poder específicas. O aforisma que dizia que “um grande homem tinha sempre por trás de si uma grande mulher” expressava essa maneira de ver as coisas. No mundo contemporâneo, cada vez mais, as mulheres estão assumindo cargos públicos e sua visão sobre o poder está cada vez mais próxima da dos homens. No que se refere à psicologia profunda existem importantes diferenças entre o masculino e o feminino na sua forma de conceber e se relacionar com o poder. Masculino e feminino, porém, são constelações emocionais que ocorrem em pessoas de ambos os sexos. Existem, então, maneiras mais femininas e mais masculinas de exercer e de se relacionar com o poder, tanto em homens como em mulheres. Sob a ótica da psicanálise, o poder é um fim ou meio de alcançar metas? CR - Quanto mais madura e integrada for uma pessoa, mais capaz será ela de exercer o poder tendo por meta o bem comum. Nesse caso o poder será usado como meio. Pessoas imaturas ou com sérios problemas emocionais, também, poderão exercer o poder como meio para atingir metas, só que as metas poderão ser bastante perniciosas para a coletividade. O poder é um fim para aqueles que precisam dele para se sentirem valiosos, queridos, importantes. Isso ocorre quando as questões narcísicas da pessoa estão mal resolvidas e ela poderia se beneficiar submentendo- se a uma psicanálise. O poder é uma busca que se popularizou no mundo moderno? CR - Se por moderno você se refere ao mundo atual, contemporâneo, pode-se dizer que existe uma febre de poder. As pessoas estão desejosas de exercer o poder, têm dificuldade de aceitar as hierarquias e de delegar, querem mandar e agir diretamente. Acredito que estamos vivendo uma importante modificação nas estruturas sociais e no próprio conceito de poder. Estudos aprofundados sobre essa questão estão sendo feitos por vários ramos das ciências e o próximo Congresso Brasileiro de Psicanálise que ocorrerá em novembro em Brasília vai se dedicar, entre outras coisas, a avaliar como estão as pesquisas sobre isso na psicanálise. O exercício do poder público é um meio de exercer a cidadania ou uma conquista pessoal? CR - Podem ser ambas as coisas. Elas não são excludentes. O ideal é que uma pessoa sinta como uma conquista pessoal exercer a cidadania. E como explicar a maneira pela qual os ditadores exercem o poder? CR - Depende do ditador, das circunstâncias e do momento histórico no qual ele atuou, do seu substrato social e cultural, das questões políticas em jogo, etc. Não é possível dar uma reposta genérica para essa pergunta. Pode-se, porém, dizer que a ditadura é uma estrutura onde um grupo que detém o poder submete outros grupos sem dar a eles condições de participar ativamente do processo político, sem ouvir suas demandas e sem dar a eles a possibilidade de opinar ou, até mesmo, de expressar suas opiniões. Pode-se dizer, metaforicamente, que o psicanalista trabalha todos os dias com as ditaduras. Ao dar palavra àquelas partes das personalidades das pessoas, que estão reprimidas, submetidas, desconsideradas, pode-se dizer que a psicanálise promove uma redistribuição de poder dentro dos indivíduos e que nesse sentido promove uma espécie de democracia interna. Acredito que uma pessoa que conte com um estado democrático dentro de si mesma tenha menos vocação para, no exercício do poder, adotar atitudes despóticas e ditatoriais.
ABP NOTÍCIAS - ÓRGÃO DA ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE PSICANÁLISE - ANO IX Nº26 RIO DE JANEIRO JUNHO/2005 |